Os Três Dês e a Nota Final (conclusão - série integral em anexo)
3. Dário Sintra
Linha de Sintra, comboio para Lisboa, onze e picos da manhã.
Abrandava o combóio, já trintão e em fim de carreira, ao chegar à gare do Cacém. Lá fora grupinhos de dez, onze pessoas concentravam-se junto às várias portas. No interior eram ainda mais os lugares vazios que ocupados estando nestes últimos muitos estudantes que sairiam já ali, em Benfica, em Campolide ou em Lisboa.
Dário, que entrara em Mem Martins, ajeitou as folhas de apontamentos que viera namoriscando e colocou-as numa curiosa Bolsa do ISEG decorada com uns garridos E’s que se evidenciavam do fundo preto da dita. O nosso estudante aproveita então para observar os seus novos companheiros de banco que acabavam de se sentar, mas antes de ter passado os olhos pelos cinco, o novo vizinho do lugar à sua frente prende-lhe de imediato a atenção. O homem com 60, 70 anos não parava de emitir consecutivamente sons produzidos por um estranho ritual entre os lábios, as gengivas, os dentes, a lÃngua, o nariz e os pulmões! Após o primeiro choque, Dário troca finalmente de olhar com os outros passageiros de banco que, contudo, se revelam já habituados à quela festa a que, por certo, haviam assistido de antemão enquanto esperavam na gare. Ainda assim, uma rapariga que se sentara ao lado do “músicoâ€? franzia periodicamente o sobrolho sempre que algum som mais estridente era emitido. Olhou para o Dário e apercebendo-se de semelhante reacção encolheu os ombros e sorriu, este, ainda não rendido à orquestração, fez mais uma careta de convicta desaprovação fiando-se no constrangimento que o velhote pudesse sentir quando se apercebesse que estava a ser descaradamente observado. Resultado: a situação permaneceu e alguns segundos depois foi substituÃda por uma variação mais coordenada e irritante.
Chegados a Queluz o homem levantou-se, calou-se… e depressa teve saudades do arranjo musical pois passados uns escasso instantes prosseguiu com a melodia até sair do combóio. Com ele saiu também a rapariga e ainda os outros ocupantes do banco. Quase automaticamente eis que todo o banco se enche de novo.
Para a nova história - ou será estória? - interessa apenas o substituto do músico que é nada mais nada menos que o jornal “O Bolaâ€? com pernas e braços (ou então alguém completamente enfronhado no jornal que só por instinto deu com o lugar e não se sentou no chão ou ao colo de alguém); interessam ainda duas raparigas, amigas, que entusiasticamente falam de um festival paroquial de música. Ora ouçam…
- Ah Tita! Este ano as canções foram o máximo!
- Sim também acho - respondeu a que se sentara ao lado do Dário que, entretanto, olhava fixamente um ponto imaginário que passava a alta velocidade pela janela a que se encostara.
- Mas MÃ, também houve duas horrÃveis, foram boas músicas mas as vozes eram simplesmente horrÃveis! Então e a da Cila!? Um pavor!
- E a da Lolinhas?… a namorada do Dado, Tita!
- Ah. Siiiim!
- A melodia até ‘tava gira, mas a letra “…mortos de olhos no infinito, crianças oprimidas…â€? que horror!
- Oh MÃ, mas essa foi no ano passado!
- Pois é que coisa! Olha para o ano já não posso ser do juri. A Pita mais o Cristas convidaram-me para compor a música e se calhar até vou tocar.
- Que bom, mas olha, tudo menos pandeiretas como as do Chininho. Até fiquei a zunir.
-Hi, Hi! Olha estão a pensar tocar aquele… aquele feito de pele que se toca com as mãos, mas não é um tambor…como é que se chama? - O leitor de “ A Bolaâ€? baixou o jornal e disse:
- Pandeireta?
- Não! Que disparate!
- Adufe?! -diz o Dário, quase involuntariamente, ainda olhando fixamente um ponto imaginário que passava a alta velocidade pela janela a que se havia encostado.
- Isso, o adufe!
- Ããh…pois…o adufu…pois…não conheço MÃ…
Desde este dia que Dário, sujeito de alma sensÃvel e facilmente impressionável, pode ser encontrado a vender a revista Cais na vã esperança de reunir dinheiro para comprar um Walkman bem potente, ou um Carro que ande, ou um Helicóptero que voe para assim poder voltar aos seus estudos em Lisboa.
Qualquer semelhança entre esta história e suas personagens com factos e pessoas reais não é mera coincidência mas para lá caminha.
Fim
MC White - 1994
[a nota final, em anexo, data também de 1994 ano em que me iniciara num cursor superior. Ano marcado por grandes manisfestações estudantis contra as propinas… A vaga anterior à actual, chamemos-lhe assim. Manuela Ferreira Leite era Ministra da Educação.]
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