Adufe 4.0

As armas do meu Adufe não têm signo nem fronteira
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Archive for Julho, 2005

Tugir em Português II

Julho 25, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política 6 Comments →

Quanto mais os partidos, por via dos seus lideres, apregoam que vão apostar na renovação de ideias, pessoas, organização mais me parece evidente que estamos perante um distúrbio organizativo/mental qualquer. Dizer que se vai fazer como tentativa de autoconvencimento para se fazer, nem sempre é o melhor método. Fica apenas o marketing político de ocasião.

Na alternativa ao bloco central, de que alguns se recordarão, na primeira semana houve 50 bloggers e seus amigos que se inscreveram no grupo de discussão. A esmagadora maioria nunca abriu o pio e eu, tendo financiado o processo (pagando o blogue para multi-editor) e tentado dinamiza-lo no primeiro momento (sem monopolizar), cedo confirmei as minhas fracas expectativas sobre o projecto. Foi uma brincadeira que dependendo daquelas 50 pessoas e das suas vontades era formada essencialmente por quem queria que alguém se responsabilizasse por uma liderança, um auto-proclamado e muito sabedor líder, provavelmente. Pouco se conseguiu construir em grupo que perdurasse por este meio. “Sociologicamente” a falta de tempo matou o projecto; foram vários os dinamizadores que alegaram justamente esse aspecto para que a coisa caísse de podre sem ter começado. A nossa vidinha laboral não se compadece com o ritmo político e suas exigências. Fazer política não pertence às principais prioridades de quem tem de trabalhar para sustentar uma família. Julgo não errar muito que hoje, fazer política sem um fito puramente egoísta é uma actividade para a qual estamos indisponíveis.
Vem esta conversa a propósito do grito de alma do Carlos Castro no Tugir, inspirado pelos últimos desenvolvimentos sobre as eleições presidenciais que aqui quero publicamente subscrever e promover. Das suas palavras (”os partidos políticos portugueses não têm quadros políticos.”) ressalta uma necessidade: precisamos fazer dos partidos centros de competência para a governação do Estado. E para aqui chegarmos temos de combater o caciquismo, a ignorância, os estrangulamentos institucionais que servem de tampão à própria lógica democrática no seio partidário. Temos que ter coragem para dar coerência à organização de todos os servidores do Estado, precisamos tornar cristalino o financiamento partidário (quantos caciques não perderiam o seu elan?) e precisamos construir um regime condigno, socialmente justo e eficaz de atracção, remuneração e consagração dos políticos no activo e seus partidos.
Não foi por acaso que o primeiro tema que tentei debater na Alternativa ao Bloco Central foi o do financiamento e organização do sistema partidário e não foi com surpresa que as reacções que obtive dos outros participantes apontavam o carácter quase esotérico e pouco realista face às prioridades da vida mundana que atribuíram ao tema da discussão. Continuo a achar que essa discussão é basilar a qualquer processo de dignificação e refundação de qualquer partido. Talvez em tempo de crise económica seja particularmente difícil dar a esse tema relevância e encontrar para ele alguma resolução. Mas, de uma forma algo enviesada, julgo que ele nos rebenta na cara quando vemos a forma politicamente oca e fragilizada com que chegaram ao poder os actuais lideres dos dois maiores partidos portugueses (clara nas suas pouco mais que ocas ideias e inspiração e no seu mais que evidente objectivo primordial de ganhar as próxima eleições a todo o custo - veja-se a composição de listas para algumas câmaras).
Rebenta-nos na cara também quando lemos um texto como o do Carlos e não podemos deixar de reconhecer como aponta de forma apurada o principal risco de falência para o nosso sistema democrático. Os actuais partidos são incapazes de dar conta do recado que lhes foi atribuído pela Constituição. O ridículo de Cavaco e o milagre de São Soares a José Sócrates são disso exemplo cristalino.
Serão eles exemplo dos últimos políticos que restam sobre o solo lusitano?

Como resolver a coisa?
Acima de tudo é fundamental contribuir para o processo de mudança com aquilo com que melhor somos dotados. No mínimo estar à escuta, com espírito crítico, em busca de novas práticas, fazer isso é criar chão para boa sementeira. Haverá quem nos venha oferecer boas e más sementes nos próximos anos, saibamos onde enterrar a nossa enxada.
O empreendedorismo que nos falta ao nível empresarial, parece também evidente ao nível político, com a agravante de que, nos dias que correm, ir para a política oferece-nos de entrada um “emerdamento” automático e quase inelutável. Dediquemo-nos ao trigo e ao joio que não há outro remédio melhor. Sobre a inevitabilidade deste rumo temos as lições da nossa trágica história de aventureirismos ditatoriais como referência.

A esquerda no poder e a blogoesfera

Julho 25, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política Comments Off

Depois do honroso exemplo (excepção) do Tugir a que voltarei mais logo, uma opinião muito pessoal:

Este primeiro arremedo de crise política por que passa o governo tem sido muito esclarecedor entre os blogues à esquerda. Muito poucos têm sido capazes de passar o teste, acrescentando uma capacidade crítica nula ao que tem acontecido. Mas este ainda é o meio mais fácil e barato para combater essa agitação e propaganda, nomeadamente dando-lhes o troco devido quando se tentam disfarçar daquilo que não são: produtores de pensamento. A alternativa a esta atitude é simplesmente: ignorá-los, um método a que também tenho recorrido por aqui mas, por enquanto, conjunturalmente insatisfatório.
De qualquer forma agradecem-se contributos nesta batalha;-)

Tugir em Português I

Julho 25, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política Comments Off

“Ainda falta algum tempo para conhecer os candidatos presidenciais. Mas, caso se confirmem os nomes avançados, à direita e à esquerda, podemos tirar a devida lição: os partidos políticos portugueses não têm quadros políticos.
Os partidos cresceram em democracia mas agem como crianças.
Os dirigentes actuais, quando receiam qualquer embate, chamam sempre pelo papá para resolver os problemas, como se este os pudesse resolver. Não só não resolve, por que os tempos são outros, como agrava.
O país caminha sem políticos.
Como é que se pode pedir liderança e rumo quando ninguém tem capacidade para assumir responsabilidades?
Estes tempos são bem a prova do porquê dos défices.
O défice dos números continua a reflectir (e penso que pouco) o défice político nacional.
Os partidos não geraram, e pelos vistos nem pretendem desenvolver, no seu interior, massa crítica.
Alguém referia há uns tempos, e bem, o apagamento, nos últimos anos, das fundações políticas, que podiam promover, como é sua competência, massa crítica.
Para que servem a Fundação Antero de Quental, o Instituto Sá Carneiro ou o Instituto Adelino Amaro da Costa? Exceptuando-se alguns encontros públicos para debater uma ou outra questão.
Os partidos estão repletos de caciquismo. Caciques sempre mais conhecedores das listagens de militantes do que da realidade da rua e das necessidades e prioridades do país. Mais preocupados com os benefícios pessoais, do que com a apresentação e assunção de orientações.
Os partidos portugueses têm um sério défice de conteúdo político.
A democracia partidária está debilitada.

Carlos Castro, Tugir em Português, 24 de Julho de 2005

Curiosidades de além mar

Julho 23, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política 6 Comments →

Corrijam-me se me engano.
Nos Estados Unidos da América o combate ao défice orçamental do Estado Federal é motivo de distinção política: os republicanos estão-se pouco lixando com o amanhã e rebentam alegremente com as finanças públicas, reduzindo os impostos que recaem sobre os rendimentos dos mais abastados e investindo exorbitâncias na área da defesa, por exemplo, enquanto minam tudo o que é função social do Estado (cuidados de saúde, segurança social, meios de comunicação social públicos, escolas públicas…), bem como, o estatuto dos funcionários públicos retirando-lhes regalias e direitos adquiridos.
Por lá são apenas os liberais (democratas) que erguem a bandeira do equilíbrio orçamental propondo a reposição da carga fiscal do passado, racionalizando as despesas militares (tentando pela via diplomática arranjar cofinanciamento para as soluções das aventuras militares que desencadearam quase unilateralmente), liberalizando o mercado dos medicamentos (um pouco na linha do que o actual governo português se está a preparar para fazer) e reafirmando o carácter universal dos cuidados médicos, entre outros. Reconhecem contudo que o equilíbrio das contas públicas é condição necessária para ser possível ter um estado interventivo e capaz de assumir as responsabilidades sociais e o carácter regulador, políticass mais caras à esquerda. No ar fica mesmo a sensação de que o desequilíbrio orçamental que George W. Bush iniciou ainda antes do 11 de Setembro de 2001 faz parte da agenda conservadora: não há nada mais eficaz do que rebentar com o Estado levando-o ao ponto de serem necessários varios anos de políticas com o fito quase exclusivo de equilibrar as contas para garantir que o Estado não terá condições de meter o bedelho onde os lobbys que dominam as políticas conservadores não querem.
Sendo ou não verídica esta interpretação o resultado prático das políticas dos republicanos terá inevitavelmente esta consequência.

Por cá, é virtualmente impossível perceber diferenças a este nível. Por cá, seguramente a esquerda não teve o seu Bill Clinton que conquistou um superavite em período de crescimento económico. Por cá todos, da esquerda à direita se preocupam com o défice, todos são corresponsáveis pela situação actual, todos apresentam as mesmas (más) soluções para o problema.
Pior que o ridículo tabu de Cavaco sobre as presidenciais (mais um, igualmente revelador do calibre da figura) é o tabu latente que se encontra na esquerda em querer enfrentar o problema pelo lado das despesas estruturais e definir e assumir os seus valores políticos.
Tão cedo não haverá outra maioria absoluta do PS, perante o desafio nacional existente e o singular ciclo eleitoral (com mais de três anos de poder executivo após as próximas autárquicas e presidenciais) tudo o resto deveria ser pouco mais que insignificante

Políticos com vistas largas perceberiam que esse também é o melhor interesse do partido socialista e, acima de tudo, do país.

Uso do colete reflector

Julho 23, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Portugal 1 Comment →

Combatendo um mito urbano:

” (…) • Os coletes retrorreflectores, tornados obrigatórios nos termos do Código da Estrada, não têm que se encontrar alojados no interior do habitáculo do veículo, podendo encontrar-se na bagageira;
• Não existe qualquer imposição legal que imponha, a quem está obrigado à utilização do colete, que aquando da saída do veículo tenha que ter o colete colocado;(…)”

Mais detalhes nesta página da Direcção Geral de Viação.

Por falar da DGV, convido-vos a compararem o site português com o homólogo espanhol… Que tal apanharmos umas ideias para melhorar o serviço público? A diferença é abissal! Como será a diferença de orçamento do estado em termos relativos?

Parar para perguntar

Julho 23, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política Comments Off

Se António Vitorino fosse ministro estaria agora demitido?

«Não é manifestamente a Ota e o TGV que vão criar no prazo de três anos a dinâmica de crescimento necessária», disse Vitorino, que falava esta quinta-feira num almoço conferência organizado pela Câmara de Comércio Luso-Alemã.

in Diário Digital, via Tugir

Humor sportinguista

Julho 22, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Desporto Comments Off

Tinha aqui mais um post político alinhado mas vai ter de esperar.
Temos Sporting! Pode ser que aqueles jogadores consigam fazer alguma coisa do treinador.
O Paíto vai ser emprestado a quem? (please!!!!) Enquanto vai e não vai o junior Nani podia ensinar-lhe a cruzar a bola em condições.

Bom mas vamos ao que interessa: se o campeão nacional não for o Dinamo de Moscovo será o Sporting!
Quanto ao Roca esperemos que durante a pré-época continue a perder peso porque ontem a receio do ano passado manteve-se:
Um dia deste o árbitro manda para o jogo… por haver duas bolas em campo.

Leituras políticas

Julho 22, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política 8 Comments →

Duas sugestões de leitura, “Era uma vez um ministro” de Pedro Lomba:

“Eu li e reli o artigo de Campos e Cunha sobre as finanças e a economia. Ainda não percebi como é que um artigo daqueles, que qualquer pessoa pode subscrever, atira um ministro para fora do Governo. Campos e Cunha não disse nada de estranho ou ofensivo. O seu texto resume-se a uma ideia e recomendação a condição das finanças públicas não admite que o Governo faça despesas sumptuárias e investimentos onerosos. Campos e Cunha quis que o Governo percebesse em conjunto esta verdade básica. Um artigo de jornal parece um meio apropriado.(…)”

e “Síntese” de Vicente Jorge Silva”, ambas no Diário de Notícias de hoje:

“(…) Contra a obsessão do défice, que punha em xeque o despesismo guterrista, o PS começou por desvalorizá-la, pondo o acento tónico no crescimento económico. Foi, finalmente, obrigado a confrontar-se com ela, mas sem assumir os custos da síntese entre o saneamento das finanças e a recuperação da economia. Os preconceitos ideológicos e o maniqueísmo político entre o PSD e o PS impediram um esforço básico de lucidez e racionalidade. Se a sombria obsessão do défice mergulhou a economia em depressão, o keynesianismo iluminado da Ota e do TGV ameaça converter-se numa miragem funesta. Continua a faltar uma visão estratégica que produza a síntese entre os recursos disponíveis e as apostas prioritárias. Sem isso, qualquer ministro das Finanças está condenado a ser um lunático ou um masoquista profissional.”

Haja memória (act.)

Julho 21, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política 1 Comment →

A OTA e o TGV estão no programa do governo diz-nos o João do Glória Fácil (ele e outra blogoesfera com que costumo concordar).
O ex-ministro não terá lido o programa do governo ironiza o JHP.
O programa do governo é a bíblia de qualquer ministro.

Se formos por aí, caro João, explique-me lá onde é que está nesse programa a referência ao aumento do IVA ou do imposto sobre os combustíveis?
A pergunta que lhe faço não é mero desforço, é muito objectiva.
As premissas para a elaboração do política fiscal que constam no programa estavam erradas. Foi esta a explicação do Primeiro-Ministro: afinal o défice era muito maior do que ele pensava.

Não é então razoável que eu, eleitor deste governo, me pergunte (não é preciso o ministro) que TGV e que aeroporto se vão fazer? Comboio a 200 ou a 320 à hora? Com que dinheiro? Com que gestão? Com que sustentação e com que impacto nos Orçamentos de Estado futuros? E com que retorno esperado para a economia nacional?
Ver sair o Ministro das Finanças no dia a seguir a este ter repetido que os detalhes finais destes investimentos públicos estão dependentes da apreciação de viabilidade económica numa óptica de contas públicas, mina qualquer tipo de credibilidade que tenha atribuido a esta governação. É portanto mais que lícita a indignação e um pedido de explicações relativo às perguntas que estão por responder. O que vão fazer com o meu crescente e inusitado contributo para o Orçamento do Estado?
A partir do dia em que se registou o aumento dos impostos passou a ser totalmente legítimo perguntar qual é, efectivamente, o programa de governo do José Sócrates. Merecerá rasgados elogios, o ex-ministro? Não iria tão longe mas claramente as perguntas que nos deixa por responder são um legado bem mais valioso do que o flanco aberto que nos deu à crítica com a questão das reformas ou dos erros dos serviços das finaças na cálculo do défice.

Campos e Cunha III

Julho 21, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política 8 Comments →

Para conclusões opostas às que aqui retirei convido-vos a passar pelo descrédito.
O trágico disto tudo é que Luís Campos e Cunha foi apenas coerente (no último artigo e nas declarações na assembleia) com as ideias que divulgou em Setembro de 2004 (ver dois posts abaixo). Nem todos os membros do governo, a começar por José Sócrates, têm a possibilidade de apresentar estas credenciais se olharem ao que disseram e fizeram desde então para cá.
É verdadeiramente espantosa esta unanimidade crítica “à falta de lealdade” do Ministro das Finanças quando o que vejo é um comportamento absolutamente errático e, repito, incoerente do governo. Naturalmente Campos e Cunha estava a mais no governo, as ilações que retiro é que não são exactamente as mesmas implícitas em muitos dos caros bloggers que leio. Haja memória!

Ver também I e II.

O Adufe sobre Campos e Cunha a 8 de Março de 2005 (II)

Julho 21, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política 1 Comment →

“(…) Mais que as expectativas que nos criam as pessoas, restam as questões fundamentais quanto à estratégia do jogo. Luís Campos e Cunha, futuro Ministro das Finanças, teve nesse aspecto a contribuição mais informativa e significativa que pude ouvir no fim-de-semana: a sua missão será claramente garantir o equilíbrio das contas públicas. Foi interessante ouvi-lo sublinhar, na sua primeira intervenção política, que sem se vencer onde tantos outros falharam (redução da despesa, reforço da colecta fiscal por via da maior eficiência), ou sem contar com as benesses de uma, por enquanto longínqua, retoma económica, restará o eleitoralmente penalizante e economicamente pouco recomendável cenário de o Estado cobrar um esforço extra pelos serviços que presta, aumentando os impostos. Uma mensagem que serve bem a todos, incluindo os futuros colegas de governo.

Adufe, “Uma boa demonstração de reciclagem”, Março de 2005

Conclui-se agora que as tais primeiras declarações de Campos e Cunha foram o primeiro dos problemas internos no governo. Apenas a personalidade singular e o excelente currículo com provas dadas de Fernando Teixeira dos Santos (presidente do regulador modelo que temos em Portugal que dá pelo nome de CMVM) me permitem mitigar um pouco o desgosto com a percepção do absoluto bluff político em que se fundou a “proposta” do Partido Socialista liderado por José Sócrates até ao momento. É absolutamente inaceitável admitir, na actual conjuntura do Estado, este tipo de amadorismo hoje posto a nu.
Um momento negro para a actual maioria absoluta e, principalmente, para o país. Assim é difícil ter esperança.

O Adufe sobre Campos e Cunha a 8 de Março de 2005 (I)

Julho 20, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política 1 Comment →

O agora ex-ministro das finanças há dez meses:

Recupero um posto do desaparecido Pula Pulga onde se reproduzia um outro artigo do agora ex-ministro da finanças Luís Campos e Cunha.

«Sete medidas para um programa de esquerda»*

«Estas sete propostas, naturalmente, não pretendem constituir um programa de governo, mas no seu conjunto teriam maior impacto no nosso futuro que muitos programas a que temos sido sujeitos. A maioria das medidas são, mais ou menos, conhecidas e até têm sido levadas a cabo nalguns países europeus. O que este texto tem de novo é a defesa articulada de medidas que poderiam ser o sal num programa de esquerda para mudar o país. Obviamente, cada uma delas teria que ser devidamente enquadrada num conjunto mais vasto.

1. Acabar com o sigilo fiscal (a par de uma declaração de riqueza) constitui a minha primeira proposta, seguindo, aliás, a prática dos países escandinavos. O acesso geral aos rendimentos brutos de cada um seria uma forma muito eficaz de controlo pelos cidadãos da evasão fiscal. Este combate terá sempre um impacto pequeno na consolidação orçamental, mas por razões de moralidade e equidade é absolutamente necessário prosseguir essa luta. Acabar com o sigilo bancário é menos eficaz e teria efeitos muito negativos no sistema de pagamentos a retalho, actualmente um dos mais eficientes do mundo, com os correspondentes custos para o consumidor. Não deixa de ser exemplar o que se passou na vizinha Espanha, em que o fim do sigilo bancário para efeitos fiscais levou ao surgimento de ‘gangs’ especialistas em extorsão (pelas contas bancárias fica-se a saber a vidinha de cada um…) e de acordo com os ‘rankings’ mundiais a Espanha continua a ter níveis de corrupção semelhantes a Portugal. Note-se que o sigilo bancário para efeitos fiscais já foi muito suavizado no segundo governo socialista e, naturalmente, não existe para crimes graves como tráfico de droga, prostituição, lavagem de dinheiro…

2. A segunda medida proposta também teria impacto fundamental na moralização da vida pública portuguesa: alterar a lei da droga. A droga deveria ser distribuída gratuitamente por receita médica, acabando, assim, com a possibilidade de realização de lucros ao maior negócio provavelmente existente em Portugal. O marketing dos traficantes deixaria de existir, “dealers” deixariam de ter interesse em seduzir os nossos filhos, a sociedade e as instituições seriam menos corrompidas e todos estaríamos mais seguros. Neste aspecto o exemplo dos suíços - também eles são um pequeno país - deveria ser tomado como referência.

3. Na área partidária é fundamental acabar com o financiamento privado dos partidos. Esta terceira proposta de financiamento exclusivamente público, que há muito vem sendo falada, permitiria isolar os partidos de compromissos pouco claros e de conflitos de interesses a que estão sujeitos, ficando mais imunes a “lobbies” ilegítimos, quando não mesmo ilegais.

4. Mas é também necessário atrair mais e melhores pessoas para a actividade política. Há dias, por mero acaso, revi a lista dos deputados-constituintes de 1975-76. De facto, estava lá o melhor que o país tinha e, comparativamente, a situação actual é triste e paupérrima, pese embora o empenho de algumas andorinhas em fazerem a Primavera… Sugiro, assim, como quarta proposta, que o vencimento das pessoas em cargos públicos seja (apenas como exemplo) 50 por cento acima da média dos rendimentos do trabalho declarados em IRS nos 3 anos anteriores a tomar posse! Em cargos estritamente políticos é necessário remunerar a função, mas também a pessoa. Desta forma afastar-se-iam da política os menos honestos e poderíamos contar com pessoas mais qualificadas. O impacto na despesa pública seria mais que compensado pelos resultados na qualidade e transparência da governação do país.

5. Noutra área bem diferente, pelo menos aparentemente, seria fundamental acabar com a dependência do financiamento das câmaras em relação a novos projectos urbanísticos. Esta quinta proposta, seria essencial para acabar com a construção indiscriminada, em prejuízo da indústria do turismo de qualidade, da preservação do património arquitectónico e arruinando o ordenamento do território, já para não referir as mais que indesejáveis dependências (de partidos e câmaras) face a empresas de construção civil.

6. Simultaneamente, sexta proposta, seria levantado um imposto sobre a terra: meio cêntimo por metro quadrado, por exemplo. Este imposto seria muito fácil de cobrar e não prejudicaria os mais pobres, o que não deixa de ser muito interessante, pois a teoria económica ensina que os “melhores” impostos são também em geral socialmente injustos. Este caso é a excepção. Mas os efeitos secundários do imposto sobre a terra seriam muito mais importantes. As terras improdutivas seriam postas no mercado, naturalmente os preços cairiam o que beneficiaria o investimento no sector primário. O emparcelamento surgiria sem imposição estatal, o abandono das terras seria penalizado, a dita desertificação seria contrariada… e até os fogos de Verão teriam mais dificuldade em se propagar…

7. Por último, não posso deixar de referir uma medida que me é particularmente cara e que defendo há anos e anos: introduzir o inglês na pré-primária. Já que outra linguagem ninguém ouve, saliente-se que esta é a forma mais barata para o Estado de ensinar inglês. Mas muito mais importante, alteraria a prazo a especialização e as vantagens competitivas na localização da actividade económica, factor essencial no mundo globalizado de mobilidade de capitais. Há muito que se refere uma banalidade: “o modelo português de desenvolvimento está esgotado”! Mas a generalização, desde a pré-primária, do ensino do inglês faria mais pelo desenvolvimento que as dezenas de “pedipes” levadas a cabo nos últimos 20 anos! E mais barato, mais uma vez…

Um velho professor meu avisou-me um dia que nunca se põe mais de uma ideia num artigo. Eu ousei falar em sete, mas com a consciência de que cada uma delas merecia um artigo, em especial o problema do sigilo fiscal como contraponto ao sigilo bancário, a alteração das leis da droga e o imposto sobre a terra.

Mais ainda, a lista é manifestamente incompleta. Por exemplo, apenas para falar do ensino superior necessitaria de vários artigos.

No entanto, com estas sete medidas teríamos a prazo, mais ou menos curto, políticos, partidos e um Estado mais fortes e independentes para enfrentarem os grandes “lobbies” e as forças corporativas mais imobilistas. E elas são muitas, desde logo o poder económico, mas também os professores (incluindo os universitários), os juízes, os médicos, os jornalistas…

Um aviso importante: defendendo estas medidas, perder as eleições poderá ser uma honra, mas é também muito provável!»
___________________
* Luís Campos e Cunha, Público, 5 de Setembro de 2004

Salvou-se o inglês na pré-primária, a sétima medida… e talvez a primeira.

Uma outra perspectiva

Julho 20, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Ciência e Tecnologia 1 Comment →

Barulho no cimo de montanhas, poluição visual que poderemos desmontar com uma chave de parafusos quando acharmos conveniente? Serão desvantagens que valha a pena sublinhar ao pé das desvantagens que nos trazem os ventos carregados de poeira carbónica?

Ode à Emigração - versão económica (haverá outra?)

Julho 20, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Política 2 Comments →

Leitura no adufe para os próximos dias nas linhas que se seguem (o post é inadmissivelmente longo):

(more…)

Benquerença Rock 2005

Julho 19, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: Pessoal 2 Comments →

Pois que já estão montando as tendas dos refrescos…
Benquerença_julho2005 002.jpg
… e ainda há mais que um fio de água para um mergulho retemperador ou banho de sol nas margens da Ribeira da Meimoa.
Benquerença_julho2005 032.jpg
Na Benquerença (prima para obter detalhes) a partir da próxima sexta-feira.



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