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Sai uma alforreca com espinhas para a mesa do fundo (rev.)

Ora digam lá se não é mesmo possível termos melhores políticos do que estes:

“O grupo parlamentar do PS vai apresentar amanhã uma declaração de voto, após a votação dos projectos de lei do Bloco de Esquerda e de os Verdes sobre o casamento entre homossexuais. Apesar de votarem contra os diplomas, os deputados explicam que estão a favor da união entre pessoas do mesmo sexo.
(…)”

in Público.

Como diria o outro “É proibido, mas pode-se fazer… só que eles não fazem.”
Seja qual for a opinião de cada um, não há volta a dar-lhe. Estou 100% com as Marianas que regressam e ingressam com os seus amigos relativos.

P.S.: E o MEP como votaria? O Rui Marques votaria contra, eu votaria a favor e de seguida passariamos ao que nos une e nos preocupa, algo imensamente mais vasto do que estas fracturinhas que alguns teimam em eleger como as únicas questões para as quais parece haver combustível político.

7 replies on “Sai uma alforreca com espinhas para a mesa do fundo (rev.)”

“O Rui Marques votaria contra, eu votaria a favor e de seguida passaríamos ao que nos une e nos preocupa, algo imensamente mais vasto do que estas fracturinhas (…)”

É portanto um assunto pouco importante.
Ó Rui; eu ainda engulo essa ideia se vier de pessoas que nunca se casaram e não pensam casar-se. Mas tu casaste-te, alguma importância (material e/ou simbólica) dás ao casamento. É incoerente. E há tantas incoerências neste debate… Há dias, por exemplo, o Mário Crespo defendia num jornal a sua posição contra, dizendo (entre algumas barbaridades) que não precisava de tornar pública a sua orientação sexual. Mas depois exibe na televisão a sua aliança de casamento HETERO!

É um assunto menos importante que pelo menos 100 outros. Se quiseres exemplos é só pedir.
E é também um assunto que tem uns desgraçados defensores que à semelhança do que fizeram com outras fracturas conseguem sistematicamente o milagre de colocar as coisas na agenda de tal forma que conseguem destruir qualquer hipótese de consenso. Digamos que isto do 8 ou 80 particularmente em questões fracturantes costuma ter um efeito previsível: dá argumentos aos mais extremados e anula os moderados. No fundo privilegia a questão simbólica na sua máxima pureza em detrimento da prática e das pequenas vitórias simbólicas.
Tenho a certeza que dentro do MEP as seguintes duas questões teriam % de voto bem diferentes:
Aceita o casamento de homossexuais?
Aceita que um casal gay possa ter acesso às mesmas protecções e salvaguardas (nomeadamente ao nível do direito à herança e de direitos de assistência ao parceiro) que qualquer outro casal?
Para mim, pessoalmente isto é ridículo: eu simplificaria e escusava-me a inventar uma terceira via à moda inglesa e francesa, mas se essa 3ª via antecipassem em largos anos a defesa de direitos dos gays eu acho que seria um ganho e não uma derrota!
Só que isso não se consegue elegendo a fractura pela fractura como O único tema a discutir apostando sistematicamente numa postura de superioridade moral. O mundo não é a preto e branco, nunca foi…
Imagino que haverá gays interessados em casar (por acaso tenho alguma curiosidade me saber qual a % de gays que o desejam verdadeiramente) mas também sei que há gays que mais do que o casamento apoquenta-os a insegurança nestas matérias que a figura da união de facto acarreta. Para estes últimos o BE está-se pouco lixando. Eles que aguentem porque o BE é um partido de “causas”. Neste caso esta é uma forma irresponsável de fazer política e diria mesmo que no exclusivo interesse do “programa identitário” do BE. O BE não consensualiza, força o outro a seguir o seu caminho.
Quanto ao MEP, também acontece o mesmo: a forma como a fractura é apresentado convida pouco à reflexão e contribui objectivamente para desvalorizar o tema que fica assim manchado mais pelo seu ferrete partidário do que pela sua dignidade intrínseca. Desconfio que o tema esteja mais alto nas minhas prioridades do que para o Rui Marques, mas mesmo assim, olhando para a Big Picture mantenho a visão pragmática: há uma alocação desproporcionada de recursos escassos (capacidade de reflexão política pública) dedicados aos tema fracturantes, numa sociedade que ainda tem muito que pedalar mesmo ao nível da defesa dos direitos humanos (que são violados a níveis mais básicos e transversais no nosso país). Pode ser algo chocante para quem tem este tema do casamento gay como caro, mas o país precisa de ter um movimento político que batalhe para chamar à ribalta outro temas com outra seriedade. Alguém com outras prioridades e que vá alem do comentário de mercearia sobre as contas correntes ou em alternativa sobre as questões fracturantes. A política e os males do país não se resumem a isto, eu diria até: infelizmente.

Um casamento com outro nome seria uma discriminação, uma hipocrisia e um absurdo. Os escravos também tinham um nome diferente para o seu casamento (contubérnio). Como diziam os gatos fedorentos, vamos chamar-lhe o quê? Aloé Vera? Semáforo? Vrrnhiec?
Quanto ao suposto “excesso” de protagonismo da questão… Quanto mais cedo se resolver a questão, mais rapidamente se deixa de falar nisso! A cobardia, hipocrisia e calculismo político do PS, com o pormenor aberrante da disciplina de voto, é que nos condenou a prolongar o debate mais uns tempos! …

Pois sim, também já o disse, chamar-lhe outra coisa é …bizarro, mas o que é mais hipócrita, pactuar com isso ou pactuar objectivamente com a negação dos direitos aos gays que queiram ter acesso a uma igualdade de facto em termos de organização da sua vida diária?
Se no país que tens, hoje, não consegues mais do que “o mal menor”, porque não tentar para já deixar o “óptimo” em banho maria deixando pelo menos de estar no “pior dos males”?
Sim, o PS merece a crítica que fazes que também aqui fiz mas nota que foi exactamente isso que o BE capitalizou. Explicando melhor: não tenho a mínima dúvida que o BE não acreditava haver reais hipóteses de fazer vingar uma lei tão abrabgente (que envolvia a adoptção, recordo). E com isso extremou mais as coisas, vincou o tal ferrete e afastou-nos do bom caminho. O BE não foi menos calculista do que o PS. Fez o que convém ao seu povo, particularmente aquele mais desprevenido e que está sempre de “tiro no gatilho”, não fez o que estava no melhor interesse dos gays.
Mais um bocadinho e metiam no mesmo saco a poligamia. Já que pedem 80 (casamento gay + adopção para gays) que pedissem 800. Fracturas a eito! Até seriam mais coerentes, mas se calhar isso já choca o BE (ou não renderia tanto, eleitoralmente).

Ainda estou para ver em que termos o BE colocará a questãos da eutanásia que já prometeu para o ano. Mas não me admiraria se mais uma vez contribuissem negativamente para quem tenha esperança de que se consiga fazer algo no curto prazo, em prol de uma “grande vitória” lá para as calendas.

O “mal menor” parece-me mau demais, pois equivale a dizer que há cidadãos de segunda categoria. O Bloco merece algumas críticas, pois concordo que mais do que passar a lei, quis ganhar votos ao PS. Mas o PS comportou-se vergonhosamente.

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