Fazer a síntese no PS e arredores – II de II

(Continuação daqui: "Fazer a síntese no PS e arredores – I de II")

Usando o Luís e o Carlos como bitola, julgo estar algures pelo meio deles em termos políticos. Em termos geracionais teria andando na tropa com o Carlos. Em algumas matérias vejo-me mais próximo do Carlos noutras aproximo-me mais do Luís. Não me ocorre nenhuma situação em que tenha ultrapassado o Luís pela esquerda ou o Carlos pela direita mas é possível que venha a suceder.

Voltando ao PS, não vejo Manuel Alegre como um exemplo satisfatório para o futuro (ou alguém por ele, como ele) nem tão pouco ando feliz da vida com o Governo que temos em muitas matérias (notem, os distraidos que ainda não saibam, que o Carlos também não é um seguidista acrítico).

 

 

Em alguns aspectos estou claramente mais à esquerda do Governo, ou assim parece – o experimentalismo no serviço nacional de saúde com semi-privatizações, com o caminho para a oneração sem nexo dos actos médicos directamente ao paciente e com a manutenção dos estratagemas contabilísticos que toldam qualquer possibilidade de conseguir acompanhar a evolução financeira do dito cujo parecem-me perigoso voluntarismo que põe em perigo o que acho deveria ser o papel do Estado nesta matéria: praticamente absoluto, custe o que custar (exagero só um bocadinho). E digo-o depois de ter olhado "lá para fora".

Noutros aspectos como sejam a simplificação fiscal com a retirada da grande maioria das políticas redistributivas que se encontram nela embutidas parece-me que estou mais próximo de uma concepção ultra (?) liberal.

Em todo o caso, além de esquerdas e direitas ando há anos com a sensação que anda tudo a navegar à vista escasseando os exemplos de política que tenham um substrato estratégico (estou-me pouco lixando se será ou não uma ideologia) e que como tal se traduzam em medidas coerentes, entendíveis, eficientes e eficazes. Assim de repente, até nem me ocorre um exemplo de área de acção política em que não se ande a navegar à vista quer pelos exemplos dos governos PS, quer pelos do PSD que tivemos. Alguém se atreve a apontar um?

Se algum dia percebermos que um partido como o PS terá de pensar em algo mais do que contribuir para apagar os fogos do país, terá seguramente de se pensar que tipo de país se quer e que tipo de papel estará / estaremos disposto(s) a desempenhar na democracia representativa. Hoje, sendo um partido do centrão é também o partido mais vulnerável a cair numa prática que o leve a uma área onde não representa concretamente ninguém no espaço eleitoral. Ou seja, é um partido "opavel".

Ou seja, se calhar já há muito que percebemos que um partido como o PS tem mesmo que pensar o país. Defesa, Justiça, Relações Externas, Educação, Saúde e por aí adiante em busca de um todo coerente. Mas se assim é porque este não o fez antes de ser poder?

Acreditando que há lobbys, forças poderosas com interesses concorrentes (aos de muitos eleitores, por exemplo) a tentar manipular o poder político, dá muito jeito que os partidos não tenham de facto uma marca muito forte no sentido em que esta exija que se comprometam com medidas de política concretas, já com algum detalhe. Dá pouco jeito que as bases sirvam para mais do que agitar bandeiras ao sabor da agenda de campanha. Há uma causalidade que me apresentam como pacífica mas que me perturba: a ideologia subsiste nos extremos, para se chegar ao poder há que prescindir dela. Parece-me que a história é mais complexa, pois o que vejo é falta de pensamento próprio no "arco governativo", além do trabalho corrente de marketing, (quase sempre amador) naturalmente.

Um à parte: Estive uma única vez numa reunião-debate do PS (aberta ao público em geral) e confesso que não estava à espera de ouvir tantas intervenções interessadas e interessantes dos ditos militantes de base (a maioria aquilo que poderia chamar de pessoas comuns). Não sendo estatisticamente representativa, confesso que fiquei desconfiado que haveria algures na estrutura do Partido algum estrangulamento pois nem um milésimo daquele dinamismo parecia transparecer para o grande público. Talvez um dia consiga recolher mais exemplos que me permitam uma opinião mais experimentada mas por interposta pessoa juntei testemunhos semelhantes ao meu que me permitem desconfiar que não falho em muito na conclusão final.

Fazer passar a tanga que se vão descer os impostos como o fizeram Durão Barroso e José Sócrates é já uma banalidade mas é apenas uma única medida que não sendo cumprida tem danos limitados. Foram poucas as medidas concretas adicionais que subsistiram no ideário colectivo provenientes dos programas de governo defendidas em época eleitoral. Em bom rigor estamos perto de votar de cruz, tal como no seio dos partidos também é comum apoiar de cruz quem dá aparentemente melhores garantias de um sucesso imediato.

A falha é dupla do "mercado eleitoral", nem os eleitores se importam (de facto, sejam quais forem as motivações, há efectivamente uma saturação e uma descrença alargadas), nem há quem queira e/ou consiga apresentar-se pela diferença, com uma ideia global cativante e instruída ao nível político. Não há quem eleve o debate.

Permitam-me tentar uma amostra do caminho das pedras. O que quero dizer com que tipo de país se quer? Comecemos por responder a que tipo de Estado se quer. O actual Governo, inevitavelmente e sem surpresa anda a navegar à vista traindo amiúde os poucos princípios genéricos que o eleitor julgava que iriam ser defendidos. O PM até pode vir com a semântica argumentando que nunca se disse "exactamente" que uma qualquer promessa era uma promessa de facto (recordo-me do disparate que foi prometer ou "ter como objectivo" a criação líquida de mais 150 mil postos de trabalho até às próximas legislativas) mas não é com um contracto deste calibre que passaremos à profissionalização desejável da vida política tão defendida pelo próprio PM. Transbordamos de provas de amadorismo em várias áreas, infelizmente. Seguramente eu t
eria dificuldades em fazer melhor, mas eu não sou profissional da política, certo?

E sim, repito-me mas a maior traição que senti acho que foi mesmo a que envolve o SNS: pagar "taxa moderadora" por internamento ou por intervenção cirúrgica não tem defesa possível em lado nenhum se se pretende ter um SNS universal e gratuito. Bom, mas este artigo já vai longo e não aqui que se vai mudar o mundo. O essencial que tinha para dizer para já está algures expresso nas linhas ali de cima.

Em suma, a minha terceira via ainda está para nascer, espero que haja no sei do PS quem a patrocine. Haverá ainda algum tempo, mas porquê deixar para amanhã o que pode vir a fazer falta já ontem?

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