Uma Casa na Madragoa
(A aldrava que ilustra o texto não é a de uma casa da Madragoa mas antes da residência do Embaixador da Argentina que fica nas traseiras do Adamastor, ao miradouro da Santa Catarina)

A propósito das aldravas…
Uma Casa na Madragoa
Em criança, costumava visitar uns familiares que moravam na Rua da Esperança. Chegada à porta, uma grande porta de duas folhas empoleirada do alto de dois degraus, batia-se com a aldrava duas vezes (era um 2º andar). De lá de cima espreitavam e sorriam; então a porta abria-se vagarosamente, quase fantasmagoricamente, para a escuridão.
A escada era provida de um curioso sistema de cordas e arames que, junto ao corrimão de cada andar, puxava-se uma segmento de corda e a porta da rua abria-se, depois, com o seu peso, fechava-se ruidosamente.
Depois de subirmos os íngremes degraus de madeira, primeiro às escuras e depois já com a claridade das janelas de escada, chegávamos à não menos interessante porta do 2º andar. Era grande, robusta e também de duas folhas. Havia uma argola que se puxava para tocar um sininho.
Entrar na casa das minhas tias era, para mim, entrar num antigo conto infantil.
Numa das salas havia uma telefonia de capela, um louceiro com uns copos que se chamavam sidónios (alguma alusão a Sidónio Pais) e figuras de louça do cómico americano Harold Lloyd.
Na cozinha pavimentada com o belo ladrilho hidráulico, havia uma grande talha para a água, em barro vidrado com uma torneirinha de latão, onde por vezes estava pendurada uma pescada arrepiada para o almoço do dia seguinte (não tinham frigorífico). O trem de cozinha estava todo pendurado numa das paredes e aí estava também uma caixinha com a palavra “areia” escrita – antigamente não havia esfregões de aço, a louça era “areada”.
A sala de jantar era a mais bonita da casa. Os puxadores das portas, de vidro facetado, tinham o mesmo tom de verde forte das paredes e nestas inúmeras faianças originais de Rafael Bordalo Pinheiro.
Depois mudaram-se para Alcochete. Mas lembro-me quase fotograficamente da casa da Madragoa onde eu me entretinha a brincar com botões, comia um franguinho corado delicioso e depois dormitava ao som da conversa interminável das mulheres.
Laura Garcez


Outubro 6th, 2004 at 15:1
Depois de passar a minha infancia na linda Madragoa,parava na rua das Trinas para ver o mar la longe,por volta do convento das trinas.OH quantas historias eu ouvia sobre esse convento.Cada vez que la ia,depois mais tarde sentia um pouco d’eu mesmo sair de mim
Outubro 17th, 2004 at 19:1
Adenda a “Uma Casa na Madragoa”
Esqueci-me de mencionar um pormenor da cozinha da dita casa. Havia uma pia a um canto que servia tanto para despejos de águas com de sanita. Para esta última serventia, colocava-se um calço de madeira para a pessoa se sentar mais facilmente. Lembro-me que, ainda no tempo da minha mãe, um insulto para uma pessoa baixinha era chamar-lhe “taco de pia”.
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Resposta a zim-zim
Apesar de conhecer, de passagem, a Rua das Trinas, nada sei do seu convento e das suas histórias. O meu conhecimento da Madragoa limita-se `Calçada Marquês de Abrantes, Rua da Esperança e Travessa das Isabéis onde se situava a porta da dita casa.