Adufe sans frontiers

As armas do meu Adufe não têm signo nem fronteira
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Archive for the ‘As Crónicas e os Contos’

São voltas e voltas

Dezembro 22, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

Contra este Natal marchar, marchar.
Porque afinal Deus é grande
Ainda que o terror espreite por onde menos se espera e a contradição nos assalte do alto do nosso auto-elogioso saber.
Mas será contraditório o caminho de defender coerentemente a crítica dos que foram os nossos próprios argumentos, procurar continuamente os nossos caminhos?
Tudo dito e escrito restar-nos-á a muito íntima e universal perplexidade; teremos a não menos premente e estimulante presença da maravilhosa estupefacção que nos acompanhará esperançosamente até ao último momento.

Amizade

Dezembro 21, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 3 Comments →

Aos poucos vamos fazendo amigos.
O exemplo que hoje vos trago começa por uma rotina. Pelo cafezinho que lá se vai tomar ao final do almoço. Pelo refresco saboreado na pequena esplanada num dia de verão. Pela surpresa de um valente saco de amendoins e demais salgadinhos que nos é oferecido numa inesperada visita familiar distraidamente confessada. Pelo paralelo surpreendente na história passada de uma vida que se descobre em dois dedos de conversa…
Esta semana foi uma encomenda que se deixou à guarda no café, à falta das chaves de casa; o único sítio de confiança. Um serviço prestado com simpatia e voluntarismo, com poucas palavras, mas sem dúvida “de confiança”.
Aos poucos vai nascendo uma amizade feita de pequenos nadas, enraizada na qualidade do íntimo de cada um, a única condição suficiente e necessária.
Mais pelo que se faz e pelo que se compreende em breves palavras do que por qualquer outro meio, sentesse um laço animador a nascer.
Hoje tivemos muito gosto em oferecer uma prenda, uma Alice no País das Maravilhas, à filha dos senhores do café. Um pequeno gesto, entregue com poucas palavras, dado e recebido com muito sentimento.
É tão fácil andar distraido e não perceber estes pequenos nadas, deixá-los passar ao nosso lado, perder a oportunidade de fazer um amigo.
O nosso maior desafio hoje, moços da cidade, é continuar a acreditar, alimentar uma sonda que por debaixo das nossas couraças consiga chegar ao outro permitindo-nos arriscar um bocadinho.
Bom Natal!

Lancia Oppidana

Dezembro 18, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 2 Comments →

Pesquisei há pouco “Sortelha a velha” no Yahoo e para minha satisfação descobri este site que o Sr. Américo Valente (Página de entrada aqui) que me contou coisas que eu só adivinhava daquele castro ou póvoa situado no concelho de Penamacor entre o limite da Benquerença e do Vale da Senhora da Póvoa na Serra de Opa. De lá vê-se a outra, a mais conhecida Sortelha, a aldeia muito merecidamente integrada na rota das aldeias históricas do país.
Subi até ao castro de Sortelha a Velha há mais de 10 anos. Sei-o agora que este castro ou cidadela é apenas um, talvez o primeiro e mais pequeno de três que se encontram em toda a extensão da Serra de Opa. Sortelha a Velha o único que visitei tem a particularidade ficar num monte isolado (designado de Serra da Galeota). Digo-vos que do vale só um olho conhecedor consegue descobrir o pequeno muro que resta enquanto vestígio da ocupação romana e subsequente (de facto, agora que tenho a certeza de existirem outros, posso desde já dizer que do vale da Ribeira da Meimoa, é possível adivinhar uma outra construção no cume mais elevado da Serra de Opa).
No dito sítio de Sortelha a Velha, percebe-se pelas lajes e seus entalhes e disposição circular das pedras do muro que houve ali mais do que uma qualquer choça de pastor. Pelo que leio, a atendendo à fonte dos dados referido por Américo Valente datar de 1964 é bem provável que algum estudo arqueológico tenha sido feito. Mas temo que talvez um pouco tardiamente, pois segundo me contam muito poder-se-á ter perdido nas campanhas do trigo que levaram ao cume da serra a força do arado. Ou então talvez algum artefacto mais valioso tenha ido parar às mãos de algum operário em vagabundagem serrana descansando das minas de volfrâmio que por lá se exploraram nos idos anos 40.
Talvez ainda descubra a história que há (haverá?) desse lugar. Tra-la-ei aqui se tal acontecer. Para já recomendo o que nos oferece o Américo Valente citando Mário Saa – As Grandes Vias da Lusitânia – 1964 nesta biblioteca de trazer por casa que é a Internet.

Cacofonia I

Dezembro 17, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

O que é Pop? *

Can’ttouchthis!

Duas moedas da mesma face.

Sou caipira.
Às vezes tenho a sensação de que não vou chegar aos trinta.
Carefree. Don’t worry, be…
Just do it!
Can’ttouchthis!
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(Da) Ajuda aos Mártires da Pátria - act.

Dezembro 12, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

Chegou tarde, cansada mas sorridente. O trabalho no escritório decorreu sem notícia de destaque além da tardia hora de saída. Aproxima-se o tempo de todas as urgências. Ainda que poucos saibam o que fazem, tudo tem de estar pronto para recomeçar de novo no primeiro dia do ano. O dia de hoje foi um preliminar, sem história, ou quase.
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Figos secos com noz

Dezembro 02, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

Da última vez que fui à provícia rural fiquei feliz por ver que a nogueira havia pegado de estaca. Estava viçosa a infanta por entre raquíticas pereiras, pobres árvores descendentes de outras primevas que em tempo de Homens serviram de pretexto para a toponímia daquelas terras. Apoucando-se as peras, alindou-se o terreno dando-lhe um declive mais suave; reduziu-se a concorrência daninha e infestante de silvedos e de outras plantas rasteiras e regou-se o pequeno canteiro feito com duas sachadelas.

Ainda há-de demorar uns anos até dar nozes mas já me sabem melhor os figos secos que nos ofereceram duas pingo-mel que habitam lá perto. Uma dupla de figueiras imbatíveis na produção de tão saboroso fruto. Quase anseio por um deserto se tiver a certeza de um oásis cheio de figos maduros.

Hoje, na província urbana, os maduros, já secos, marcham com nozes de Trás-os-montes e marcham bem. Um, dois, esquerdo, direito, encolhe a barriga e segue pelo estreito!

02/12/2003

Ao passar um navio

Dezembro 02, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 4 Comments →

Hoje de manhã, ao acordar, soube via rádio que a EDP apurou que os portugueses andam a dormir pouco. Deitam-se à meia-noite e acordam às sete. Devo confessar que ainda estava na cama, meio endorminhado, quando dei comigo a pensar “Quem me dera ser português. Sempre dormia mais uma horita ou duas.� Ora aí está! Junta-se um ligeiro estado de inconsciência a uma pitadinha de estatística e descobre-se a pátria da cada um. Hoje de manhã, provaram-me por A + B que só sou português ao fim de semana.
Boa noite, nobre povo.

15/11/96

Lavado a 90º Celsius e enxuto ao sol

Dezembro 01, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 4 Comments →

Descubra as diferenças entre este:
E assim fomos para a noite
Este:
Seco ao sol depois de lavado
e este:

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Seco ao sol depois de lavado

Dezembro 01, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

E assim fomos para a noite

“Então, vão para a noite?�
Respondemos com um sorriso e seguimos caminho encarnando o casal de amantes apaixonados que não deixámos de ser. Cruzamo-nos com grupos animados com coisas para dizer. Nesta rua, neste momento, somos turistas como eles, talvez estejamos em Roma, em Oslo ou em Madrid. Chegamo-nos mais um ao outro e seguimos caminho por entre estrelas, pendões e esferas luminosas que completam o ambiente natalício.
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E assim fomos para a noite (Rev.)

Dezembro 01, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

“Então, vão para a noite?�
Respondemos com um sorriso e seguimos caminho, lado a lado, em direcção ao metro, encarnando o casal de amantes apaixonados que não deixámos de ser.

Ressurgimos à superfície na zona nobre da capital. Na noite fresca, que não fria, encontramos ainda muitas pessoas. Cruzamo-nos com potenciais portugueses que falam estranhas línguas entre si. Grupos animados com coisas para dizer. Nesta rua, neste momento, somos turistas como eles, talvez estejamos em Roma, em Oslo ou em Madrid. Chegamo-nos mais um ao outro e seguimos caminho por entre estrelas, pendões e esferas luminosas que completam o ambiente natalício. Ainda haveríamos de ter nas mãos A Christmas Carol nesta noite, «Marley was dead, to begin with.», mas por ora: “Então, vão para a noite?�
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Qual terá sido a primeira pergunta?

Novembro 22, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos, Religião Comments Off

Quando não encontrou resposta, quando perguntou e perguntou e não obteve resposta terá surgido ao Homem a ideia de Deus.
O tempo passou e para novas e velhas questões o Homem foi encontrando algumas respostas. A ideia de Deus deixou de ser indispensável, foi possível para alguns Homens relativizarem-na. Foi possível viver sem ter todas as respostas, insistindo nas perguntas.
Nada disto foi linear, pode nem ter sido assim, sabemos apenas que houve e há um caminho doloros entre estas poucas palavras.
Atrevo-me a pensar, cá para mim, que há apenas um caminho para lidar com elas.
Seja bem vindo quem vier por bem. A paz esteja connosco.

O Início do Homem

Novembro 22, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos, Religião Comments Off

O início do Homem terá muito provavelmente começado quando se formulou a primeira pergunta. O fim, para muitos homens, tem chegado quando insistem em repetir esse momento.
Muitos morreram hoje de fome, de doença… Quantos homens terão morrido hoje por terem feito a pergunta errada no momento errado, no sítio errado? Quantos terão perdido o emprego ou as aspirações na carreira? Quantos terão fugido do seu país? Quantos terão renegado a pergunta para poderem viver? Quantos terão encontrado uma resposta? Quantos terão compreendido?
O fim do Homem virá muito provavelmente quando houver Homens a menos no lugar certo, no momento certo, com a pergunta certa à procura de uma resposta.

3. Dário Sintra

Novembro 16, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

Os Três Dês e a Nota Final (conclusão - série integral em anexo)

3. Dário Sintra

Linha de Sintra, comboio para Lisboa, onze e picos da manhã.
Abrandava o combóio, já trintão e em fim de carreira, ao chegar à gare do Cacém. Lá fora grupinhos de dez, onze pessoas concentravam-se junto às várias portas. No interior eram ainda mais os lugares vazios que ocupados estando nestes últimos muitos estudantes que sairiam já ali, em Benfica, em Campolide ou em Lisboa.
Dário, que entrara em Mem Martins, ajeitou as folhas de apontamentos que viera namoriscando e colocou-as numa curiosa Bolsa do ISEG decorada com uns garridos E’s que se evidenciavam do fundo preto da dita. O nosso estudante aproveita então para observar os seus novos companheiros de banco que acabavam de se sentar, mas antes de ter passado os olhos pelos cinco, o novo vizinho do lugar à sua frente prende-lhe de imediato a atenção. O homem com 60, 70 anos não parava de emitir consecutivamente sons produzidos por um estranho ritual entre os lábios, as gengivas, os dentes, a língua, o nariz e os pulmões! Após o primeiro choque, Dário troca finalmente de olhar com os outros passageiros de banco que, contudo, se revelam já habituados àquela festa a que, por certo, haviam assistido de antemão enquanto esperavam na gare. Ainda assim, uma rapariga que se sentara ao lado do “músico� franzia periodicamente o sobrolho sempre que algum som mais estridente era emitido. Olhou para o Dário e apercebendo-se de semelhante reacção encolheu os ombros e sorriu, este, ainda não rendido à orquestração, fez mais uma careta de convicta desaprovação fiando-se no constrangimento que o velhote pudesse sentir quando se apercebesse que estava a ser descaradamente observado. Resultado: a situação permaneceu e alguns segundos depois foi substituída por uma variação mais coordenada e irritante.
Chegados a Queluz o homem levantou-se, calou-se… e depressa teve saudades do arranjo musical pois passados uns escasso instantes prosseguiu com a melodia até sair do combóio. Com ele saiu também a rapariga e ainda os outros ocupantes do banco. Quase automaticamente eis que todo o banco se enche de novo.

Para a nova história - ou será estória? - interessa apenas o substituto do músico que é nada mais nada menos que o jornal “O Bolaâ€? com pernas e braços (ou então alguém completamente enfronhado no jornal que só por instinto deu com o lugar e não se sentou no chão ou ao colo de alguém); interessam ainda duas raparigas, amigas, que entusiasticamente falam de um festival paroquial de música. Ora ouçam…
- Ah Tita! Este ano as canções foram o máximo!
- Sim também acho - respondeu a que se sentara ao lado do Dário que, entretanto, olhava fixamente um ponto imaginário que passava a alta velocidade pela janela a que se encostara.
- Mas Mí, também houve duas horríveis, foram boas músicas mas as vozes eram simplesmente horríveis! Então e a da Cila!? Um pavor!
- E a da Lolinhas?… a namorada do Dado, Tita!
- Ah. Siiiim!
- A melodia até ‘tava gira, mas a letra “…mortos de olhos no infinito, crianças oprimidas…â€? que horror!
- Oh Mí, mas essa foi no ano passado!
- Pois é que coisa! Olha para o ano já não posso ser do juri. A Pita mais o Cristas convidaram-me para compor a música e se calhar até vou tocar.
- Que bom, mas olha, tudo menos pandeiretas como as do Chininho. Até fiquei a zunir.
-Hi, Hi! Olha estão a pensar tocar aquele… aquele feito de pele que se toca com as mãos, mas não é um tambor…como é que se chama? - O leitor de “ A Bolaâ€? baixou o jornal e disse:
- Pandeireta?
- Não! Que disparate!
- Adufe?! -diz o Dário, quase involuntariamente, ainda olhando fixamente um ponto imaginário que passava a alta velocidade pela janela a que se havia encostado.
- Isso, o adufe!
- Ããh…pois…o adufu…pois…não conheço Mí…
Desde este dia que Dário, sujeito de alma sensível e facilmente impressionável, pode ser encontrado a vender a revista Cais na vã esperança de reunir dinheiro para comprar um Walkman bem potente, ou um Carro que ande, ou um Helicóptero que voe para assim poder voltar aos seus estudos em Lisboa.

Qualquer semelhança entre esta história e suas personagens com factos e pessoas reais não é mera coincidência mas para lá caminha.

Fim

MC White - 1994

[a nota final, em anexo, data também de 1994 ano em que me iniciara num cursor superior. Ano marcado por grandes manisfestações estudantis contra as propinas… A vaga anterior à actual, chamemos-lhe assim. Manuela Ferreira Leite era Ministra da Educação.]
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2. David Urbano

Novembro 16, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

Os Três Dês e a Nota Final (continuação)
2. David Urbano

Metropolitano de Lisboa, três e meia da tarde. Lá fora, nas estações, a agitação era pouca, as caras sucediam-se dispersas pelas gares, os olhos raramente se desprendiam do infinito para procurar algo, e menos ainda para procurar outros olhos. Quando por acaso esse milagre acontecia, quando por acaso os olhares se cruzavam, um milagre ainda mais raro poderia então ocorrer, poderiam partilhar-se perguntas, emoções, sentimentos, histórias do dia que se vivia ou de toda uma vida. Tudo durante poucas fracções de segundo.
Um pouco como um jogador de roleta (russa), David arriscava-se nesse jogo perigoso de se mostrar aos outros, sem saber se o que veria seria uma imagem cautelosamente distorcida ou simplesmente escondida atrás de um espelho impenetrável; sem saber se a imagem seria enfeitiçante ou surprendentemente surprendente…David jogava, certo que nunca poderia antever até que ponto se expunha. À sua maneira achava-se um cruzado, um combatente pacífico em busca da valiosa arca escondida. Alguém que só pilharia se movido por perniciosa ingenuidade, imperceptível egoismo ou puro mau jeito.
Não vos digo qual será a sua sorte, sei apenas que pilhará muitas arcas, a muita gente.

MC White - Março de 1995

(1º Episódio aqui falta editar: 3º Dário Sintra e a Nota Final)

Os três D’s (De um Proto-blogue com 10! anos)

Novembro 16, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 2 Comments →

Os Três Dês e a Nota Final
1. Diogo Campos

Por vastas planícies de cores suaves, com uma brisa morna, perfumada de odores maduros, surgiu aos olhos observadores de um “desconhecidoâ€? a silhueta de um qualquer felino que se passeava elegantemente umas dezenas de metros à sua frente. O animal caminhava lentamente não se distraindo por muito tempo da extensa linha do horizonte. Sem surpresa deparou com o “desconhecidoâ€? não lhe dedicando importância além de uns… cinco segundos, foi assim: primeiro olhou para o indivíduo, depois parou, olhou em volta, voltou a olhar desta vez bem de frente enquanto levantava a cabeça como que farejando o ar e, da forma serena como tinha parado, retomou o passo. Deixemos o felino em paz por uns instantes e concentremo-nos no “desconhecido”.
Um barulho no restolho em volta do “desconhecidoâ€? alertou-o. Não podendo ser grande bicho que por ali andava sem que o restolho o descobrisse, resolveu espreitar… E logo viu sair velozmente um empertigado lagartão que, indignado com a indiscrição do sujeito, mantinha a cabeça bem elevada enquanto se deslocava convictamente para o cimo de um pequeno penedo, ali ao lado, coroando-se com a luz que lá chegava.
Diogo, o nosso desconhecido observador, mirou o céu que trazia o sol já perto do horizonte e pôs-se a caminho do monte Trigueiro, destino da sua missão.
Descendo por uma pequena vereda logo regressou à servidão de que se havia desviado há pouco, tendo-se-lhe juntado mais adiante o pequeno felino que sempre elegantemente, agitando a sua cauda cinzenta entremeada de pretos e brancos bem vivos, seguia um pouco à frente, olhando periodicamente para trás.
Com o decorrer das passadas, Diogo notou que a pardalada se ia agitando em busca de repouso nas árvores e arbustos que eram sem dúvida mais numerosos em volta do caminho que no resto da planície.
Mais uns passos, uma ligeira subida e ali estava ele no Monte Trigueiro. Deu duas assobiadelas, gritou “Carteiro!â€? e de pronto surgiu o Senhor Doutor Alfredo que simpaticamente, como sempre, o convidou a repousar no alpendre enquanto Dona Joaquina lhe servia um copo de água fresca. Bebeu a água e feita a entrega não se deteve dirigindo-se ao outro extremo do monte onde à porta da loja dos ferros estava já o Ti Fernando com a sua “…consertada e afinada…â€? bicicleta montesa.
Agradeceu a Ti Fernando e, desculpando-se com a hora, partiu para casa com o pequeno felino na agora completamente vazia sacola de carteiro. Uma boa refeição esperava-os.

MC White - Setembro de 1993
(Continua com:
2. David Urbano
3. Dário Sintra e a Nota Final que provará que 10 anos depois está quase tudo no mesmo sítio, moscas inclusive)



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