Adufe 5.0

As armas do meu adufe não têm signo nem fronteira
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As armas do meu Adufe,
não têm signo nem fronteira.

Bem-vindo ao Adufe 5.0



Recomeço

18 meses, testemunha privilegiada de alguns momentos históricos da nossa vida política, dois orçamentos, muito parlamento, muitas reuniões, muitas boas surpresas, vários preconceitos para o caixote do lixo (outros nem tanto), algumas ideias para melhorar o nosso futuro que ficam a amadurecer, um breve estágio energético, muitos amigos novos e algumas incursões adicionais pelas partes estranhas da natureza humana para completar a coleção recolhida ao longo dos últimos 41 anos.
Crescer um bocadinho, conhecer-me um pouco melhor também fizeram parte importante do pacote.
Saio do governo grato a quem me convidou e sempre em busca da felicidade que a vida é extremamente curta e valiosa para não manter sempre presente essa demanda no topo das prioridades.
Neste momento estou convencido que conseguirei servir mais o país aplicando melhor o que tenha de engenho e arte regressando à CMVM que está a tentar algo pouco visto pela forma sistemática, empenhada e estruturada como o procura fazer: reformar-se e melhorar!

Bem hajam a todos aqueles com que me cruzei de uma forma ou de outra desde o final de 2015. E continuem o bom trabalho!
We’ll meet again, certamente.

Era uma vez no governo

A propósito do última sondagem da aximagem
PS atinge os 39% o valor mais elevado em um ano.
BE tem mais um indicador de que perante as suas opções dos últimos nove meses, os 10% das legislativas estão cada vez mais longe de poderem ser interpretados como voto de protesto, errático e volátil.
O PCP tem também mais um indício de que estará a ser fiel aos intentos do seu eleitorado e tal como o PS vai subindo entre junho e julho rondando os 7%.
Os três partidos de esquerda estão longe de se “canibalizarem”: somados atingem o valor mais elevado – cerca de 56% – mais 5 pontos do que face aos resultados das legislativas.
PSD caiu para os 30 a 31, a fasquia mais baixa desde que se separou do CDS e o CDS sobe ligeiramente face a junho de 2016 para cerca de 5%.
Na prática, os três partidos que suportam o governo continuam a procurar a cada dia formas de compatibilizar prioridades e valorizar objetivos comuns, com o governo a procurar gerir da melhor forma possível as respetivas agendas no respeito dos compromissos europeus e do seu programa. Numa palavra: normalidade.
 
As diferenças persistem e perduraram como é saudável em democracia. Haverá mais eleições, haverá tempo para as destacar e para pedir a renovação do apoio popular. E também isso é normal. Creio que aos poucos os portugueses mais renitentes vão percebendo que estamos a encontrar um caminho que não deve embaraçar nenhum democrata.
A responsabilidade dos democratas é perante as diferenças, no respeito da correlação de forças determinada pelo voto, encontrar e testar os caminhos comuns possíveis no melhor interesse do bem comum, por mais estreito que seja o caminho do entendimento político. Desta vez persistimos num desse entendimentos, à esquerda como tantas vezes no PS o fizemos com outras forças partidárias em 41 anos de democracia. Já era tempo e ainda bem que foi finalmente possível.
 
A tarefa não é hoje mais fácil do que em novembro, em especial se olharmos para a situação económica e política na Europa e no mundo mas não consigo deixar de recordar que já no passado, neste meses de legislatura, se ultrapassaram dificuldades e se encontraram caminhos compatíveis com todas as linhas vermelhas fundamentais dos quatro partidos que apoiam o governo e com os preceitos da nossa participação comunitária. Mesmo perante as adversidades – ou especialmente perante elas – é fundamental respeitar com sentido de futuro o interesse do eleitorado com que estamos alinhados.
A verdade é que, tal como pensava antes de imaginar sequer que teria um pequeno papel na engrenagem do governo, mantenho e reforço que neste momento histórico esta continua a ser a melhor opção de entendimento político para servir o país e a própria Europa.
Dito isto, é possível continuar a melhorar, é possível aprender com os erros cometidos nestes meses, é possível gerir e resolver os problemas herdados do passado que insistem em aparecer com escala e surpresa (aqui dá jeito contar com um mínimo de bom senso europeu), é possível potenciar mais as relações que se construíram e é possível cumprir esta legislatura com um saldo francamente positivo.
Não depende só de nós? Não, não depende, mas dá muito jeito termos percebido que era preciso ajudar-nos a nós próprios, recuperando o sentido de dignidade, a capacidade crítica face ao mundo que nos rodeia e um sentido pragmático alinhado com o interesse fundamental de quem, em Portugal, elegeu os seus representantes políticos.
A sondagem foi analisada aqui no Negócios.

Um governo de esquerda: ponto da situação

Dia 7 de outubro:

Esta democracia tem de ser mais madura. Eleitos e eleitores. Fazer “call” ao “bluff” ou à sinceridade de procura de concertação à esquerda é fundamental. Sendo que cada caso (BE e CDU) é um caso. E a hora é agora. Não é daqui a uns meses perante um governo apodrecido, por exemplo.
Espero que António Costa consiga o mandato que estará a pedir na Comissão Política Nacional do PS [que conseguiu] e que está a ser anunciado nos media.
Na pior das hipótese haverá pedagogia política; na melhor um grande salto evolutivo na nossa democracia que, note-se, pode até acontecer mesmo sem um acordo a três [e consequentemente sem governo de esquerda].
Tempos muito interessantes. Muito do futuro político do país no curto mas também no médio e longo prazo pode decidir-se por estes dias. Ao centro, à esquerda e à direita que isto está mesmo tudo ligado.

Dia 10 de outubro:

Baixa no secretariado do PS. Não há bluff. A minha dúvida agora é quanto ao grau de pureza do BE. Conseguem enfiar algum radicalismo na gaveta? Quando uma parte faz três exigências, se forem atendidas pela outra, está disposta a enfiar o resto do programa extremista na gaveta para evitar um governo de direita?
O PS é de longe quem está a investir mais capital político neste processo. O BE já estabeleceu três exigências. Creio que não são inultrapassáveis mas quer isso dizer que prescindem do extremismo no resto?
Na realidade ainda não fazemos ideia no que estão dispostos a ceder para viabilizarem um governo com um partido da esquerda moderada como o PS.
Espero que segunda-feira fique claro.
Note-se que considero que seria um suicídio político para o PS (e não só, mas com o mal dos outros…) se o governo de esquerda fosse algo diferente de uma coligação a três no governo. Todos empenhados. Todos com a carne toda no assador, a bem do país.

Se o pior acontecer (falta total de entendimento ou de pontes para um entendimento futuro) nem tudo se terá perdido. Todos os anos nascem inocentes. A malta que vive na política tem tendência a esquecer-se disso. A história ensina-se ou esquece-se.

Neste momento, ouvido Louçã ontem na SIC e recordando todos os episódios da semana, apostaria num cenário em que a coisa à esquerda se resumirá a um jogo do empurra ao PS para que forme um governo minoritário com juras de apoios pontual por parte do resto da esquerda e chantagem de que isso deveria ser suficiente para o PS não apoiar um governo de direita. Não chega. Como disse, ou constroem um programa comum ate´oa nível das questões orçamentais e mecanismos de estabilização automática ou o governo estará condenado ao fracasso. Não é preciso conhecer muito de ciência política para saber isso. BE e CDU têm a palavra. A decisão histórica é exatamente essa.

Recapitulando: Há possibilidades de entendimento à esquerda para um governo estável ou não?

Um à parte final: parece que há muita gente à direita e à esquerda que protestou com o voto e está a descobrir agora que o voto de protesto elege deputados. Parece até que querem fazer de conta agora que foi a brincar, que a construção de maiorias na democracia portuguesa só se pode fazer entre três partidos. Giro.

“Os mais intransigentes são os pequenos países”

“França acusa “países mais pequenos” de serem fatores de bloqueio com a Grécia @TSFRadio 

Finalmente o Ministro das Finanças Francês desmascara a cara de pau da nossa ministra das finanças (e de outros pequenos países) que em público vão dizendo que nada tem a ver com as negociações, que é com as instituições, e que, afinal, no Eurogrupo tem destruído qualquer hipótese de apoio. “Não. A Alemanha não é um factor de bloqueio. Posso garantir que o mais duro não tem sido a Alemanha; têm sido os países mais pequenos que, ao longo destes anos, têm feito esforços consideráveis”. Note-se que ninguém teve de implementar um programa tão extenso e doloroso como a Grécia. Ninguém. E ninguém teve consequências tão negativas.

Das incongruências do Syriza à estupidez portuguesa e de outros pequenos países que impedem o acordo com que outros condescendem se põe em perigo a União Europeia. Registe-se para que alguém não se lembre de mistificar ou de vir com ar pesaroso, hipocritamente capitalizar para ganhar mais um voto em setembro/outubro.

A TAP é muito precisa neste Natal, no próximo que se lixe

“11. O Conselho de Ministros aprovou a requisição civil dos trabalhadores das empresas do Grupo TAP em função da greve declarada pela plataforma de sindicatos do Grupo para os dias 27, 28, 29 e 30 de dezembro de 2014. Esta decisão visa assegurar serviços essenciais em defesa do interesse público nacional e de sectores vitais da economia nacional.” excerto do Comunicado do Conselho de Ministros

Diz o governo em comentário adicional que está a zelar pelos interesses dos emigrantes, garantindo-lhes o Natal. Hum…parece-me uma perspetiva de muitíssimo curto prazo. Se para o ano quando a empresa já privatizada seguir as pisadas de outras companhia de países com diáspora encerrar algumas linhas vitais para os emigrantes, como se proporia o governo defender o interesse público nacional que agora diz estar em causa? Onde está a coerência disto tudo? A TAP é muito precisa neste Natal, mas no dia seguinte o que ela fará ou deixará de fazer pode entregar-se a um investidor privado.

Anda um tipo, nesta história das privatizações, a batalhar para encontrar uma sólida linha de coerência (à esquerda, ao centro, à direita, em cima ou por baixo) e vem o governo e estatela-se com um estrondo monumental tropeçando nos próprios pés. Então se a TAP tem de ser privatizada e se isso é compatível com “assegurar serviços essenciais em defesa do interesse público nacional e de sectores vitais da economia nacional” porque raio numa greve se ameaça de cadeia quem faz greve na TAP?

O governo definia juntamente com os trabalhadores os serviços mínimos nas linhas onde a TAP praticamente não tenha concorrência e nas outras rotas deveria deixar a greve fazer o seu curso (concorde-se ou não com ela) deixando o mercado ajustar-se (já muitos cancelaram voos, compraram bilhetes em outras campanhias, etc) não devendo o governo esperar grande dano estratégico (além do dano que inevitavelmente uma greve sempre provoca).
O que vejo é um governo a proibir uma greve invocando argumentos absurdos face à opção política que defende – afinal está muito preocupado com os emigrantes.

Políticos para rapidinhas e políticos para casar

Nota prévia: bem sei que o tempo é de pré-campanha, mas não ficaria de bem com a minha consciência sem este desabafo que espero encarem como uma crítica construtiva, um impulso para que chegar a um nível mais elevado, urgentemente.

Há tanto por onde o Estado pode ganhar eficiência e poupar recursos e gerar mais bens públicos e de melhor qualidade que até mete impressão. Não são gorduras, são processos.

Quem acha que Portugal tem o aparelho do Estado mais eficiente do mundo ponha o dedo no ar.

Dito isto: reduzir a reforma do Estado a “onde é que vamos cortar” ou a “mais ou menos Funcionários Públicos” ou “diferenças” entre “para mim só entra 1 por cada 5 que sai” ou só “entra 1 por cada 2 que sai” é de uma pobreza e estupidez absurdas.

Temos algumas áreas de excelência (em perigo ou já em degradação à mingua de recursos e da gestão de terra queimada em curso), temos outras onde, se nos faltar a imaginação, podemos usar boas práticas de outros Estados.

Atrevendo-nos a afirmar, sectorialmente, onde queremos Estado mas também o que queremos e como queremos que o Estado atue, no fim garantiríamos que por cada €uro aplicado extrairíamos mais retorno em termos de bens estar e capacidade como comunidade. E esta é a métrica que realmente interessa para a boa gestão da coisa pública e para se perceber e reconhecer o papel fulcral do Estado. A esquerda e a direita poderão divergir nos limites de ação mas não vejo como não convergir na forma de avaliação. Poderão até divergir na valorização do impacto nas componentes que nunca se conseguirão reduzir a uma variável numérica ou monetária (divergência que não será apenas um detalhe sublinhe-se), mas o fundamental do processo de análise podia e devia ser comum.

Muito pouco disto tem estado presente na gestão do Estado em período de crise, ocorrem-me exceções positivas (mesmo neste malfadado governo) mas que não são a regra.

Ora perante um governo absolutamente incapaz é obrigatório apresentar uma alternativa absolutamente estruturada. Que se tenha dado ao trabalho… Até agora não vi o suficiente dessa alternativa, em particular ao nível da construção de edifício intelectual que venha a estruturar a governação corrente. Admito que isto aconteça porque, em parte, o que já há de reflexão e pensamento estruturado tenha dificuldade em chegar aos media (logo às pessoas), mas não apenas por isso, essa justificação é insuficiente. Aliás, uma análise atenta da atualidade desmente que não haja espaço para veicular uma política alternativa, algo aliás que tem melhorado nas últimas semanas.

Haveria muita mensagem com impacto prático na governação futura que já poderia estar a ser escrutinada publicamente e que teria o apelo suficiente para conquistar espaço na agenda política.

Mas isso, anunciar o que se quer fazer não é mau para ganhar votos, perguntará o político mais amante do catenaccio?

Para ser muito direto, que tipo de governação se quer? Não se ganha autoridade para exercer o poder sem ganhar o respeito dos eleitores e sem envolver simpatizantes, militantes e eleitores em metas, objetivos e caminhos concretos relacionados com o dia-a-dia do cidadão comum mas também construindo uma mensagem que traga até às preocupações do cidadão comum mais fatores que lhe condicionam a vida e sobre os quais tem de ganhar consciência política.

Podemos até ganhar eleições, chegar ao governo, mas teremos uma fragilidade fundamental a tolher-nos a ação e a capacidade de cumprir com o que nos é exigido. Acho que temos bons exemplos recentes de como ganhar eleições pode ser uma tragédia para um país. Não basta conquistar o poder, é preciso hoje termos um compromisso quanto ao que queremos fazer com ele nos vários cenários de enquadramento económico e europeu que é possível imaginar e isso não tem sido feito cumprindo com os mínimos de exigência que a dificuldade do momento impõe. Pelo menos este eleitor sente-se na obrigação de pedir mais.

É certo que é impossível esculpir em pedra o que se fará num governo a 4 anos, mas é fundamental ir além princípios mal preenchidos por uma mão cheia de reações à política atual.

Se há dificuldades e obstáculos hoje, às portas de uma campanha (e por várias vezes, em público, até nos telejornais, tenho ouvido este lamento da falta de recursos), é fundamental encontrar como superá-los. Governar, não será certamente mais fácil.

No governo controla-se a agenda? Sim, controla, ou pelo menos será mais fácil. Mas… o que é que se vai querer pôr na agenda se tão pouco ganhou (ganhará) tração na sociedade enquanto se prepara a eleição? Quem tem a ilusão de que tudo se resolve como uma reserva mental, que depois é que é, confiantes que aparecerão os técnicos, os quadros… Provavelmente o “saber” encaminhar-se-á para, mais uma vez, ser ultrapassado pela esquerda e pela direita, pelas agendas de quem sempre soube e saberá o que quer. Quem pensar assim estará condenado a ficar aquém do exigível ou a ter de confiar num milagre.

Autocomiseração e lições estafadas de tática eleitoral próprias do século XX são péssimas companhias de cabeceira.

Melhor é possível. Vamos a isso?

Opinião: Do défice e da governação da iniquidade banalizada e consentida

Resposta a uns amigos encantados com o desempenho do atual governo patrocinado pela euforia em torno do “cumprimento” do objetivo do défice público.

Realmente, meus amigos, o mundo dá com cada volta. É caso para dizer que desde que seja o meu partido e num dado momento (sim que ainda ontem justificavam todos os sacrifícios sobre os Funcionários Públicos por causa da sustentabilidade) já interessa pouco a sensatez ou a sustentabilidade nos meios que permitem justificar os fins (de curto prazo). Com tanta carga ideológica em cima de medidas salvíficas ainda que massacradoras como a austeridade expansionista, no final, verificamos que nem salvíficas, nem expansionistas. Só destrutivas.

Tudo se continua a fazer preso por arames e patrocinado pelo contrário do que se apregoa. Muito mais impostos, menos produto (sim, em 2013 vamos ter menos riqueza), no fundo um péssimo resultado só amenizado por:
a) Uma manhosice de 400 milhões de euros de uma privatização que engenhosamente foi alterada para que uma parte da receita pudesse abater ao défice (a concessão) em vez de ir abater à dívida;
b) Um “perdão fiscal” em desespero (e que terá rendido mais de mil milhões de euros) porque o défice ia falhar, entre outros porque voltaram a fazer um OE ilegal;
c) Um brutal aumento de impostos que levou o PIB a cair de forma tão intensa no 1º trimestre que nem com 2 a 3 trimestres de recuperação se repõe o que se perdeu;
d) O patrocínio da erosão do capital fixo e outro investimento por falta de reposição elementar ao não executarem a lei do orçamento na componente de investimento (chamar-lhe-ão “poupança” de 600 milhões) – muito para resolver a “surpresa na destruição do PIB” que pôs em perigo o défice.

Mencionar a retoma da economia europeia e o seus spillovers para a atividade económica nacional? Ná. Na recessão a crise era europeia, perante uma ligeira recuperação tudo é crédito do governo.

Mencionar que tudo indica termos tido um ano atipicamente bom no turismo, muito estimulado pela desgraça alheia por esse mundo fora, havendo fundadas dúvidas de que se consigam manter estes ritmos de crescimento? Ná. É preciso reforçar a confiança dourando todas as pedras polidas.

Mencionar que uma parte importante do crescimento da procura externa teve, para além do turismo, sustentação em investimento recente, estimulado pelos governos anteriores e que este não tem cuidado de replicar para que haja boas surpresas no futuro? Ná.
Reconhecer um papel importante ao Estado na interação e dinamização da atividade económica é “proibido”. Por outro, fazer contas ao impacto da nova refinaria ou do reforço da capacidade na industria papeleira (entre outros) no crescimento das exportações durante 2013 poderia estragar a novíssima narrativa. Interesse apenas há para rapidamente evocar os excelentes números globais apresentando-os como estrela cujo brilho é atribuível à política atual.

Infelizmente, não vejo aqui nenhuma transformação estrutural da economia nem acréscimo de sustentabilidade do Estado demonstrada por esta execução orçamental. E se antes, com outro governo não tinha pudor em o sublinhar, muito menos o tenho agora, por mais “inadequado” seja num tempo onde dourar a talha voltou a ser um desígnio nacional para um suposto mercado ver.

Vejo um conjunto de ideias insanas, patrocinadas (em parte) pela troika e exacerbadas por este governo. Vejo também muitas medidas desesperadas que só a custo conseguem fazer cumprir, com artimanhas, um objetivo do défice que foi renegociado várias vezes, fracasso, após fracasso.

Quanto ao Estado, do que vou conhecendo, está de facto a ser destruído na sua capacidade de dar resposta a muitas das suas funções, da saúde à formação, passando pela regulação e segurança. E este governo e outros que se lhe sigam na mesma linha arranjarão “coragem” para constatar a ruina culpando os que ainda resistam no Estado pela própria impossibilidade operacional em que esses mesmos governantes os foram colocando.

Não vejo ganhos de eficiência, vejo apenas destruição de produção. Piores serviços públicos que penalizam em particular quem mais depende do apoio da comunidade, um contingente que não para de aumentar ao sabor do aumento da desigualdade e da pobreza.
Vejo muitos dos melhores a saírem do Estado para não mais regressarem, num processo de progressiva degradação da própria capacidade técnica disponível.

E vejo também um já longo processo de destruição de emprego, vejo quem procura 1º emprego a ter ainda hoje mais dificuldades do que tinha há um ano (apesar dos programas que bem tentam ocupar ainda que temporáriamente alguns milhares), vejo o desemprego de longa duração a aumentar, sempre, vejo uma parte muito expressiva dos empregos que se criam a serem cada vez mais precários e mal pagos. Vejo o número dos desencorajados que já nem procuram emprego a aumentar.
Vejo mais de uma centena de milhar a fugir do país por ano, uns porque não se empregam outros porque, tendo emprego, se sentem mal amados por um governo que os elegeu como alvo preferencial. Um número bem acima do que seria desejável e retirando-nos capacidade de reação no futuro.
Vejo tudo tão avassalador que não consigo ter simpatia nenhuma por quem, perante estes dados do défice público, anda por aí com ar de gozo a fazer chacota à conta do “cumprimento” do objetivo. Só se cobrem de ignorância ou de desonestidade e apostam que ambas abundem entre quem elege. E vocês, caros amigos, querem fazer parte deste grupo, de certeza?

Hoje estamos melhor preparados do que há um, dois ou três anos para enfrentar a próxima tempestade? Não. Estamos muito pior. Mais fragilizados, totalmente dependentes, com menos recursos, com mais dívida e com muito menos capital de todos os tipos, do humano ao político.
Os indicadores económicos onde melhorámos (penso em alguns menos populares, mais para entendidos) de pouco ou nada valerão em caso de aperto, precisamente porque a enorme canga não tem como deixar de aumentar e muito menos como diminuir significativamente num horizonte temporar economicamente compreensível e humanamente aceitável.

Infelizmente, a dimensão do que se destruiu, do que se comprometeu não permitirá que uma fase ascendente do ciclo económico que se espera ainda persista em 2014 pela Europa e, desejavelmente por cá, seja suficiente para estruturar e dar resistência à nossa economia e maior coesão à nossa comunidade crescentemente polarizada entre uma minoria de abastados e uma maioria de enrascados.
Continuando enredados na dívida insustentável ou, na melhor das hipótese, completamente castradora de qualquer intervenção ou reação razoável e adequada à realidade nacional, numa Europa tolhida e incapaz de equilibrar o compromisso comum com a solidariedade e entreajuda efetiva, sem moralismos nem assomos de superioridades nefastas, e continuando a ser guiados por protagonistas que insistem, ainda hoje, em fazer gala em exceder o que de mais inapto nos é proposto, não tenho como estar otimista e muito menos eufórico com um défice completamente mistificado.
Mas não estou derrotado, meus amigos. Cuido é de canalizar as minhas energias para manter um diagnóstico atualizado e honesto. Cuido de pensar no futuro numa perspetiva que não se extingue num ciclo político ou sequer num ciclo económico. Cuido de procurar soluções que nos permitam ir mesmo para além da troika, da austeridade excessiva e cega e da iniquidade banalizada e consentida.

Publicado originalmente no 365 Forte.

Opinião: Para quê este teatro?

Expliquem-me lá qual é o cabimento, o sentido, a utilidade de se convidar o maior partido da oposição para “o tentar chamar à razão” perante os belos resultados da política implementada ao longo dos últimos anos?

Depois de meses a menosprezar o PS e a impôr, com particular afinco, um programa de austeridade powered by Gaspar, que culiminou com o PS a apresentar uma moção de censura ao governo, o que é que hoje foi apresentado para emendar a mão e encontrar alguma forma de refazer um caminho com um mínimo de consenso? Segundo o PS, nada.

Para este teatro, de facto, dispensavam-nos o espetáculo.

Também publicado no 365 Forte.

Diagnósticos há muitos: eis mais um.

“(…) Sem cuidar de julgar com particular detalhe a bondade das premissas creio serem estas algumas notas fundamentais da conjuntura política que temos de encarar para perceber a história recente, os bloqueios, os desafios e os caminhos do futuro do arranjo político e da governação em Portugal. (…) O PS (…) A governação (…)” em 8 pontos no 365 forte: “E amanhã? Notas soltas sobre o diagnóstico político“.

Opinião: Taxa de pobreza antes e depois da transferência

Imagine dois países exatamente iguais com o mesmo PIB, desigualdade de distribuição de rendimento e taxa de pobreza. Agora imagine que em ambos há transferências sociais mas num deles estas são o dobro das que existem no outro.

Feitas as transferências e reapurando-se a taxa de pobreza, descobre-se que, no país onde há mais transferências, a taxa de pobreza desceu mais. No final, vem um político do país com as transferências menos generosas e diz que o seu Estado Social é menos eficaz pois, após as transferências, conseguiu reduzir menos a pobreza. Conclui assim que é preciso reformar o Estado Social talvez mesmo acabar com ele tal é a manifesta ineficácia do dito.

Creio que fica claro para o leitor que estas conclusões do político são um disparate pegado, afinal talvez o problema seja tão singelamente não haver uma redistribuição dos rendimentos tão significativa ou, de facto, haver problemas de afetação das transferências ou… um pouco de ambas. Certezas, com este tipo de dados, é que ele não pode ter.

 Em Portugal, mesmo com mais variáveis em cima da mesa (aquela história dos dois países iguais não existe, como se sabe) temos um Primeiro-Ministro que conclui disparates destes e vai mais além.

Triste sina.

 A ler: “Da série “A Fenomenologia do Ser”: Ignorância ou má-fé? [27]

Publicado originalmente no 365 Forte.