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Europa: tragam-lhe comprimidos para a memória

Então não devemos confrontar os credores? Sim, claro!
A nossa desgraça também foi esta ao longo dos últimos anos. Podíamos ter sido um bocadinho mais como os irlandeses, por exemplo. Em vez disso tivemos um ministro das finanças que lá fora era confundido com os elementos da troika. Lembram-se?

Afrontar os credores, à moda do Syriza? Não, isso seria estúpido. Estou a chamar estúpido ao governo grego? Não me atrevo a tanto. Noto que nós não somos mesmo a Grécia, no sentido em que não passamos nem metade das provações. É difícil, de fora, saber exactamente em que ponto está a moral, o amor próprio,o ressentimento e a capacidade de diálogo dos gregos. Será que ainda querem ou é bom para eles ficar no Euro? Se até para Portugal vou tendo dúvidas (que aumentaram com este processo grego) como me posso atrever a zurzir nos gregos sobre esta matéria?

Passos Coelho pede
Passos Coelho curva-se.

No final deste cinco meses o que vejo é que em termos de gestão política estão bem uns para os outros, troika e governo grego. Muita sacanagem de parte a parte.
Mas em termos de responsabilidade quanto ao sucesso de um acordo não há comparação, a do eurogrupo é muito maior. Se, como hoje disse Merkel, a solidariedade é uma pedra basilar da União, então, numa posição de manifesta fragilidade do povo grego e onde há óbvia corresponsabilidade europeia no estado a que a Grécia chegou, a solução teria de ter isso em especial consideração. Como é que uma proposta grega tão bem recebida há exatamente uma semana passou a ser manifestamente insuficiente dois dias depois? Quem é que inventou obstáculos ao acordo? Porquê? Com que resultado?

Nós por cá temos que confrontar os credores com o fracasso das políticas seguidas, confrontá-los com uma alternativa exequível de mútuo interesse. A situação grega e as ameaças que acarreta devem servir para responsabilizar as partes precisamente para a necessidade de maior humildade, franqueza e inteligência na gestão da política europeia e de muito maior equilíbrio, racionalidade económica e social e menor apoio a preconceitos levemente racistas ou nacionalistas. Acima de tudo, os nossos políticos (locais e europeus) devem procurar abandonar a lógica de relacionamento credores/devedores. Esse ato singelo será fundamental para que ainda haja futuro para a União Europeia.
Sejamos crescidos. Ontem foste tu, hoje sou eu, amanhã quem sabe?

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