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Política

Um partido oferece responsabilização permanente. Ou não?

Consta na imprensa que há fortes evidências de que Somague financiou ilegalmente o PSD e veio mais tarde a receber uma retribuição em espécie num concurso para uma obra pública. Como é da lei da temporalidade os responsáveis de então (ou boa parte deles) já não são os do presente.

Que tipo de responsabilização permanente oferece esse partido quando os responsáveis de agora recusam culpas do passado? Sendo legítimo que aligem responsabilidades, em que é que o partido se distingue de um qualquer independente em termos responsabilidade política? 

Um independente provavelmente ficaria manchado para sempre, já um partido tem embutido um mecanismo de regeneração que em larga medida controla. Mas isso não funciona precisamente contra o próprio na medida em que  consegue minimizar comportamentos que deveria ser indesculpáveis? O voto fica a saber a muito pouco se o próprio partido não tiver a iniciativa de usar o seu poder de auto-regulação para punir exemplarmente as más condutas. Essa sim seria uma garantia adicional não negligenciável de um partido face a um independente.

Mas isto sou eu a pensar com a ponta dos dedos. Que vos parece caro leitor? 

7 replies on “Um partido oferece responsabilização permanente. Ou não?”

Faz-me espécie os pruridos com que o PS e a restante oposição estão a acompanhar a evolução das revelações!
Costumam aproveitar tudo para se atacarem uns aos outros, e agora… silêncio.

«Um independente provavelmente ficaria manchado para sempre, já um partido tem embutido um mecanismo de regeneração que em larga medida controla. Mas isso não funciona precisamente contra o próprio na medida em que consegue minimizar comportamentos que deveria ser indesculpáveis?»
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Rui, no fundo, a resposta à pergunta que colocas depende de uma outra: acreditas na autoregulação?

Sim, é essa a pergunta.
Da experiência que tenho só posso estar muito apreensivo com a autoregulação.
Neste aspecto os partidos nacionais funcionam em cartel, aparentemente todos têm telhados de vidro. É muito difícil alguém dentro de um partido fazer vingar uma política de depuração e limpeza nestas matérias. É isto que dá má fama aos “aparelhos” e que descredibiliza de forma mais profunda a democracia. É claro que se algum partido se atrevesse, o cartel poderia desmoronar-se, pelo menos durante uns tempos.

A alternativa é algo utópica: um novo partido que transportasse essa bandeira entre as bases do ideário. Naturalmente arranjaria alguns problemas aos incumbentes…

Por cá até há pouco tempo os partidos nem sequer sentiam necessidade de usar da cosmética; algo poderá estar a mudar mas temos um longo caminho pela frente.

«A alternativa é algo utópica: um novo partido que transportasse essa bandeira entre as bases do ideário.»
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Isso não é ainda mais perigoso? Repara, a natureza humana é o que é e esse tal partido, muito provavelmente, mais tarde ou mais cedo, cairia também ele nas malhas do jogo. Não te parece que nessa altura o descrédito democrático seria ainda maior?
My point is: a coisa não se resolve tendo a melhor ‘mão’ do ponto de vista moral.
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Resolve-se, sim, com um sistema judicial eficaz e com a alteração de mentalidades, que leva gerações. Muitas…

Perigoso? Sim, dou de barato que mais cedo ou mais tarde esse tal partido cometa os seus pecados. Se calhar estamos condenados a conseguir melhorar as coisas provocando saltos, rupturas para mais tarde a história se repetir. Mas como podes ter descrédito maior do que olhar hoje para o cenário e ver tudo em silêncio sem capitalizar politicamente o caso? Ou seja, hoje já está tudo perdido nesta matéria. A capacidade de escandalização cumpre o seu papel em democracia.

Parece-me que há vantagem em surgir alguém que possa dramatizar a questão – alguém que preferencialmente não resuma a isso o seu discurso político. Só assim podes aumentar a pressão para que o sistema judicial melhore de eficácia e que o legislador apareça ou seja levado a sério. Quando todos desrespeitam a lei não há sistema judicial que nos valha.

O sistema judicial nem tem tido lei que nos valha para agir, precisamente porque os prevaricadores são os legisladores.
Parece que recentemente (com uma nova lei) algo mudou (no papel) e a prazo haverá matéria legal para “moralizar” como dizes, mas tudo seria muito diferente se reconhecesses na classe política uma alternativa menos desgastada ou mesmo um conflito interno evidente nos partidos que temos quanto a esta matéria, algo que nos mostrasse uma classe política mais ciente e ciosa do cumprimento da lei e respeitadora da democracia.

E naturalmente na presença dessa “ameça” nada ficaria na mesma em alguns dos partidos existentes.
A obscuridade é demasiado banal e há muito vista como uma fatalismo. O perigo é deixar andar sem dramatizar, sem demonstrar indignação. É que sem isso o costume vence qualquer lei ou juíz.

Já vi algumas coisas impossíveis acontecerem bem depressa, para o bem e para o mal. Não sei se será assim com isto, mas exigir que não demore gerações é o único caminho para algum dia teres uma mudança.

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