Ainda que haja hipocrisia no abandono da hipocrisia por alguns dos seus praticantes – tantas vezes surge lá para o fim da vida ou depois de abandonarem o poder que podia de facto ter mudado alguma coisa -, acredito que um hipócrita não está condenado a sê-lo para sempre nem para todas as áreas do seu relacionamento humano.
Não ser hipócrita tem um preço e além do preço imediato que vem na etiqueta costuma implicar o pagamento de juros. Mas o reverso também é verídico, sendo que, em muitos casos, a hipocrisia se escolhe porque à cabeça custa muito menos.
No longo prazo, com os juros à mistura, tudo se complica; mas no longo prazo, o pagante inicial pode nem estar já entre os vivos.
Cliches à parte, vai-se tornando evidente o grau e o empenho hipócrita dos políticos que nos governam dentro e fora de fronteiras. Há um cheiro pestilento no ar.
Bem vistas as coisas, a hipocrisia está em extinção. Já não se engolem sapos, fez-se disso o prato preferido na União Europeia. E nós a ver, alguns com os dedos queimados pelos votos passados.
A ler: Adormecidos por Francisco José Viegas e a Diplomacia do Cinismo pelo Luís Novaes Tito.
2 replies on “A hipocrisia é gradativa e não é incurável”
Pois é. O António Barreto publicou há umas três semanas no Público um texto muito bom sobre Política e Mentira. No fundo, parece ter-se perdido qualquer vergonha na manifestação de inverdades. Tornou-se até uma qualidade orgulhosamente exibida, sem quaisquer remorsos. Embora chichê, não deixa de dar que pensar…
Essa do termo “inverdades” também foi uma descoberta e tanto. Político que a tem na língua leva logo com ferrete de “impróprio para consumo”. Já nem a um mínimo de clareza e de coragem vamos tendo direito.