Adufe 5.0

As armas do meu adufe não têm signo nem fronteira
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As armas do meu Adufe,
não têm signo nem fronteira.

Bem-vindo ao Adufe 5.0


Archive for the ‘Religião’


Aprender com as formigas

Excerto da National Geographic portuguesa de Maio de 2006.

Entrevista de Tim Appenzeller a Edward O. Wilson:

" (…) NG: É óbvio que encontra uma certa espiritualidade na natureza, um encantamento. Como encontra sentido num mundo que surgiu devido a mutações casuais e à selecção natural?

EO Wilson: A mente humana evoluiu para procurar um sentido. O universo é tão belo, complexo e surpreendente… Tal como a vida. Lembre-se da frase de Darwin: "Formas de vidas infinitas, belas e maravilhosas, estiveram e estão a evoluir." Hoje, temos mais indícios disso do que Darwin. Compreendemos isto até ao nível molecular; quão extraordinária é a vida enquanto fenómeno. Só isso convida mais à espiritualidade do que qualquer outra coisa fornecida pelos escribas de um reino do deserto da Idade do Ferro que escreveram a Bíblia Sagrada. Eles criaram uma obra literária impressionante. Mas não compreendiam verdadeiramente o mundo que os rodeava ou as estrelas do céu. Transformaram-nos em metáfora, atribuíram-lhes características poéticas, fizeram o melhor que podiam. Mas ainda assim, ficaram aquém daquilo que a humanidade consegue sentir no que respeita ao sagrado e à beleza estética. (…)

 

Javé não é flor que se cheire

Eu já desconfiava… Sou daqueles que não se sentindo filiado em nenhuma das organizações religiosas disponíveis, nem na verdadeira (a do leitor), nem nas outras, têm uma ideia muito vincada sobre o que acham que deveria ser Deus. Há terceira ou quarta praga das dez que se enunciam no livro do Êxodo fiquei a torcer pelo Faraó… Em nome do fair play.

Help!

Pergunta que me sobrou de ontem: um incréu pode pregar o ecumenismo?

Eles perguntaram (act. II)

Nas cerca de duas horas em que estive no Largo de São Domingos perguntaram-me se era ali que a Câmara ia acender 40mil velas pelos judeus mortos e se era ali que se ia inaugurar o monumento ao judeu de Lisboa… Depois perguntaram-me também, em várias línguas, o que se celebrava ali. Estavam menos de 20 pessoas em volta de uma Oliveira enfeitada com velas entre as raízes e ainda assim (talvez por isso) as pessoas que passavam aproximavam-se e perguntavam… O que é?

Falei com uma simpática beata da Igreja Católica (plena de contradições que me escuso documentar) que desconhecia este episódio da história daquele lugar, falei com uma turísta que repetiu a viagem e o inquérito para saber exactamente o que se comemorava, falei com outro casal que ficou admirado pela distância (500 anos) face ao evento. Mas a noite, além da companhia dos que por ali partilharam com saudável cumplicidade a humilde homenagem (com cerca de 80 velas que ficaram ardendo encostadas ao aconchego da parede do edifício fronteiro à Igreja), trouxe ainda uma longa conversa que eu e a Cláudia tivemos com um curioso e simpático casal caravanista alemão (de Munique/Lago Constança). As perguntas que o homem fez fizeram-me lembrar muito as tuas Lutz: as perguntas dele aos pais enquanto jovem (era homem para estar nos 40) para tentar comprender a história recente da Alemanha, a curiosidade quanto à forma como os portugueses encaram uma memória destas com 500 anos e porque o fazem. E ainda a surpresa por se tratar de uma homenagem pública pioneira e não um hábito antigo… Acabámos falando do encanto pelas viagens, do futebol e da surpresa muito agradável que parecia estar a ser a cidade de Lisboa para eles… e se calhar um bocadinho para nós também.

No final da noite chegou a cacimba, amainou o vento que insistia em apagar as velas e ficaram  três zeloso polícias, a ver-nos virar a esquina. Sim: a homenagem, a lembrança. E mais nada? Eles perguntaram, houve mais qualquer coisa. E ainda bem que assim foi.

Não foram 4 mil velas (lá) Nuno, mas valeu bem a pena.

Adenda: referência na Sic a que cheguei pela Lua

Adenda II: referência hoje na capa (fotografia) e página  13 do Público (Maria José Oliveira) e página 22 no Diário de Notícias (Fernanda Câncio)

Mais logo no Largo de São Domingos ao Rossio

É curioso saber que o estimado Gabriel Silva teve conhecimento da Matança da Pascoela de 1506 atraves deste post do Adufe, datado de Agosto de 2003. Falar do sucedido tem também (essencialmente!) uma função de "serviço público", como se constata.

Hoje, Quarta-Feira, quando a noite ocupar as ruas de Lisboa irei ao Rossio (Largo de São Domingos) com uma pequena luz na mão, tentando resgatar essa memória. 

"A que horas vais?" Perguntam-me alguns leitores pelo correio. Eu estou a pensar passar por lá e por lá ficar um pouco, por volta das 21h00. E espero que fique lá por mim, durante mais algum tempo, ao menos uma vela.

Adenda:

Haverá também quem por lá passe a partir das 20h

Adenda II:

E haverá ainda que por lá passe a partir das 19h (I e II

– Para actualizações ao blogue consulte o post anterior –  

… começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas rua…

21h00? Porque não? 

Republica-se um excerto da Rua da Judiaria [texto de Damião de Góis (ligação para uma bibliografia ficcionada) (1502-1574)]:

«500 Anos: O massacre de Lisboa V

March 27th, 2006 – Testemunhos

Antes que el Rei fosse de Lisboa para Almeirim, ordenou Tristão da Cunha à Ã?ndia por capitão de uma armada, da qual, e do que nesta viagem se fez se dirá adiante, no ano de mil quinhentos e oito, em que tornou. Pelo que nestes dois capítulos, que são já derradeiros desta primeira parte tratarei de um tumulto, e levantamento, que aos dezanove dias de Abril, deste ano de mil quinhentos e seis, em Domingo de Pascoela fez em Lisboa contra os cristãos-novos, que foi pela maneira seguinte.

No mosteiro de São Domingos da dita cidade estava uma capela a que chamava de Jesus, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, com quanto os que na igreja se acharam julgavam ser o contrário dos quais um cristão-novo disse que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta no lado da imagem de Jesus, o que ouvindo alguns homens baixos o tiraram pelos cabelos de arrasto para fora da igreja, e o mataram, e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação convocando-os contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos bradando, heresia, heresia, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus, que então vieram da Holanda, Zelândia, e outras partes, ali homens da terra, da mesma condição, e pouca qualidade, que juntos mais de quinhentos, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, e os corpos mortos, e os meio vivos lançavam e queimavam em fogueiras que tinham feitas na Ribeira e no Rossio a qual negócio lhes serviam escravos e moços que com muita diligência acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo, no qual Domingo de Pascoela mataram mais de quinhentas pessoas.

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Memória

Há 2006 anos, mais coisa, menos coisa, mataram um judeu numa cruz… Em Jerusalém.

 

A Memória e o esquecimento“, pelo Nuno Guerreiro, na Rua da Judiaria.
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Uma vela (III) – actualizado

" (…) Se salvar uma pessoa é salvar todo o mundo, acender uma vela por uma das vítimas do pogrom de Lisboa é acender uma vela por todas elas. Onde quer que seja. Uns acenderão essa vela por causa da memória; outros acenderão uma vela para que a perseguição e o massacre não tenha sentido, nem hoje nem na nossa memória. Não se trata de uma peregrinação enquadrada pela política ou pela redenção da história.

(…)

Por outro lado, gostaria de deixar claro que me parece ridículo que o Estado português peça perdão pelo pogrom de 1506, pela Inquisição de Évora ou de Lisboa, pelo horror causado pelos frades dominicanos, pelos mortos que armazenou e pelo que deixou que se fizesse. As coisas estão feitas. O único perdão possível é não relativizar. A reparação é outra coisa, e só pode ser feita com o coração. Por isso, sim, eu vou acender uma vela no dia 19 de Abril. Nós vamos acender uma vela no dia 19 de Abril (no Rossio, na janela de casa, à porta da igreja de S. Domingos, na nossa rua, à porta da sinagoga, onde quisermos) e isso é uma coisa que não se discute. Que nem sequer está em discussão. (…)"

Francisco José Viegas n’A Origem das Espécies

Adenda: "O Comentário do Alemão" pelo Lutz Bruckelmann

Na sequência deste post e suas ligações. 

Mais contributos

N’O Tempo dos Assassinos, a discussão aqui partilhada continua:

"Ainda na sequência da discussão em torno da iniciativa do Nuno Guerreiro, a Helena, no Dedos de Conversa, e a Ana Cláudia Vicente, n’O Amigo do Povo, levantam um tópico paralelo e bastante relevante: perante o receio da instrumentalização, a desconfiança facilmente se converte em paralisia ou em alienação das formas de associação.

(…)

A manipulação afecta negativamente os fundamentos democráticos da liberdade e autonomia do indivíduo, assim como afecta, mais a jusante, através das reacções de defesa que pode gerar, a forma de relacionamento em sociedade. Os mecanismos de defesa terão de ser muito bem (re)equacionados, de forma a garantir que não estamos a corrigir um mal com outro. Mas que, nesse desígnio, não se esqueça que não é somente um problema que está em questão, mas sim dois, e que existe uma relação causal entre eles à qual não podemos ficar indiferentes."

Entretanto no Quase em Português listam-se, com actualizações, as opiniões recolhidas pela blogoesfera. 

Voltando ao início, na Rua da Judiaria:

Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória."

Actualização de "uma vela no Rossio" II

A propósito de "Uma vela no Rossio" as opiniões sucedem-se, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, por exemplo.

– a discussão prosseguiu animada durante a noite, nas caixas de comentários dos posts acima referidos; destaco particularmente o que se escreveu no Mashamba –
– Prossegue neste post