Adufe 5.0

As armas do meu adufe não têm signo nem fronteira
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As armas do meu Adufe,
não têm signo nem fronteira.

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O que diz António Costa sobre a detenção de José Sócrates

António Costa há instantes num SMS que enviou aos militantes que creio fazer sentido alargar ao país:

“Caras e Caros Camaradas, Estamos todos por certo chocados com a notícia da detenção de José Sócrates. Os sentimentos de solidariedade e amizade pessoais não devem confundir a ação política do PS, que é essencial preservar, envolvendo o partido na apreciação de um processo que como é próprio de um Estado de Direito, só à Justiça cabe conduzir com plena independência, que respeitamos.
Ao PS cabe concentrar-se na sua ação de mobilizar Portugal na afirmação da alternativa ao governo e à sua política.
Um abraço afectuoso do António Costa”

E isto é o essencial.

Opinião: O fantasma do líder anterior

Caro Vega9000, apesar de hoje até ter dado um nobel da economia, não sou grande fã de estudo de eventos, em particular quando estudas um fenómeno multivariado onde não consegues controlar tudo o resto que condiciona a realidade. E nesse sentido, o teu exercício de prova (aparentemente o PS – e o PSD, já agora – começaram a subir após Sócrates ter regressado) nunca te poderia dar razão tal como nunca te a poderia tirar. No final desta conversa, não sairá ninguém com razão pois estaremos a discutir perceções, interpretações. Especulamos sobre consequências políticas.

Talvez tenhamos contudo diferentes pontos de partida. Acredito que Sócrates é ainda hoje um lastro complicado para o PS, incluindo para uma parte importante do eleitorado que podia perfeitamente abandonar a abstenção, o voto branco ou nulo e regressar ao eleitorado do PS. Provas? Não tenho. É uma apreciação subjetiva do que vou vendo por aí. Falível como é óbvio. O que sei é que a governação anterior está longe de ter sido digerida, escalpelizada, debatida. E não vejo que uma defesa monolítica e naturalmente enviesada promovida por Sócrates a substitua com propriedade. Repito, como disse anteriormente, há por aí culpas de parte a parte. Nada que se pareça com o exercício de reflexão feito pelo PSOE foi desencadeado por cá, por exemplo. É pena.
Em defesa adicional da minha tese posso apenas acrescentar que a ameaça, os engulhos de um ex-líder a uma nova liderança são um clássico em política. Episódio aliás já visto em Portugal e no passado do PS. Tanto mais danosa quanto (entre outros):

 1) Mais pesado for o fardo percebido pelo eleitorado associado ao antigo líder (a tal questão da credibilidade e do peso político do antigo líder);

 2) Maior for a identificação de ambos os líderes com a marca partidária que os une;

 3) Quanto mais fraca for a nova liderança em matéria de autoridade política.

Perante esta grelha é até possível haver algumas situações teóricas em que o impacto da convivência de líderes sucessivos seja virtuosa; não me parece que seja o caso. É até particularmente nefasta pelas três razões.

Acrescendo, já agora, que nem sequer oferece a esperança de uma alternativa dado que não creio que haja qualquer motivação ou possibilidade nesse sentido. Aliás, dito isto, aproveito para esclarecer que é irrelevante se há ou não lealdade. Não invoquei qualquer deslealdade e à exceção de uma discutível interpretação pré-eleitoral que Sócrates fez sobre as autárquicas, nunca lhe vislumbrei qualquer ataque à atual direção. Admito até que haja alguma entente cordiale. O que releva é o efeito que a situação produz.

É claro que podes conviver bem com a última alínea pois sublinha a fragilidade de uma direção de que não és apoiante, tudo bem. Alegra-me pouco essa evidência e acho despropositado que se faça por esta via.

Procurando respeitar um certo sentido de justiça que me é caro, não é esse o meu caminho de eleição e fosse quem fosse o líder atual do PS, a sensação que tive ontem de que estava a assistir a algo contra-natura ao ver na RTP1 o antigo líder a comentar o governo segundos depois da conferência de imprensa manter-se-ia. Acredita se quiseres. Não me leves a mal, mas, nesse particular, a tua opinião ou a de qualquer outra pessoa interessa-me pouco. É o que penso.

 Quanto ao resto do teu artigo… O meu nível de empolgamento com o atual PS poderia ser francamente melhor (não o tenho escondido por aí e até por aqui) e acho que há muito por onde melhorar e a criticar nas posições e nas omissões evidentes. Mas tenho também poucas dúvidas que não temos melhor alternativa para recuperarmos o bom governo do país a que se junta a evidência de que não é este o momento para pensar em mudar de direção.
Dito sito, até para me sentir mais “credenciado” nesses contributos críticos que possa vir a dar (pontualmente alinhado ou desalinhado com a atual direção), não podia deixar de passar isto que me parece uma situação que roça o absurdo político.

Uma situação que acho deveria ser evitada por todos. Aliás, acho que não me afasto muito do que pensa António Costa sobre o assunto, quando afirmou que não imagina sequer, como amigo, que isto seja bom para Sócrates:

 “Má ideia. Enfim. Mas é como amigo.” Disse há uns meses sobre o assunto

 Acrescento que tenho imensas dúvidas que seja bom para o PS. Como camarada.

Originalmente publicado no 365 Forte.

Opinião: Qual é a figura pública do PS com mais problemas de credibilidade junto do eleitorado?

Não discuto se essa perceção é justa ou injusta mas constato. Para mim a resposta é linear: José Sócrates.

E se não me engano nessa análise, o pior que o PS pode fazer para dificultar a sua própria afirmação como alternativa é ter este seu ex-lider a comentar as aberrações e sacanagens propostas pelo atual governo. Este facto, este protagonismo, que não será (nem tem de ser) controlado pela direção do PS, objetivamente faz mais pela não descolagem do PS nas sondagens do que o ar mais ou menos ensosso de Seguro que tantos fazem questão de apontar.
Não disputo que Sócrates tem o direito, sublinho apenas as consequências. Parecem-me óbvias e indesejáveis do ponto de vista do PS.
Convém também sublinhar que há muito tempo defendo que há uma lacuna interna no PS (com responsabilidades partilhadas por todos) quanto à ausência de um balanço sobre a última governação do PS. Um balanço que permitisse defender com particular empenho aquilo que se deve sublinhar e rever o que se fez de errado. Não havendo a perceção desse exercício, e com isso sendo difusa a defesa do que foi bem feito, talvez Sócrates se tenha sentido particularmente legitimado para a auto-defesa. Contudo, o que sublinho hoje é mesmo a consequência de toda esta cadeia de eventos. Ter Sócrates como um dos principais protagonistas do PS (e dos que alcança maior notoriedade pelo espaço que lhe é dado – em canal aberto, prime-time) a fazer a crítica ao atual governo é de doidos em termos de acuidade política. O governo atual agradece.

Originalmente públicado no 365 Forte.