Adufe 5.0

As armas do meu adufe não têm signo nem fronteira
Random Image

As armas do meu Adufe,
não têm signo nem fronteira.

Bem-vindo ao Adufe 5.0



Uma pequena lição dramática dos últimos dias

Lição: se por desgraça surgir crise internacional que nos afete duramente (cenário provável caso surja nos próximos anos, seja qual for o governo em funções), ao primeiro sinal de recriminação dos credores (antigamente conhecidos como parceiros) devemos negociar de imediato a saída do €uro. É essa uma lição fundamental do exemplo grego. O tempo e o modo são vitais para minimizar a desgraça. Até lá vamos rezando e esperando que o euro seja desmantelado o mais ordeiramente possível. Pode também haver quem acredite em milagres.

Nós somos a Europa?

Só com muita coragem e com muito desespero – ou uma necessidade imperiosa de encontrar esperança – se compreende (de fora) esta votação hoje do povo grego. Inquestionável. Bem sonora ainda que num contexto o roçar o surreal e o absurdo em termos políticos.
Os próximos dias ditarão muito mais do que o futuro dos gregos. Já ontem era assim, mas pode ser que amanhã seja mais visível quão entrelaçado está o nosso futuro.

Se isso não for suficiente para quem hoje está na mó de cima da roda do poder, ao menos que nós, cada cidadão, ganhemos um pouco mais de consciência. Para o melhor e para o pior, tal será fundamental para virmos a ter um bom futuro ou um futuro menos mau.

“Os mais intransigentes são os pequenos países”

“França acusa “países mais pequenos” de serem fatores de bloqueio com a Grécia @TSFRadio 

Finalmente o Ministro das Finanças Francês desmascara a cara de pau da nossa ministra das finanças (e de outros pequenos países) que em público vão dizendo que nada tem a ver com as negociações, que é com as instituições, e que, afinal, no Eurogrupo tem destruído qualquer hipótese de apoio. “Não. A Alemanha não é um factor de bloqueio. Posso garantir que o mais duro não tem sido a Alemanha; têm sido os países mais pequenos que, ao longo destes anos, têm feito esforços consideráveis”. Note-se que ninguém teve de implementar um programa tão extenso e doloroso como a Grécia. Ninguém. E ninguém teve consequências tão negativas.

Das incongruências do Syriza à estupidez portuguesa e de outros pequenos países que impedem o acordo com que outros condescendem se põe em perigo a União Europeia. Registe-se para que alguém não se lembre de mistificar ou de vir com ar pesaroso, hipocritamente capitalizar para ganhar mais um voto em setembro/outubro.

Europa: tragam-lhe comprimidos para a memória

Então não devemos confrontar os credores? Sim, claro!
A nossa desgraça também foi esta ao longo dos últimos anos. Podíamos ter sido um bocadinho mais como os irlandeses, por exemplo. Em vez disso tivemos um ministro das finanças que lá fora era confundido com os elementos da troika. Lembram-se?

Afrontar os credores, à moda do Syriza? Não, isso seria estúpido. Estou a chamar estúpido ao governo grego? Não me atrevo a tanto. Noto que nós não somos mesmo a Grécia, no sentido em que não passamos nem metade das provações. É difícil, de fora, saber exactamente em que ponto está a moral, o amor próprio,o ressentimento e a capacidade de diálogo dos gregos. Será que ainda querem ou é bom para eles ficar no Euro? Se até para Portugal vou tendo dúvidas (que aumentaram com este processo grego) como me posso atrever a zurzir nos gregos sobre esta matéria?

Passos Coelho pede

Passos Coelho curva-se.

No final deste cinco meses o que vejo é que em termos de gestão política estão bem uns para os outros, troika e governo grego. Muita sacanagem de parte a parte.
Mas em termos de responsabilidade quanto ao sucesso de um acordo não há comparação, a do eurogrupo é muito maior. Se, como hoje disse Merkel, a solidariedade é uma pedra basilar da União, então, numa posição de manifesta fragilidade do povo grego e onde há óbvia corresponsabilidade europeia no estado a que a Grécia chegou, a solução teria de ter isso em especial consideração. Como é que uma proposta grega tão bem recebida há exatamente uma semana passou a ser manifestamente insuficiente dois dias depois? Quem é que inventou obstáculos ao acordo? Porquê? Com que resultado?

Nós por cá temos que confrontar os credores com o fracasso das políticas seguidas, confrontá-los com uma alternativa exequível de mútuo interesse. A situação grega e as ameaças que acarreta devem servir para responsabilizar as partes precisamente para a necessidade de maior humildade, franqueza e inteligência na gestão da política europeia e de muito maior equilíbrio, racionalidade económica e social e menor apoio a preconceitos levemente racistas ou nacionalistas. Acima de tudo, os nossos políticos (locais e europeus) devem procurar abandonar a lógica de relacionamento credores/devedores. Esse ato singelo será fundamental para que ainda haja futuro para a União Europeia.
Sejamos crescidos. Ontem foste tu, hoje sou eu, amanhã quem sabe?

União Europeia?

Deixa aqui excertos de um texto cuja leitura recomendo vivamente (“WHERE IS MY EUROPEAN UNION?“), escrito a 28 de junho de 2015 por um europeu, Alex Andreou que não conheço de lado nenhum mas com o qual me identifico largamente:

“(…) I am a Europhile. Not only that, I am a product of the Union. I have structured my life around the idea of free movement; my identity around the notion that I can be more than one thing: Mykonian, Greek, Londoner, British, European. For the first time in my life, I am beginning to wonder, whether the European project is now simply too broken to be fixed. 

Do not misunderstand me. I am passionate about the notion of a Europe of partners, united around principles of solidarity and trade. I just think we have taken wrong turns. So many and so wrong that I feel very uncertain as to whether we can ever find our way back.  (…)

Last winter, I stood outside the Opera House in the centre of Athens looking at the posters in the window. I was approached by a well-dressed and immaculately groomed elderly lady. I moved to the side. I thought she wanted to pass. She didn’t. She asked me for a few euros because she was hungry. I took her to dinner and, in generous and unsolicited exchange, she told me her story.

Her name was Magda and she was in her mid-seventies. She had worked as a teacher all her life. Her husband had been a college professor and died “mercifully long before we were reduced to this state”, as she put it. They paid their tax, national insurance and pension contributions straight out of the salary, like most people. They never cheated the state. They never took risks. They saved. They lived modestly in a two bedroom flat.

In the first year of the crisis her widow’s pension top-up stopped. In the second and third her own pension was slashed in half. Downsizing was not an option – house prices had collapsed and there were no buyers. In the third year things got worse. “First, I sold my jewellery. Except this ring”, she said, stroking her wedding ring with her thumb. “Then, I sold the pictures and rugs. Then the good crockery and silver. Then most of the furniture. Now there is nothing left that anyone wants. Last month the super came and removed the radiators from my flat, because I hadn’t paid for communal fuel in so long. I feel so ashamed.”

I don’t know why this encounter should have shocked me so deeply. Poverty and hunger is everywhere in Athens. Magda’s story is replicated thousands of times across Greece. It is certainly not because one life is worth more than another. And yet there is something peculiarly discordant and irreconcilable about the “nouveau pauvres”, just like like there is about the nouveau riches. Most likely it shocked me because I kept thinking how much she reminded me of my mother. 

And, still, I don’t know whether voting “yes” or “no” will make life better or worse for her. I don’t know what Magda would vote either. I can only guess. What I do know, is that the encounter was the beginning of the end of my love affair with the European project. Because, quite simply, it is no longer my European Union. It is Amazon’s and Starbucks’. It is the politicians’ and the IMF’s. But it is not mine.

If belonging to the largest and richest trading bloc in the world cannot provide dinner for a retired teacher like her, it has no reason to exist. If a European Union which produces €28,000 of annual GDP for every single one of its citizens cannot provide a safety net for her, then it is profoundly wicked. If this is not a union of partners, but a gang of big players and small players, who cut the weakest loose at the first sign of trouble, then it is nothing.

Each one of us will have to engage in an internal battle before Sunday’s referendum. I will be thinking of you, Magda, when I vote. It seems as honest a basis to make a decision as any. “

Referendar a manutenção no euro de Portugal?

Há uma semana a proposta do OE2013 previa que o subsídio de desemprego iria descer 6%  (para um mínimo de €394) agora, volvida uma semana, o governo avança com uma proposta de corte sobre o valor mínimo do subsídio da ordem dos 10%. O que irá propor amanhã? E daqui a uma semana?

Como acreditar que há um rumo, um plano, um futuro com a política atual, seja pelos constrangimentos externos, seja pelo desatino político interno?

Que garantias temos que os sacrifícios de hoje não culminarão, a prazo, na inevitabilidade do destino que, para já, quase todos querem evitar, que é a saída do euro?

 A sensação que tenho, pela irredutibilidade e insustentabilidade do plano de salvação é que estamos a adiar o inevitável acrescentando sacrifício à provação final que não conseguiremos evitar. Se assim for, estamos a perder tempo, energia vital (com a emigração a passar além do que seria razoável) e a cavar um buraco cada vez maior a somar à desonra de virmos a ter de pagar apenas parte e/ou a más horas. Apenas.

O tempo de falar claro e de decidir não pode ser daqui a um ano ou quando der jeito ao calendário eleitoral de algum soberano estrangeiro que há muito deixou de respeitar os princípios basilares que vinham enformando a construção europeia. Dos nossos parceiros pouco mais temos que uma sucessão de cimeiras, promessas vãs de evolução, adiamentos sucessivos e desmentidos em catadupa sempre que algo que se desvie do cânone comece a ganhar momento.

O que fazer então? É tempo de clarificar exatamente o que nos pedem e aquilo que estamos dispostos a fazer. Será preciso referendar a manutenção no euro para que se fale claro e se analisem, confirmem ou desmintam os pavores que se agitam?

É fundamental definir coletivamente qual o limiar a partir do qual considerar outro rumo deverá passar a ser a opção a seguir, ponderando conscientemente os prós e os contras, no curto, médio e longo prazo. É tempo de retomarmos, na medida do possível, o nosso destino nas nossas mãos.

Não tenho ilusões: um povo que não se dá ao respeito, nem acarinha ou é autorizado a acarinhar um justo equilíbrio entre o destino imediato e a subsistência sustentável da sociedade e economia que o compõem, nunca poderá dar um contributo válido para qualquer projeto europeu.

A partir de quando é que prosseguir por um caminho em que ninguém acredita pode passar a ser reconhecido como pura estupidez autorizando o regresso a um mínimo da racionalidade e dignidade?

Bad boys

A não perder o singelo desabafo do meu amigo Mapari em “Mandaram-me cartões de crédito agora dizem que tenho que mudar de vida” no Economia & Finanças. Um excerto:

” (…) É preciso ter lata, uma imensa lata. É isto que penso quando ouço, hoje, um banqueiro cheio das melhores intenções a dizer que temos de mudar de vida. Temos de deixar o crédito, o nosso modo de vida dos últimos anos. Tudo de acordo mas não consigo esquecer-me da sucessão de cartões de crédito NÃO SOLICITADOS que recebi nos últimos anos enviados pelo banco público de que o referido senhor tem sido presidente. Mandaram cartões, ofereceram (oferecem) milhentas hipóteses de não pagar a conta do cartão, quase implorando-me para fraccionar pagamentos, pagando naturalmente módicos juros sempre acima dos dois dígitos.(…)”