Adufe com ânimo

As armas do meu Adufe não têm signo nem fronteira
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Archive for the ‘As Crónicas e os Contos’

Martenitzi

Março 12, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 1 Comment →

Um sopro persistente vai agitando a nossa bandeira. A verde e vermelha do liceu Filipa de Lencastre está a meia haste.

Ontem chegou da Bulgária uma pequena recordação. Um presente singelo de uma colega que durante seis meses se quedou por Portugal numa acção de formação. Há várias semanas que nos despedimos e, curiosamente, num dia muito triste, nesse mesmo dia, ela, o quase desconhecido fez chegar pelo correio um pedaço da sua cultura. Dois fios de lã interlaçados, um branco, outro vermelho com a medida suficiente para atar ao pulso e com a magia quanto baste para que se cumpra um desejo.

This is old Bulgarian tradition: On the 1st of March, and the days following, all people in Bulgaria give each other these small tokens made from red and white woolen threads called ‘martenitzi’.
According to the tradition, you have to wear your martenitza pinned on your clothes or tied on your wrists (on the right one) and keep them until you see some sign of spring - such as stork, swallow, or blossoming tree. Only after seeing that sign you can remove the martenitzas and tie them on a fruit tree. Then make a wish. We believe that the wish always come true.
I wish you all your wishes to come true!

Martenitzi

I /III - Do coração

Março 11, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 5 Comments →

11 - Haverá algum código de horror por decifrar neste número?

Estranho a maioria daqueles por quem passo. Espero descobrir neles um pesar, uma tristeza profunda mas entre aqueles que tenho mais à mão pouco mais adivinho do que a indiferença. Talvez seja meu o problema. Hoje apeteceu-me ir a correr para Madrid, chorar à vontade, em liberdade, confortar o inconsolável. Não, não foi só hoje. Carrego comigo uma boa dose do peso do mundo que vou alijando sempre com o exercício da vida. Será assim com todos e se não for, hoje, isso também não me interessa.
Acho que nunca aqui fiz alarde de como sofro, é algo demasiado íntimo e impronunciável. Por uma vez (haverá outras), aceito o risco do ridículo com estas pobres palavras. Mas é mais do que um lamento que aqui me traz, é também uma profunda crença na humanidade, naqueles com que partilho estes instantes. Não preciso de fés, de deuses ou demónios para ter este credo. Não é também o horror accionado pelos outros que me demove, espero que nem num trágico dia em que ele se aproxime ainda mais de mim, mude de ideias. Lembrem-me estas palavras se fraquejar…
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A caminho de Sintra (Rev.)

Março 08, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 1 Comment →

Estação de Queluz, quarta-feira, dentro do comboio, no sentido Lisboa-Sintra.
Um rapaz entre os 18 e os 20 e poucos sustenta-se. Basta um breve olhar, para se perceber o espantoso estado em que ele se tem: de pé, pálpebras a meia haste, uma ausência total, completamente banhado em suor. Quando o comboio finalmente pára, dirige-se ao indivíduo, alguns anos mais velho, que se sentara a meu lado. Diz-lhe:
- Já há seis horas que devia ter tomado o antibiótico para o braço.
- Tu és assim! Responde-lhe, enquanto escorropicha o canudo de cartão de um gelado que devorara. E acrescenta: Nunca tens cuidado contigo! Dizendo isto, oferece à cabeça de um transeunte da estação o invólucro amachucado do calipo de limão.
- Merda! Olhe, desculpe! Berra, assomando-se à janela e obrigando-me a pose de contorcionista para não ser pisado. Pouco depois, reparo que me caiu sobre os joelhos um minúsculo pacotinho de plástico com um pó branco que acaba por escorregar para o chão.
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Segunda Feira de cardadores

Março 01, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

Há pouco, como muitas vezes acontece, um dos contribuintes líquidos para a minha carga genética deixou cair uma frase que vem lá do fundo dos tempos, pelo menos de meados do século passado.
Amanhã é segunda feira, dia de cardadores“. Porque mãe? Não sei. Era um dito lá da terra…

Dia de Cardadores. Já temos título. Falta o romance.

Ter filhos

Fevereiro 24, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 2 Comments →

Deve haver partes do mundo que nos entram por casa a dentro sem pedir licença quando decidimos ter filhos. E não falo propriamente dos filhos, deles mesmos.
O carnaval, por exemplo, passa-me completamente ao lado e se adivinho algo que se aproxime de um sentimento quanto a este afastamento é o de algum alívio e prazer. Sem muito entusiamo, o máximo que me arranco é um “Viva um não-carnaval friorento, forçado, a meio do Inverno”.

E depois como será? Como terá de ser? Adivinho desafios imensos à minha criatividade para aqui e ali conseguir fugir saudavelmente à norma.

Gozando de uma belíssima dor de cabeça

Fevereiro 02, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 5 Comments →

Com um pouco de atenção detectam-se afectos em cada esquina da blogoesfera. Em tempos alguém disse que havia uma falta de amor por estes blogues como que provando uma incapacidade inultrapassável, inadequada ao meio. Mas o meio é reino da palavra e a palavra pertence-nos na criação.
O que aqui fazemos com ela é também o que fazemos em qualquer outro lado, na forma que melhor entendermos. Ela tem o poder de derrubar o muro que alguns aqui encontram e de nos desafiar nas nossas mais íntimas desconfianças, neste mundo de perfeitos estranhos e desconhecidos. Escrevemos, não falamos. Por vezes escrevemos como se falássemos. Lemo-nos, cortejamo-nos, esquivamo-nos para que não nos vejam, também. Alguma vez tivemos um contacto assim? Propenso a alguma reflexão (isto não é um chat) mas quase instantâneo? Passados mais de sete meses de blogoesfera ainda me espanto com o que isto pode ser e é. Ainda faço as primeiras perguntas!
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Incidente no Emprego

Janeiro 28, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

É proibido. Não fica bem. É uma falha de segurança gravíssima. Vai contra as regras mas alguém abriu a porta e… O que é certo é que uma estudante de dança Israelita acabou de entrar pela sala dentro e tentou vender as telas de colegas seus…
Na sala há uma fotomontagem onde uma pequena criança está a mijar para cima do capacete de um militar enquanto este aponta a sua metralhadora. Ficamos a saber que a farda do soldado é israelita…

Ah! Algumas das telas eram pinturas surrealistas como é natural.

Sinistra exigência

Janeiro 25, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 3 Comments →

Pensar, prever, esperar o inesperado. Tudo isto parece distante da poesia. Talvez contrário ao fado…

Não é preciso muito, não é preciso vivermos na obsessão planificadora da nossa vida…
Poderemos viver a vida como se todos os dias fossem o último?
Carpe diem não é bem isso.
O meu dia é hoje também uma perspectiva de amanhã. É alegre pelo minuto que vivo e pelo que ainda quero viver. É triste quando penso que um deles será o último; quando vejo aqueles que amo deixarem de ter tempo.
Pelo que sei hoje é bom que continue a ser assim, que seja sempre assim até ao fim. É bom que não me fuja essa tristeza!

Fazer uma conta, perspectivar uma despesa, projectar uma obra, seduzir alguém, tentar alcançar um sonho, acomodar um filho, tentar ser um pouco mais do que um homem de mãos nuas, ao frio…

Há momentos em que não tenho dúvidas sobre o que faço aqui. São apenas breves instantes que me valem pelas longas horas de angústia e incerteza. Momentos de paz onde nada é sinistro.

Sinistro… Sinistro pode ser não ter uma ambulância num estádio de futebol durante um jogo. Comer o lombo mas não conseguir chupar o crânio. Ter mão para abrir com violência uma lata de comida para o bichano e não ter “estômago” para ajudar um velho mais ou menos sujo que acabou de cair na calçada branca e aí jaz sangrando.
Sinistro é ver-me a fazer poses, sentir-me esquivo, fugindo de um abismo quando mergulho nele, a pique, julgando que voo.
Sinistro é não querer voar ou querer fazê-lo sem pensar em combustível.

O meu dia é hoje também uma perspectiva de amanhã. É alegre pelo minuto que vivo e pelo que ainda quero viver.
Pensar, prever, esperar o inesperado. Tudo isto parece distante da poesia. Talvez contrário ao fado…

A “GENTE” veio no Expresso

Janeiro 24, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 5 Comments →

A revista Única do Expresso através da Gente fez hoje uma referência à iniciativa do António Colaço e da sua Ânimo (Os Ânimos de Ouro). Tendo quatro dos doze eleitores votado no Adufe, acabei por ganhar a “taça”, uma original lembrança que muito estimo, bem como, mais importante, um outro tipo de convívio com alguns blogueres (e não blogueres) presentes no “jantar de gala” :-).
Ganhou também o Adufe uma referência impressa na media-esfera real, a primeira de que tenho conhecimento.
Destaco aqui o evento e respondo agora de uma outra forma a uma pergunta que o António me fez no jantar “Mas afinal de que Beira Baixa és tu?” …
Republico um texto já aqui editado a 4 de Agosto de 2003.

Ignorando a lenda de Mem Martins

Fonte da imagem: Viajar-Clix

“Can you tell me where my country lies?�
said the unifaun to his true love’s eyes.
“It lies with me!� cried the Queen of Maybe
- for her merchandise, he traded in his prize.

Excerto de «Dancing With The Moonlit Knight», Genesis,
Ã?lbum SELLING ENGLAND BY THE POUND, 1973

I

(…) Acabaram as aulas. A turma saiu da sala e dispersou-se rapidamente.
Distribui duas ou três «boas festas», mais uns quantos votos de «boa viagem» e ala para os beirais da serra; conforto e descanso é que se desejam, para corpo e alma. Mas este ano a serra é a de todos os dias; este ano, para variar, é Sintra que enfrenta a memória de outras férias passadas num vale à raia de Espanha, num buraquinho da Cova da Beira.

Talvez porque o ambiente e o cenário sejam propícios a nostalgias, talvez porque a saudade seja forte e genuína, despeço-me da Pena, fecho os olhos e recordo.

II

A aldeia

A sudeste, por entre meandros de vales contínuos que, caprichosamente, se sobrepõem e, em determinados pontos, prolongam o horizonte, adivinham-se terras de Espanha.
A noroeste, bem visível, surge a Estrela imponente e desafiadora. Não sei se as montanhas têm perfil mas se tiverem é assim que, daquela aldeia, se vê a Estrela.
Nos outros extremos erguem-se os amparos que completam a identidade do vale - rivalidades de duas montanhas que se aventuraram há milénios numa prova de resistência entre blocos de granito e maciços de xisto. Da distância escavada nasceu um vale largo, plano, fértil, muito raro.
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Primavera?

Janeiro 22, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

Ontem quando abrimos os estores estava um casal de pardais a namorar no parapeito. Era tanto amor que não se assustaram com os quatro olhos esbugalhados bem fixos neles, admirados com tanta ternura.
Poucos segundos depois aproximaram-se mais dois machos pretendentes e iniciou-se um zaragata de todo o tamanho com a pobre “pardala” a assistir.
Hoje vejo os primeiros pombos a arrulhar em pose cortesã. Volteios e revolteios de um macho de penas lustrosas em torno da imperturbável fêmea…
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Excerto de uma viagem de combóio

Janeiro 04, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 4 Comments →

Entre o Rossio e Benfica (linha de Sintra) aos soluços:

“(…) Volta-se a ouvir o pouca-terra.

«O que faço eu aqui?» pergunta Bruce Chatwin num livro aqui ao meu lado.

Vejo as cúpulas redondas e bicudas do reaparecido aqueduto como que nascendo da terra.

Ali fora há gente na rua a viver - no talho, na mercearia, a comprar frangos assados para o jantar…

«Herois do Bar» pisca o neon (…)”

O meu Natal II

Janeiro 02, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 16 Comments →

Este lugar onde imperam os freixos à beira da ribeira, perto de um velho açude, teima em me trazer bons momentos ano após ano. Não sei até quando mas neste natal voltei a estar bem por ali (aqui).

O moinho - Benquerença

Inventário

Janeiro 02, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 9 Comments →

O Adufe esteve ontem fechado para inventário e hoje regressa como se fosse o primeiro dia.
Sobre o dia anterior agradeço as simpáticas referências do Leonel e do trio do Mata-Mouros. São pequenos nadas que dão algum incentivo para aqui vir conversar. Dão-nos a sensação de estar entre amigos. Fico também grato aos que me leram, que comentaram, que polemizaram comigo. Agradeço igualmente aos que põem “blogues” no ar.
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O meu Natal I (acres.)

Dezembro 30, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 1 Comment →

O grande braseiro…

Na aldeia que melhor conheço, o madeiro é uma luz monumental que se acende na noite de consoada junto à Igreja. Os moços do ano (rapazes que completam 20 anos) coordenam a recolha de árvores mortas ou moribundas que se espalham pelo vale e, na noite da consoada, gerem a grande fornalha enquanto se vão regando com a prova do vinho novo.
Este ano contaram-me que o monte de toros de árvores se elevava a 5 metros do empedrado e pela amostra que tive em outros natais não me custa acreditar. Se a maluqueira do espírito olímpico se mantiver temo que ainda um dia aqui se conte história de como ardeu a Igreja, mas não nos apoquentemos demasiado que exagero de propósito.

Se uns pecam por excesso…
A passagem da noite mais simbólica do natal deste ano foi, contudo, feita noutro concelho do interior, um pouco mais a norte. Em terras onde os vales não se espalham por planícies antes se estreitam em gargantas apertadas.
Não há falta de árvores entre tais serras, sei que a tradição do luzeiro natalício é aqui igualmente antiga e sei também que não faltam rapazes e vinho novo mas então que raio de amostra de madeiro é esta que deixaram ali bem no adro na Igreja Matriz?

Cá para mim é uma questão de falta de ânimo, o que é que acham?
Castro Daire, Natal de 2003

Na pele do outro

Dezembro 28, 2003 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 4 Comments →

Quando no dia 11 de Setembro de 2001 aconteceu, em Nova Iorque, o que todos sabemos e se começaram a ouvir os números das potenciais vítimas do terrorismo lembro-me de ter perguntado aos meus botões quantas pessoas conhecerei ao longo de toda a minha vida. Já não era a primeira vez que perante uma tragédia tentava encontrar uma qualquer unidade de medida base mais próxima do meu pequeno mundo que me permitisse ter uma melhor noção do que se passava, hierarquizar a desgraça, antever as suas consequências.

Quase de certeza que já alguém fez essa pergunta e até deve haver estudos sobre o assunto, imagino que seja um número útil de estimar para efeitos epidemiológicos ou para outro fim que não descortino.

Esta sexta-feira quando ouvi as notícias do sismo no Irão e, mais tarde, quando revi o filme “A Vida é Bela”, a pergunta voltou a acompanhar-me, mas há ordens de grandeza, quer nasçam do terror dos homens ou de algum cataclismo natural, que não consigo conceber por mais perguntas que faça.

Por mais que queira não encontro paralelos no meu mundo pequeno que me permitam aproximar a tragédia, perceber o incompreensível, imaginar-me verdadeiramente na pelo do outro. Desconfio, contudo, que esse é o nosso maior desafio e a nossa maior esperança para podermos continuar esta espantosa viagem.



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