Pequenas coisas
Com o passar dos anos simpatizo cada vez mais com esta notícia recorrente que chega no final de Março: “Relógios adiantam na madrugada do próximo domingo“.
Com o passar dos anos simpatizo cada vez mais com esta notícia recorrente que chega no final de Março: “Relógios adiantam na madrugada do próximo domingo“.
Como habitualmente o Instituto de Genética Médica Jacinto de Magalhães divulga no início do ano o número de testes do pezinho realizados no ano anterior aproximando com um rigor de quase 100% o número oficial de nascimento que o INE estima e divulga no inicio de 2º trimestre. Segundo dados deste ano terão nascido em 2007 menos 3000 bebés que em 2006, fixando o número em cerca de 102 000 crianças, o número mais baixo de sempre sendo que a queda parece estar a acelerar e não a abrandar.
Parece que isto não vai lá por decreto, nem com encerramentos generalizados de escolas, nem com encerramentos generalizados de serviços públicos no país semi-despovoado, nem com os 2% de crescimento do PIB ao ano, nem com abonos pré-natais visíveis à lupa.
Sermos menos é um problema no sentido em que é uma mudança para o desconhecido. E leva a perguntas peregrinas como:
- Quem é que vai comprar essas casa todas que estão à venda?
- Se interior está largamente abandonado por falta de gente, vamos também ter matagais a florescer nos subúrbios e centros mais mal planeados?
- E quem é que vai mudar-me a fralda quando eu chegar aos 80 anos?
- Para quando a eutanásia?
Desde 30 de Setembro de 2003, altura em que fiz o teste do Political Compass, passaram mais de quatro anos. Os meus trinta anos chegaram, nasceu uma filhota e a vida ganhou outras pespectivas, a experiência política ganhou outros enfoques… O posicionamento política também terá mudado? E em que sentido? Mais para a “direita”? Mais para o autoritarismo?
Em finais de 2003 escrevia:
Este é um blogue de um libertário de esquerda segundo o Political Compass.
Para memória futura:
Your political compass
Economic Left/Right: -6.88
Libertarian/Authoritarian: -6.05Ai Louçã, Louçã, diga o compasso o que disser daqui não levas nada!
E hoje, a que resultado cheguei? A este:
Your political compass
Economic Left/Right: -5.25
Social Libertarian/Authoritarian: -7.13
Um pouquito mais para o centro mas bem no miolo da “esquerda” e mais extremado naquilo a que designam de Libertarian. Se calhar um Liberal Social como sugerem simpaticamente nos comentários os vizinhos Luís Humberto Teixeira e Miguel Duarte.
Adoro oferecer prendas. Adoro receber prendas. Desconfio que haverá muito poucas civilizações presentes e passadas que não tenham reservado um momento, uma época para festejar colectivamente o amor. Acho inspirador o genuíno espírito natalício seja ele o pagão, seja o cristão, ou algo parecido que caiba noutra religião e que se comemore por estes dias.
Acho tristíssimo que a mensagem se perca, tal como acho tristíssimo que se ponham todas as culpas em cima do (inegavelmente poderoso) sistema de indução ao consumo patrocinado por quem quer vender.
Festejar o Natal não é hipócrita. Só é hipócrita quem diz festejar e ignora ou chega a abominar o que é suposto estar a representar. Desesperadamente triste é quem oferece prendinhas exclusivamente por obrigação. Por outro lado, acho revoltante que se confunda com estes todo aquele que quer festejar efectivamente. Uma festa que, sublinhe-se, é por definição transbordante. E aí, a culpa para o mau ambiente, meus caros, não está em quem é triste por si, está antes em quem só sabe apontar o dedo. Em quem não faz o mínimo esforço por compreender o que vê, em estudar minimamente os símbolos em presença, em quem vê na generalização todo um programa simplificado e perfeito.
A minoria existe - não sei sequer se é minoria, e nem isso é minimamente relevante - mas o que é certo é que existe, é que se anima, é que festeja de facto a partilha com os outros. Basta um para poder dar essa garantia.
A superioridade moral é uma coisa…
Boas festas!
P.S.: continuo tão herege como no dia em que fiz A pergunta.
Os posts por ler acumulam-se aos milhares, os posts por escrever aos milhões. É assim há vários meses, cada vez mais assim nas últimas semanas. O Adufe anda meio suspenso. Entretanto, o trabalho dá uma ajudinha extra: não há tempo para bloguíces. Tentemos cingir-nos ao essencial.
“Ter filhos pode matar” havemos de ler ainda um dia na publicidade a preservativos, a caixas de pílulas ou a radicais tratamentos de castração, isto para não falar já numa referência igualmente paternalista às inevitáveis limitações que a criação tem sobre o cartão de crédito. Afinal ninguém precisa que se lhe diga que “Mais um puto acarreta em média ter de esperar mais Xis anos para poder mudar de carro”.
Como é que eu alguma vez aqui teria chegado, vivinho e espevitado, se os meus antepassados tivessem passado a vida preocupados de forma doentia com a sua auto-preservação? Nunca, digo-vos já. E desconfio que se por ventura por cá andasse, provavelmente, não seria muito espevitado. Imagino-me mais pálido, com olhos e nariz maiores, mãos (ainda) mais nervosas e orelhas giratórias. No mínimo.
E agora, se me dão licença, vou reflectir para outra freguesia. Até breve!
Quando se está a ler um livro por vezes outras histórias colam-se ao enredo de forma indelével. Não que o leitor entre num delírio criativo - também pode acontecer - mas porque o mundo nos entra pela leitura adentro oferecendo-nos personagens que poderiam conviver com o que se está a ler.
Aconteceu-me hoje quando viajava do Luxemburgo rumo ao Porto. Andava entretido com um inspector em investigações pelo caribe quando o paternalismo de hospedeiro de bordo (pois se elas são hospedeiras o que são eles?) pôs-me à conversa com uma passageira que vim a confirmar muito depois ser cabo-verdiana. Falando em Francês que o Português fazia pouca lei em Santo Antão há 60 anos atrás e o criolo local não é próprio para não iniciados quanto mais para rapazinhos esbranquiçados, desenrolou-se a história paralela à do livro que se quedou no banco livre que nos separava. Eu servido de pouco mais do que de ouvidos (estimulados pelo ruído de fundo) e por um francês apenas suficiente, ela servida de olhos e de uma voz tristes, ambos de quem buliu muito mundo. A senhora estava servida ainda (desconfio) do saber como compôr uma história ao gosto do ouvinte, um dom inato nos Cabo-Verdianos com que me cruzei até hoje.
Fez-se uma conversa que durou meia viagem: uma morte inesperada que ajudou à urgência do desabafo, as multiplas traições da vida e dos vivos, o dinheiro, o poder, a luxúria, a família, a saudade, o amor, Deus, a tristeza e a cozinha, sempre a cozinha feita profissão no meio da vida daquela mulher a rondar os 70.
Entre a TAP e a Portugália, no trânsito aéreo de Pedra Rubras com Lisboa em vista, perdeu-se o número de telefone e qualquer contacto futuro. Fica garantido porém, como um separador que há-de sempre acompanhar o livro em questão, a memória perene de um capítulo adicional em "Um céu demasiado azul".
Como irá de desenvolvimentos mais aquele episódio da história de Cabo-Verde, pergunto, enquanto leitor, distraído do mundo que passa rápido à velocidade de cruzeiro.
Regressei aos livros, resolvi mudar de vida. As consequências sobre o que disto transparecerá para o blogue, para os meus hábitos gastronómicos, amorosos, higiénicos e pseudo-desportivos são absolutamente imprevisíveis.
Dedicado à Bomba, porque lhe ganhei uma simpatia especial nestes últimos dias, esta brincadeira de um moço que desconhecia, Norberto Lobo (nota especial para os últimos minutos num Carlos Paredes Gipsy):
Recordou-me a minha analfabeta filhota há poucos dias: querer saber, procurar a Verdade é algo inato no ser humano. A fadada-malfada curiosidade!
Como um leve tabefe recordou-me também, de pronto, que manipular o outro a seu contento é outra actividade não menos inata, nem menos relevante, nem sequer menos estimulante.
Vou espreitar o Paiva e talvez o Douro. Até para a semana!
Este editorial é um dos maiores disparates da história do Diário de Notícias. Apreciem que apesar de prometer tornar-se um hábito, ainda não acontece todos os dias.
Usam-se dados de uma sondagem cuja recolha de opiniões terminou a 18 de Maio para ajuizar as consequências na popularidade das gaffes e asneiras governamentais havidas após essa data.
Não é só a classe política que vai tendo os seus percalços, o jornalismo não vai por melhor caminho. Não, estes dois exemplos não fazem um país, eu não me revejo nem num, nem noutro.
Tenham lá paciência mas sou um bocadinho melhor que isto.
Amália Rodrigues canta David Mourão Ferreira numa da mais comoventes e impressionantes interpretações que alguma vez ouvi.