Adufe 4.0

As armas do meu Adufe não têm signo nem fronteira
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Archive for the ‘As Crónicas e os Contos’

Quando eu era novo…

Abril 15, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 7 Comments →

Devo estar a ficar velho. Cada vez acho mais piada às figuras que faço.

Quando ainda via os programas do Herman lembro-me de ter apanhado uma entrevista a Omar Shariff um grande actor (egípcio) que fica para a história do cinema pelo protagonismo em Doutor Jivago, entre outros.
Em poucos minutos abordou a carreira, os vícios, breves trechos da sua vida privada. Recordo-me dessa entrevista em particular pela espantosa capacidade que demonstrou em fazer humor, um humor com classe, de alto nível, daquele que dispensa asneiradas e que é absolutamente transversal, entendível por qualquer ser humano, independentemente de classe, credo e demais diferenças de cultura. Basta que se tenha vivido.

O seu humor era particularmente desarmante porque se ria de si próprio. O tipo que melhor conhece à face da terra.
Penso para comigo que chegar aos oitenta assim, não seria nada mau. Se pudesse ser mais cedo, melhor ainda.
Mas é difícil, demasiado difícil.

Para terminar: Verdadeiramente “Longe de Manaus”* III

Abril 15, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 2 Comments →

(Continuação daqui)

5.
Deixemos o rapaz e a rapariga que já não nos interessam, agora falo eu.
O que é um livro bonito? Este é um livro bonito. Talvez saído de um Jardim de Inverno, igualmente cativante quanto raro. Uma sedução que se completa com a leitura, é certo, mas que avança de imediato patrocinada pelo caleidoscópio de tons de verde.
A imagem que ocupa metade da capa, a pedir adjectivos gastos mas justos, exibe uma floresta luxuriante que invade um resto de rio, navegado por um escaler motorizado rumo a uma viagem improvável, finisterra.
Esqueço o cheiro de livro novo e passo ao tacto, à textura nervosa do papel, mais suave sobre a imagem, mais áspera fora desta; ao relevo evidente das letras plastificadas que formam o título, à minúscula fotografia do autor que surge como um detalhe, no centro, mas à margem, bem à direita, quase a sair do livro.
Gostava de ter algo para escrever só para poder ter pretexto para que fizessem um livro assim.

6.
Qual é a vida de um livro quando chega às mãos de um leitor?
Este livro verde, prometida que está a volta ao mundo no texto da contra-capa, manteve-se subterrâneo nos seus primeiros instantes: da prateleira na cave da loja seguiu para as entranhas da cidade e foi desflorado na linha verde, entre o Rossio e o Intendente. Fez-se aos Anjos e conheceu o baptismo de noite em Arroios, nos Arroios.
Umas escassas gotas que escorreram do tecto da estação de metropolitano, já à saída, caíram-lhe na superfície plastificada escorrendo ao longo do fio de rio representado. Uma manga da camisa em rápida afago manteve-o imaculado…

7.
A frase “O romance da solidão portuguesa� acompanha o título. Um artigo tão definido! Temos autor determinado, sublinhado o risco do ridículo de peito aberto. Artigo definido e contudo… Começam as dúvidas do leitor, as interpretações. Prossigam as palavras!
As primeiras páginas. Quantos críticos literários ficaram por estas? Quantos somaram mais umas quantas próximo do final e se salvaram com o inestimável resumo da badana ou da contra-capa? Quantos leitores se decidem nas primeiras trinta, quarenta páginas? Quantos deixaram o livro na prateleira da loja por ser demasiado? Demasiado pequeno, demasiado grande, demasiado caro, demasiado feio?
Aproximo-me do papel de um auxiliar de investigação. “Relato factos, não critico livros� poderia dizer, Tenente Sem Sal.
Em quarenta e duas páginas, as primeiras páginas, encontramos a madrugada, uma das muitas noites que passou pelo Aviz, uma suave promessa erótica em �frica, uma breve antologia do Futebol Clube do Porto na suposta Invicta, um crime e o seu mistério, o início das singularidades de um investigador Jaime Ramos, de um adjunto Isaltino, um auxiliar antropológico sobre a vida privada contemporânea - na vertente materialista -, a promessa de viagens e uma Rosa.
O livro por aqui anda, bem verdinho, ainda, passeando por Lisboa, ao sol, à chuva e ao vento, ganhando raízes e folhas, digno da primavera, tomado ou não da solidão portuguesa.
O primeiro livro de 2005.

—————————–
* “Longe de Manaus” é o mais recente livro de Francisco José Viegas, editado pelas Edições Asa em Abril de 2005. Um livro que não tem quase nada a ver com o que aqui se escreve e escreverá nos próximos dias.
Uma entrevista ao autor (sobre este livro) pode ser lida aqui.

Verdadeiramente “Longe de Manaus” II* (act.)

Abril 15, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos, Letras e Livros Comments Off

(Continuação daqui)

3.
O breve balanço da ligeira frustração e o recuperar da cacofonia vocal foi feito à mesa de um restaurante no Largo do Carmo.
Esquecida num canto, uma televisão em repetição contínua de um vídeo-clip. O aparelho e música foram ganhando protagonismo ao longo do jantar. Da tortura irritante à ironia surrealista…
Jantaram e saíram escapando à sobremesa com a melodia a matraquear a cabeça.
O choque térmico oferecido pela noite plena que entretanto caíra ajudou à mudança de pensamentos. Em busca de algo que os redimisse, seguiram ligeiros em direcção ao centro comercial mais próximo.

4.
A actividade para-compulsiva de entrar várias vezes por semana no espaço literário da Loja dos Armazéns do Chiado andava adormecida há alguns meses.
O pretexto mental para descer ao piso respectivo fora outro, mais cinéfilo, e foi já no regresso que espreitaram o primeiro expositor de literatura, talvez o espaço mais apetecido do país para se mostrar um livro…
Na última fila, junto ao chão, uma capa familiar, já vista na net.
O rapaz flectiu as pernas e, enquanto pensava na promessa que havia feito de regressar à ginástica para defender aqueles joelhos, agarrou o que podia ser um pedaço de relva ou de alcatifa esverdeada, houvesse dioptrias insuficientes nuns óculos imaginários!

(Continua)

* “Longe de Manaus” é o mais recente livro de Francisco José Viegas, editado pelas Edições Asa em Abril de 2005. Um livro que não tem quase nada a ver com o que aqui se escreve e escreverá nos próximos dias.
Uma entrevista ao autor (sobre este livro) pode ser lida aqui.

Verdadeiramente “Longe de Manaus”* I (act.)

Abril 14, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos, Letras e Livros 4 Comments →

Verdadeiramente “Longe de Manaus”* em sete pequenas parcelas

1.
A ideia de passar o início da noite ouvindo uns maduros a falar sobre uma revista de política com problemas de baptismo, orientada à direita, fora dele. Ela fez-lhe a vontade, aceitando a proposta de quebrar a rotina.
Desceram à Baixa para subirem ao Chiado encontrando-o mais apinhado do que estavam habituados. Com dificuldade enfrentaram a corrente dos que regressavam a casa. Espreitaram as montras num relance e apressaram-se pois era tarde: a sessão já havia começado.

2.
A rotina fora quebrada de facto mas uma hora a ouvir outros que, acima de tudo, davam a sensação de gostar de se ouvir falar, bastou. Salvou-se o espaço, uma primeira visita a um sítio com um nome antigo mas inspirado: “Jardim de Inverno�. Pela raridade em terras de Lisboa pode-se dizer que é um lugar bonito, ou melhor, cativante como acontece com muitas coisas raras.
Passando o tempo, esqueceu-se a beleza e ficou o desagrado. O fumo do público e dos entrevistadores-entrevistados acumulou-se continuamente e, também por isso, com picos nos olhos, já meio enjoados, zarparam.

(Continua)
* “Longe de Manaus” é o mais recente livro de Francisco José Viegas, editado pelas Edições Asa em Abril de 2005. Um livro que não tem quase nada a ver com o que aqui se escreve e escreverá nos próximos dias.
Uma entrevista ao autor (sobre este livro) pode ser lida aqui.

Embalo de Lisboa

Abril 14, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos, Lisboa 1 Comment →

Quanto vale o argumento do Made in Portugal para um consumidor português?

Que raio terá esta pergunta, ou este tema, a ver com uma crónica baptizada de Embalo de Lisboa, perguntará o leitor?
Ocorreu-me em jeito de chalaça mental quando um amigo lisboeta me contou que uma vizinha lhe foi bater à porta oferecendo-lhe os seus préstimos para serviços domésticos, mais precisamente para passar roupa a ferro. Tudo negócio entre amigos, sem necessidade de papeladas, bem entendido.

Valendo-se do dedo em riste na campainha, chegou-se a senhora à fala com o meu amigo, dizendo-lhe que não deixara de observar que ele punha roupa a passar numa lojeca recém inaugurada no bairro… Já que assim era, bem que o meu amigo podia dar o trabalho à respectiva vizinha, afinal sempre era vizinha… Sempre lhe dava trabalho a ela e não a “elesâ€?.
O meu amigo assegurou-me que nunca trocara uma palavra com a dita vizinha, conhecia-a de vista, de uma loja que ela tinha no bairro (noutro ramo, bem distinto do que agora oferecia, note-se) e mais nada. Nem um raro “Bom dia� que por vezes ainda se vê, mesmo em ruas lisboetas, nada. Admirável o espírito comercial da senhora, em ir-te bater à porta de casa, não?
Que terá decidido o meu amigo?
Disse-me que ficou a maturar por instantes num estranho sublinhado. O “elesâ€? já referido, apareceu repetido na argumentação, por exemplo quando, para valorizar a oferta, a dita vizinha sublinhou que faria o mesmo preço que “elesâ€? mas tinha a vantagem de não ser um deles… além de vizinha… ali do lado.
O enterpeneur nacional personificado na vizinha (uma excepção não representativa, seguramente) não aventou com melhor preço, ou com melhor qualidade de serviço, apenas com um “não-eles�, um pedido veemente, quase mais uma exigência, e um negócio entre amigos, sem necessidade de papeladas, bem entendido.

Uma muito atomista resposta à pergunta que encima a crónica é dada, todos os dias, por este meu amigo, quando acerta os detalhes de mais um contrato com o profissionalismo e a simpatia dos brasileiros-eles que alugaram uma loja que já não se sabia capaz de tal, lá no seu bairro, no meio da cidade.

E eu a imaginar a fé da vizinha no valor do argumento Made in Portugal.
Que porção do brasileiro terá sido feita em Portugal?

Lisboa, 10 de Abril de 2005

Singela homenagem ao Futebol

Janeiro 06, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 1 Comment →

A posição
Sempre achara um desperdício ver jogos de futebol. Incluia-se no clube dos incapazes de compreender o hábito de espreitar um monitor durante duas horas, perseguindo atentamente o comportamento de mais de vinte homens empurrando uma bola.
Se fosse a selecção fingia que se importava, fingia que havia um motivo mais forte, alguma compreensão solidária. Mas por um clube, não entendia, ou melhor, entediava-se.

O clube
A ter clube era do FCPorto, mais porque sim do que por qualquer outro motivo substancial. Se tinha direito a signo do zodíaco podia muito bem ter um clube, evitava-lhe ficar sem resposta à pergunta recorrente. FCPorto… Tradição familiar, talvez. Pelo menos de uma parte da família. Adiante.

A estreia
Um dia foi à bola pela primeira vez. Foi de facto. Comprou bilhete (na realidade ofereceram-lho - é justa a confissão), sentou-se na bancada central, tirou o telemóvel da bolsa, desligou-o e esperou pelo apito inaugural.
E o espetáculo começou. Ela, entre a personificação de um passageiro de avião em descolagem permanente e um espectador de cinema, ópera, teatro ou bailado, gostou.

Ontem em São Nicolau

Dezembro 06, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

Quis a sorte que eu ontem estivesse talhado para ir a São Nicolau com a minha moça. Um hábito esporádico como aliás já aqui relatei no Adufe em tempos.
Não sei se sabem o que se passou na Igreja de São Nicolau em Lisboa. Clero e poder político em auto-bajulação, ou quase… Os primeiros agradecendo aos segundos o dinheiro para a recuperação da Igreja - que ficou lindíssima confesso.
Auto-bajulação? Exagero um pouco. Consolou-me o nosso cardeal patriarca num muito suave sermão adventício. Perto do final, com os fieis e laicos à sua frente (incluindo Santana Lopes, Gomes da Silva e Carmona Rodrigues) apelou a que colocássemos “mais verdade nas nossas análises”. Apelou e tornou a apelar: mais verdade, mais verdade, mais verdade. Três vezes apelou.

Não consta que São Nicolau oferecesse barretes às criancinhas mas o ministro do Vaticano ontem foi muito generoso. Amen.

Mais logo ponho aqui imagens da Igreja - já que está paga (digo eu) aproveite-se “a qualidade e a beleza” como sublinhou Dom José Policarpo.

Verbalizar nem sempre é o caminho mais curto para a obra

Novembro 11, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

Ando com saudades de escrever. Escrever mesmo. Em bom rigor há anos que não escrevo nada (se calhar há 29 anos). Mas nos últimos dias tenho sido atacado por súbitas ânsias literárias. Provavelmente são efeitos secundários de não ler um livro de fio a pavio há demasiado tempo; também graças a este que lêem.

Meu caro blogue, andas demasiado armado em filho único. Reizinho possessivo. Temos que tratar deste assunto… Ai temos, temos.

Os contadores de histórias

Outubro 05, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 1 Comment →

Da derradeira passagem pela Feira do Livro da Bertrand deste ano trouxe mais um livro (Planeta Editora - 2003) que me agarrou pelo título: “Os Contos do Tio Joaquim”. Segundo me parece trata-se de um livro de um autor português do Século XIX, Rodrigo Paganino, médico e jornalista que expirou aos 28 anos em 1863.

O Tio Joaquim é uma personagem do campo, já entrada na idade que se destacou por ser um excelente contador de histórias. Tenho alguma curiosidade em ler este livrinho que se rotula entre o romantismo tardio e um realismo precoce.

Porque me agarrou o título?
Também eu conheci um Tio Joaquim, «pechêgo», contador de histórias meu bisavô.

Pesadelo na Auto-Estrada

Setembro 14, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 1 Comment →

Um tipo que não sabe conduzir, que nunca pôs os pés num automóvel desliga a TV a meio das declarações de um ministro e olha tristemente para a caixa de anti-depressivos importados da Alemanha. Hesita em abri-la. Espreita o chocolate suíço mas decide-se pelo comprimido.

Estica-se na cadeira de balouço produzida na capital do móvel, descalça os chanatos alentejanos e é acometido por uma súbita necessidade. Vai ligeiro para a casa de banho sentar-se no trono de porcelana espanhola.

Pensa nas palavras do ministro que ainda apanhou. Ele acha bem, os que usam as auto-estradas que as paguem. A ele não lhe fazem proveito nenhum. Porque há-de estar a pagá-las?
Avia-se e vai ao frigorífico italiano. Tira um saco e começa a depenicar um cacho de uvas marroquinas.
Engasga-se com uma grainha e a seguir com um bago inteiro que lhe fica entalado à entrada da traqueia. Soluça, sai à rua pela porta das traseiras pedindo socorro sem conseguir respirar! Quando está prestes a perder os sentidos quase caindo para a frente de um camião Checo que passa na rua, acorda estremunhado a tempo de evitar o separador da auto-estrada.

É melhor sair na próxima estação de serviço e descansar um pouco.

Note to self nº 9866543

Agosto 11, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 3 Comments →

Hoje acordei, como de costume, e também como de costume liguei mecanicamente o rádio.
Preguicei uns minutos enquanto ouvia as notícias e preguicei ainda mais um pouco “só” para ouvir umas musiquitas.
Para castigo fiquei meio dia a ouvir na minha caraminhola uma horrível melodia dos Scorpions. (Obrigado TSF)

Há pouco fiz esta confissão em voz alta - o blogue ficou com ciúmes por não ser o primeiro confessor mas coitado, amanhe-se - e uma amiga recomendou-me um remédio infalível para esta angústia comum: “Cantarola o mahnhamanha dos Marretas que isso passa.”

Funciona! E é mil vezes mais estimulante!

Recolho testemunhos para um estudo científico sobre o assunto. Digam coisas!

Vá para fora cá dentro

Agosto 08, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 3 Comments →

Almoçar na casa de todos os dias, abrir a porta da cozinha e ficar à mesa vendo a chuva cair, embalada por um vento indeciso.
O momento zen do dia.

45 cêntimos

Julho 09, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos 1 Comment →

Campo Grande, sinais debaixo do viaduto da 2ª circular em direcção a Odivelas/Sintra. No início de 2004.

Vermelho. Para a carroça.
Com velocidade surpreendente um pequeno e um pequena molham, esfregam e enxaguam o pára-brisas.
Apesar de respeitar as condições mínimas para permitir uma boa circulação, a ausência de chuva recente e o desleixo calculado que vou votando ao veículo permitiam ver a diferença. Estava limpo!

Completada a operação segue-se o pagamento. A moça aproxima-se do vidro do condutor e bate com o nó do indicador. “Uma ajuda”, estende a mão e sorri.
É bonita a pequena cigana. Abro o vidro e ponho-lhe na mão 50 cêntimos acrescentando um “Obrigado!”.
Antes de lhe dizer adeus “a” moeda cai para dentro do carro. A moça perde o sorriso e soluça “Caiu!” enquanto olha para o porta-moedas que eu ainda não tinha arrumado.

Apressei-me a dar-lhe outra moeda, um ou dois euros que já não havia outros 50 cêntimos, o sinal ficou verde e fui embora.

Qual é a história? Esta deveria ser a história que a dupla de aprendizes queria que eu contasse, uma história que terão repetido vezes sem conta por aqueles dias. Mas para seu azar, a moeda que caiu dentro do carro parou no meu colo e não no chão, debaixo do banco, escondida. Estranhamente, os 50 cêntimos eram agora uma moeda de 5…
Um truque engraçado. Ilusinismo, pois então! Devolvi a moeda à moça que me manda uma gargalhada traquina e dispara a fugir como o seu companheiro refugiando-se atrás dos cavaleiros de pedra que vigiam o jardim.

O sinal ficou verde e eu fui embora. Esta é a história.

A festa II - Ordem e progresso

Julho 01, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

(Continuação)
Primeira parte aqui

Seguimos depois pela Estefânia onde os foliões eram esporádicos e exclusivamente motorizados. Foi por essa altura que percebemos que a passagem pela praça do Chile nos deixara os ouvidos a zunir. Mais um grãozinho de perda de audição antes dos 70 anos.
Fomos caminhando em direcção ao Saldanha aproximando-nos de um outro vulcão. Desta milha de passeio, a fotografia que guardei fê-la o sem abrigo que assentara arraial à entrada do Bilbau e Viscaya. Quase de bruços, embrulhado num cobertor e rodeado por cartões e jornais, olhava para a fonte do largo da Estefânia aparentemente indiferente às buzinas dos carros, ao agitar das bandeiras e aos nossos olhares curiosos. Ele não estava ali.
(more…)

A festa I

Julho 01, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos Comments Off

Passavam poucos minutos do apito final e o cantinho mais ensurdecedor da capital devia ser aquele pedaço da Almirante Reis entre a Praça do Chile e a Pascoal de Melo. Em mais nenhum sítio da cidade por onde passámos nas horas seguintes, ficámos com os ouvidos a zunir.

Predominavam os bólides - em Fiat Uno e Renault Clio - sobrelotados com famílias inteiras (crianças, pais e avós) ou com jovens pouco mais que adolescentes empoleirados nas janelas e espreitando pelos tectos de abrir.
Não fazia ideia de existirem tantos carros com tejadilhos amovíveis nesta cidade. Uma moda a considerar nos próximos anos para os vendedores de automóveis.

Retive duas “fotografias” daquele canto. A de uma venerável avó espreitando a rua do lugar da janela do pequeno utilitário. O sorriso que nos oferecia era sereno, cheio de rugas, nuns olhos piscando com o reflexo dos neons. Aposto que estava feliz.
A outra guardo-a para uma das muitas buzinas originais que encontrámos ao longo da noite. Chamemos-lhe “buzina de detonação” esta que um casal de idosos, no seu igualmente idoso veículo, ia pondo a funcionar com sucessivas bombadas naquele enchedor de pneus com apito acupulado.

(continua)



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