Pior cego é aquele não quer ler

Quando para começo de conversa reduzimos a exposição de factos a um choradinho ultra-corporativista e entramos a abrir com elevado sarcasmo, desculpe a sinceridade, chegaremos seguramente a uma pobre correspondência, caro João.

Quando continuamos constatando o óbvio de que andamos em tempo de decisões, onde muitas vozes com interesses estabelecidos dizem de sua justiça, para com isso desvalorizar "mais uns" que falam, chegamos a uma concepção infeliz de participação cívica e de tomada de posição democrática.

Quando não achamos nada de especialmente digno de nota o facto de que talvez até tenhamos tido mais Ministros da Defesa quanto Ministros da sempre polémica e emotiva área da Educação e de seguida desvalorizamos qualquer situação grave que possa subsistir há anos na Defesa porque há outros problema noutras áreas da governação, transmitimos uma concepção das funções e capacidades do Estado muito suis generis. Diria que muito pouco abonatória das capacidades executivas deste regime.

Mas é interessante que foque este aspecto João, na minha opinião a volatilidade dos Ministros da Defesa resulta apenas da baixa prioridade desde sempre dada à Defesa, eu diria mesmo do total desconhecimento e desprezo, com a consequente falta de objectivos do poder político durante os últimos anos. Na Educação o problema talvez tenha sido "excesso de paixão"…

A sua recomendação final:

"E, já que vem a talhe de foice, obviamente que não considero a Defesa como uma das nossas prioridades de primeira linha no actual momento. Diria que se trata de uma posição realista."

tem sido escrupolosamente seguida há demasiado anos, particularmente pelos governos socialistas, o que juntamente com alguns assaltos ao erário público patrocinados pelos governos do PSD e pelo mais recente Ministro Paulo Portas (a tal questão dos complementos de reforma que Mendes Cabeçadas classificou hoje em entrevista à TSF e ao DN de impraticável por serem orçamentamente inviáveis), tem levado a sucessivos desperdícios financeiros para o Estado e sua consequente descredibilização sem que deles as FA tirem proveitos ao nível da sua produtividade.

Em certo sentido não se trata de uma questão de prioridades caro João, trata-se de uma situação de emergência. Há uma emergência para que o poder político defina o que quer e que o adeque ao quanto pode, garantindo de caminho a máxima eficiência e eficácia dos recursos existentes. Andar sistematicamente a encher um e a esvaziar outro balão, simplesmente não é praticável quando as depesas de investimento são tão avultadas e os custos de manutenção e de utilização facilmente antecipáveis. Numa palavra falta: gestão. Em duas falta: estratégia. Em três falta: conhecimento. Em quatro falta: responsabilidade.

O que está em causa, caro João, não é, ao contrário daquilo que quer fazer crer, uma posição de elevada superioridade das FA face ao comum funcionário público ou apenas (ainda que também) onde cortar com a despesa corrente. O que deve estar em causa é o objectivo das Forças Armadas, é a pergunta do "para que é que elas devem servir". Se há menos dinheiro reduza-se ainda mais o efectivo porque seguramente não haverá também dinheiro para inevitavelmente avultados investimentos em equipamento. Melhor, extingam-se os ramos, limitemo-nos a ter polícia marítima e uns helicópteros para missões de salvamento. E tenhamos coragem de assumir tudo o que isso implica. Ou será que essa discussão não lhe interessa?

Caro João, tudo seria mais higiénico e honesto se cidadãos como João ou como Vital Moreira tivessem a coragem para assumir de forma mais clara e mais lata aquilo que defendem para a expressão militar da soberania nacional. É que, por muito que lhes custe e que seja incómodo à estratégia de resumir tudo a questiunculas mais ou menos umbiguista e pouco solidárias de "mais um grupo" corporativo, há um ponto abaixo do qual todo o investimento na Defesa Nacional é um desperdício. Em vez de poupar uns quantos milhões no Ministério da Defesa face ao ano anterior está a desperdiçar tudo o resto que para lá destina.

Como é óbvio, a resposta fácil que me envia na volta do correio alegrando-se em denunciar mais uma corporação passa completamente ao lado daquilo que o país deveria estar a exigir deste governo: uma justificação mais do que financeira para as reformas que tem pela frente. É esse o exacto grau da dificuldade do "estado a que isto chegou" particularmetne na área da Defesa, onde a questão é urgente há demasiado tempo.

Termino pedindo-lhe também desculpa pela sinceridade, mas tendo ouvido atentamente as perguntas do seu colega Eduardo Dâmaso ao Almirante Mendes Cabeçadas, fico convencido de que próximos editoriais no Diário de Notícias sobre a área da Defesa beneficiarão dos conhecimentos mais aprofundado do seu colega. O Eduardo Dâmaso que lhe explique o que levou aos custos que o Estado tem de pagar com intervenções especiais fora do País e já agora que lhe conte como se têm processado esses pagamentos em alguns casos.

Um grande abraço e, apesar das críticas, obrigado pela resposta.

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