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A dupla vida de Veronique à escala global

Eu tirei muitas lições pessoais (não, não andei a contar espingardas – as opiniões pessoais e sua história interessaram-me mais como objectos de estudo pessoal, sendo irrelevante, para o que aqui digo, o rosto ou o nome dos personagens) e confirmei uma teoria muito íntima (e nada original) ainda que a expensas próprias, pois isto de debater, conseguir ler e perceber os outros e tentar replicar é estimulante mas também desgastante, extremamente desgastante se nos dermos efectivamente ao trabalho e almejarmos um efectivo, ainda que algo utópico, passo em frente. É sempre preferivel não ter que passar por esse desgaste, mesmo que se esteja a falar apenas de um debate, disparando teclas e mais teclas…  Quem não quer ser amado? Será esse, o da disputa, o caminho mais fácil?… E no entanto…

Esta história dos cartoons foi (e continuará a ser) muito mais do que um fait divers, uma micro-causa, uma demarcação de território entre tribos, para pegar na terminologia do curioso enunciado que Pacheco Pereira vai construindo.

Não me entendam mal, a particularidade da discussão não se deve à novidade do tema ou dos argumentos. O valor intrínseco do debate neste momento do tempo e do espaço provém dos seus efeitos dinamizadores e catalizadores. O que esteve (e está) em causa baralhou as velhas e estafadas cartilhas da política corrente relegando-as para um segundo plano (não desmerecendo, o seu merecido lugar) e, por outro lado, despertou alguns indivíduos para o Dilema, para a definição do que é um dilema. Não há nada como um boneco para generalizar um conceito, mesmo que sobre o boneco e não efectivamente do boneco.

Tenho para mim que pôs muita gente a pensar, a pôs em causa o conforto dos caminhos trilhados, apresentou o desconhecido a algumas cabecinhas que não encontraram nas referências do costume as ideias que julgavam resultar simples de somas singelas, puros sofimas disfarçados de silogismos -ainda que desconfie que muitas dessas cabecinhas só o confessem para os seus botões, por enquanto.

Talvez a percepção de que o que é considerado como adquirido está sempre em risco não tenha chegado apesar de tudo a muitos, não chegou certamente a todos nesta pequena esfera, mas talvez, talvez tenha ido além do que é normal nestas conversas em círculo estrito…

Pôs alguns a fruirem de uma rara espécie (felizmente rara!) de pureza de pensamento (retirando ao relativismo o carácter de instrumento de uso universal para a construção do pensamento) e pôs outros a defender, de forma menos consistente do que o habitual, que nada há para pensar ou discutir, porque nada está em causa além da necessidade de se manter uma espécie de fórmula geral de interpretação e convivência no e com o mundo, sustentada no muito ocidental e proverbial senso comum, supostamente apurado ao longo de séculos de tentativa e erro.

Para as mentes mais simplistas, algumas das "velhas alianças" soçobraram. Para outros olhos, ficou provado que há vida para além da matriz e que há um admirável e perigoso mundo novo que não existe apenas nos livros de história e que pode não se resumir à vidinha.
Não, não são os tambores da guerra, é apenas o PRESENTE que está aqui connosco acertando-nos na cabeça com o peso do seu passado, forçando-nos a "resolvê-lo", convidando-nos a viver cada dia, em cada acto, uma vida em comunidade.

Não se iludam: somos todos responsáveis, mesmo todos. Afinal somos demasiado parecidos, uns com os outros…

E depois disto, que tal passar pel’A Origem da Espécie

2 replies on “A dupla vida de Veronique à escala global”

Só agora li este artigo e acrescento que as certezas absolutas parecem estar a ficar cada vez mais absolutamente incertas. O poder da imagem impressa dos cartoons ou o poder da imagem televisiva das manifestações de rua? A excitada cobertura dessas manifestações não poderá ser sabiamente aproveitada para excitar o deslumbrado “ocidental”? Qual é afinal o papel do tal “repórter sempre em cima do acontecimento”? E já agora: somos beatificamente pela “liberdade de expressão”? Ou será que no nosso catedrático e intocável dicionário existe um significado para “responsabilidade de expressão”?

Só agora li este artigo e acrescento que as certezas absolutas parecem estar a ficar cada vez mais absolutamente incertas. O poder da imagem impressa dos cartoons ou o poder da imagem televisiva das manifestações de rua? A excitada cobertura dessas manifestações não poderá ser sabiamente aproveitada para excitar o deslumbrado “ocidental”? Qual é afinal o papel do tal “repórter sempre em cima do acontecimento”? E já agora: somos beatificamente pela “liberdade de expressão”? Ou será que no nosso catedrático e intocável dicionário existe um significado para “responsabilidade de expressão”?

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