Adufe sans frontiers

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As armas do meu Adufe,
não têm signo nem fronteira.

Bem-vindo ao Adufe 5.0


Archive for the ‘Religião’


Galileu nunca chegou ao céu

Ouvindo hoje várias entrevistas do Cardeal patriarca português consegui completar uma síntese que havia perdido há algum tempo. A questão da união entre pessoas do mesmo sexo é uma singularidade para a qual a Igreja não tem compreensão possível, no máximo, a inevitável tolerância. E digo inevitável porque a Igreja de hoje não pratica a barbárie que promoveu no passado. Digo também inevitável porque a incompreensão se fundamenta na lei natural, uma lei que garante à união entre homem e mulher o exclusivo da capacidade para gerarem uma relação de amor completo. As outras opções toleram-se, mas não se compreendem pois estão fundamentalmente erradas.

Já em tempos disse que atribuir o carácter opcional a quem é gay (“só o é porque quer”) é o mesmo que dizer a um canhoto que este é livre de deixar de o ser (“os canhotos só o são porque querem”) e é neste paralelo bem distante do silogismo que todo o castelo lógico da Igreja, nesta matéria, se esboroa. A própria ciência tem vindo progressivamente, e assim que se libertou de alguns entraves e preconceitos morais e religiosos, a estudar e a procurar encontrar as eventuais múltiplas justificações para a existência de comportamentos gay entre inúmeras espécies animais. Do mesmo modo que se procuram explicações para a minoria dos ruivos, dos que têm olhos azuis, dos que são canhotos. Até daqueles aparentemente doentes e deficientes, portadores de uma anemia crónica hereditária que num belo dia, perante o alastramento da malária se revelaram completamente imunes e perfeitamente preparados para enfrentar as circunstâncias. A ciência não é amoral, mas detesta preconceitos. Por muito que (ainda) pareça óbvia a tal lei natural, até esta pode ver os seus fundamentos minados e não dependerá apenas de quão lato for o nosso conceito de natureza (admitindo ou recusando manobras da ciência mais instrumental, com inseminações e quejandos), poderá tão somente bastar um qualquer Galileu, com as lentes no sítio.
Para mim, nem disso preciso, num bom exemplar da bíblia qualquer potencial incompreensão Saramaguiana perante aparentes contradições, é batida aos pontos pelo fundamental da mensagem de Cristo. Não há nenhum asterisco em “Amai-vos uns aos outros”. É ele, o amor, que na dúvida será sempre a nossa salvação e o nosso guia.
Felizmente, há quem tenha compreendido esse capital fundamental que o cristianismo pode oferecer como mais valia face a algumas outras religiões. Não será ainda (e talvez nunca inteiramente) o caso da Igreja Católica Apostólica Romana. Como é Rui? Poderás ser católico ainda assim? Uma pergunta, que bem vistas as coisas, é absolutamente irrelevante.

Haverá relação entre o celibato e a pedófilia?

Uma amiga, insuspeita de estar enviesada em prol da Igreja, desconfia que há uma desproporção na perceção da gravidade da pedofilia no seio da Igreja à conta da exacerbação mediática. Será? Como gostava de ter estatísticas sobre a prevalência de casos de pedofilia entre Igreja com e sem obrigatoriedade do celibato.
Entretanto este texto do Bruno Sena Martins (antropólogo) deixa-me a matutar: Celibato e Pedofilia.

O Padre, o árbitro, os media e uma anedota que é notícia (no bom sentido, espera-se)

A e B foram à missa contaram a história a C que contou a D que pôs no blogue que é lido por E que pediu detalhes para contar a F que escreveu em G cujas histórias são publicadas por H, I J, L. M, N, O, P, Q… Quanto aposta que chega à televisão?

Eis o que D escreveu no seu blogue: “Até morrer Sporting Allez

ADENDA: Escreve e muito bem o Miguel Marujo:

“Um padre faz uma piada, mas (percebo agora) o humor está-lhes vedado… Primeiro: na missa não cabe o futebol (dizem-me; cabe tudo, cabe a vida toda); segundo: não cabe o humor (e afinal, estão quase de acordo com Ratzinger); terceiro: os jornalistas são muito ignorantes (e não vale a pena mandá-los aprenderem; sabem tudo, lido em 1200 caracteres). Santa paciência!”

É nestes momentos que espero estar do lado errado da verdade absoluta.

Conheci brevemente o Padre António Sobral, pároco na cidade do Barreiro durante mais de trinta anos. Conseguiu ser respeitado e admirado numa terra predominantemente anti-clerical, o que se atendermos ao período histórico em questão é de si sinal de singularidade humana.
Do contacto que tive julgo ter percebido parte do porquê. A forma como abruptamente se rebelava contra a superficialidade e a beatice, o empenho que dedicava aos que mais necessitavam preterindo o paternalismo, o elitismo e o seu estrito interesse pessoal, o modo franco e genuíno com que interpelava crentes e não crentes, ficam-me na memória, junto de exemplos grandes de homens mais mediáticos que em bom rigor não conheci melhor.

Não sendo propriamente um repositório de fé na acepção cristã do termo (e agora falo de mim), o contacto com o Padre Sobral permitiu-me reforçar que há tanto de profundamente errado num proselitismo forçado quanto num ateísmo militante. Permitiu-me também reforçar a ideia de que há imensas igrejas dentro da ICAR. Algumas delas empenhadas e particularmente capazes de serem parte da solução para muitos dos problemas que todos em conjunto enfrentamos.

Singularidades admiráveis no exemplo de vida que alguns de nós conseguem construir tornam apenas mais evidente quão disparatado é cairmos em generalizações simplistas. E alerta-nos também para um paradoxo aparente. Sendo certo que as generalizações, irmãs de um mundo a preto e branco são meio caminho para a incompreensão, é também certo que há de facto uma batalha ética e moral em que todos, crentes, não crente e anti-crentes estamos todos envolvidos.

Não acredito que haja vida além desta que conhecemos, terrena, mas em dias como este espero estar do lado errado da verdade absoluta.
Obrigado, António Augusto Sobral.

“Faleceu durante a madrugada de hoje, aos 77 anos, Padre António Augusto Sobral, responsável pela Igreja de Santa Maria durante mais de 30 anos no Barreiro, tendo também sido director do Jornal do Barreiro durante 21 anos.

O corpo estará na Igreja de Santa Maria no dia 16, próxima quarta-feira, a partir das 18h30, onde serão celebradas as exéquias fúnebres, sendo transladado na quinta-feira, às 8h30, para o cemitério de Elvas onde será cremado.

António Augusto Sobral foi director do Jornal do Barreiro desde 29 de Maio de 1975 até 21 de Março de 1997. Natural de Viseu mas há mais de 30 anos no Barreiro, esteve ligado ao Corpo Nacional de Escutas, à Caritas Paroquial e foi o principal fundador do Centro Paroquial Padre Abílio Mendes. Em 2002 foi distinguido como Profissional do Ano pelo Rotary Clube do Barreiro e em 2004 com a Medalha de Mérito Municipal de Ouro.”

in Jornal do Barreiro, 14 de Julho de 2008

Pai, quando eu ofereço uma prenda no Natal estou a ser hipócrita?

Adoro oferecer prendas. Adoro receber prendas. Desconfio que haverá muito poucas civilizações presentes e passadas que não tenham reservado um momento, uma época para festejar colectivamente o amor. Acho inspirador o genuíno espírito natalício seja ele o pagão, seja o cristão, ou algo parecido que caiba noutra religião e que se comemore por estes dias.
Acho tristíssimo que a mensagem se perca, tal como acho tristíssimo que se ponham todas as culpas em cima do (inegavelmente poderoso) sistema de indução ao consumo patrocinado por quem quer vender.
Festejar o Natal não é hipócrita. Só é hipócrita quem diz festejar e ignora ou chega a abominar o que é suposto estar a representar. Desesperadamente triste é quem oferece prendinhas exclusivamente por obrigação. Por outro lado, acho revoltante que se confunda com estes todo aquele que quer festejar efectivamente. Uma festa que, sublinhe-se, é por definição transbordante. E aí, a culpa para o mau ambiente, meus caros, não está em quem é triste por si, está antes em quem só sabe apontar o dedo. Em quem não faz o mínimo esforço por compreender o que vê, em estudar minimamente os símbolos em presença, em quem vê na generalização todo um programa simplificado e perfeito.
A minoria existe – não sei sequer se é minoria, e nem isso é minimamente relevante – mas o que é certo é que existe, é que se anima, é que festeja de facto a partilha com os outros. Basta um para poder dar essa garantia.
A superioridade moral é uma coisa…

Boas festas!

P.S.: continuo tão herege como no dia em que fiz A pergunta.

Embrulho natalício – versão AAA/DO

Eu hoje até podia falar daquele penalti falhado pelo Paulo Bento ou mesmo dessa novíssima região muito rica e desenvolvida que o governo descobriu entre o eixo Sines-Beja mas prefiro cirandar por uma prosa mais natalícia. Convido o leitor a apreciar como com um pouco de memória se pode fazer um dos melhores embrulhos de natal. Amen.

O mundo imperfeito

Afinal, ainda cá volto. O melhor post do dia está aqui com a devida ilustração. E agora um roubo:

"O Dalai Lama ri às gargalhadas enquanto fala e caminha. As pessoas sérias, como o Papa, não dão gargalhadas: abençoam e rezam, e depois, abençoam e rezam. As gargalhadas autênticas e sonoras estão compreensivelmente reservadas aos anjos, aos loucos e às crianças; quero dizer, aos verdadeiros inquilinos do reino dos céus."

Isabela in O Mundo Perfeito

Shalom; Salem

  • Começa hoje o ramadão (na maior parte do mundo muçulmano). 

Alguém conhece um blogue muçulmano (ou de um muçulmano) escrito em Portugal? Desde o encerramento já longínquo do Resistência Islâmica que não sei de nenhum.

Onde estás?

"(…) Isto é típico dos católicos: fazem boas perguntas, mas não aceitam a resposta." Para uns será provocação, para outros mais uma acha para a fogueira da reflexão. O texto integral que acompanha este remate está no "A Vida Breve". Sublinhe-se que Madre Teresa e Calcutá e Bento XVI estão implicados.

God’s Gonna Cut You Down – Johnny Cash

Quando o fantástico e o singelo formam um só heart beat, na música e no video.

Do melhor que conheci através do You Tube. Menos de 3 minutos de Johnny Cash e famosos amigos: God’s Gonna Cut You Down.

Aprender com as formigas

Excerto da National Geographic portuguesa de Maio de 2006.

Entrevista de Tim Appenzeller a Edward O. Wilson:

" (…) NG: É óbvio que encontra uma certa espiritualidade na natureza, um encantamento. Como encontra sentido num mundo que surgiu devido a mutações casuais e à selecção natural?

EO Wilson: A mente humana evoluiu para procurar um sentido. O universo é tão belo, complexo e surpreendente… Tal como a vida. Lembre-se da frase de Darwin: "Formas de vidas infinitas, belas e maravilhosas, estiveram e estão a evoluir." Hoje, temos mais indícios disso do que Darwin. Compreendemos isto até ao nível molecular; quão extraordinária é a vida enquanto fenómeno. Só isso convida mais à espiritualidade do que qualquer outra coisa fornecida pelos escribas de um reino do deserto da Idade do Ferro que escreveram a Bíblia Sagrada. Eles criaram uma obra literária impressionante. Mas não compreendiam verdadeiramente o mundo que os rodeava ou as estrelas do céu. Transformaram-nos em metáfora, atribuíram-lhes características poéticas, fizeram o melhor que podiam. Mas ainda assim, ficaram aquém daquilo que a humanidade consegue sentir no que respeita ao sagrado e à beleza estética. (…)

 

Javé não é flor que se cheire

Eu já desconfiava… Sou daqueles que não se sentindo filiado em nenhuma das organizações religiosas disponíveis, nem na verdadeira (a do leitor), nem nas outras, têm uma ideia muito vincada sobre o que acham que deveria ser Deus. Há terceira ou quarta praga das dez que se enunciam no livro do Êxodo fiquei a torcer pelo Faraó… Em nome do fair play.

Help!

Pergunta que me sobrou de ontem: um incréu pode pregar o ecumenismo?

Eles perguntaram (act. II)

Nas cerca de duas horas em que estive no Largo de São Domingos perguntaram-me se era ali que a Câmara ia acender 40mil velas pelos judeus mortos e se era ali que se ia inaugurar o monumento ao judeu de Lisboa… Depois perguntaram-me também, em várias línguas, o que se celebrava ali. Estavam menos de 20 pessoas em volta de uma Oliveira enfeitada com velas entre as raízes e ainda assim (talvez por isso) as pessoas que passavam aproximavam-se e perguntavam… O que é?

Falei com uma simpática beata da Igreja Católica (plena de contradições que me escuso documentar) que desconhecia este episódio da história daquele lugar, falei com uma turísta que repetiu a viagem e o inquérito para saber exactamente o que se comemorava, falei com outro casal que ficou admirado pela distância (500 anos) face ao evento. Mas a noite, além da companhia dos que por ali partilharam com saudável cumplicidade a humilde homenagem (com cerca de 80 velas que ficaram ardendo encostadas ao aconchego da parede do edifício fronteiro à Igreja), trouxe ainda uma longa conversa que eu e a Cláudia tivemos com um curioso e simpático casal caravanista alemão (de Munique/Lago Constança). As perguntas que o homem fez fizeram-me lembrar muito as tuas Lutz: as perguntas dele aos pais enquanto jovem (era homem para estar nos 40) para tentar comprender a história recente da Alemanha, a curiosidade quanto à forma como os portugueses encaram uma memória destas com 500 anos e porque o fazem. E ainda a surpresa por se tratar de uma homenagem pública pioneira e não um hábito antigo… Acabámos falando do encanto pelas viagens, do futebol e da surpresa muito agradável que parecia estar a ser a cidade de Lisboa para eles… e se calhar um bocadinho para nós também.

No final da noite chegou a cacimba, amainou o vento que insistia em apagar as velas e ficaram  três zeloso polícias, a ver-nos virar a esquina. Sim: a homenagem, a lembrança. E mais nada? Eles perguntaram, houve mais qualquer coisa. E ainda bem que assim foi.

Não foram 4 mil velas (lá) Nuno, mas valeu bem a pena.

Adenda: referência na Sic a que cheguei pela Lua

Adenda II: referência hoje na capa (fotografia) e página  13 do Público (Maria José Oliveira) e página 22 no Diário de Notícias (Fernanda Câncio)

Mais logo no Largo de São Domingos ao Rossio

É curioso saber que o estimado Gabriel Silva teve conhecimento da Matança da Pascoela de 1506 atraves deste post do Adufe, datado de Agosto de 2003. Falar do sucedido tem também (essencialmente!) uma função de "serviço público", como se constata.

Hoje, Quarta-Feira, quando a noite ocupar as ruas de Lisboa irei ao Rossio (Largo de São Domingos) com uma pequena luz na mão, tentando resgatar essa memória. 

"A que horas vais?" Perguntam-me alguns leitores pelo correio. Eu estou a pensar passar por lá e por lá ficar um pouco, por volta das 21h00. E espero que fique lá por mim, durante mais algum tempo, ao menos uma vela.

Adenda:

Haverá também quem por lá passe a partir das 20h

Adenda II:

E haverá ainda que por lá passe a partir das 19h (I e II

- Para actualizações ao blogue consulte o post anterior –