Adufe 5.0

As armas do meu adufe não têm signo nem fronteira
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As armas do meu Adufe,
não têm signo nem fronteira.

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Alguém que explique a Seguro a definição de carga fiscal

“Se a carga fiscal aumentar enquanto for primeiro-ministro demito-me”

ouvido ontem a António José Seguro (por memória)

 

Se Seguro não aumentar impostos mas o país entrar em recessão demite-se? Faz birra porque a economia não está a colaborar e outro que governe? Abandona o cargo quando mais preciso será ter rumo, sangue frio e estabilidade política? É que nesse caso – em recessão – a carga fiscal pode aumentar.

Será que conhece a definição de carga fiscal?

Vai a correr baixar impostos para cumprir a promessa de não subir a carga fiscal caso o PIB esteja a patinar mais depressa do que a recolha de impostos? Se sim de que despesa prescinde? E basta que a carga fiscal suba “um dia” durante o mandato para se demitir? Creio que é possível obter a carga fiscal oficial via INE com dois anos de desfasamento mas é possível estimar com mais frequência. Pode-se demitir logo ao final da primeira execução orçamental? Ou esta é daquelas promessas que como é dífícil de operacionalizar em tempo útil é só mais um chavão populista para competir com o Marinho e Pinto?

É impossível não imitar as ideias de António José Seguro

Em 2011, António José Seguro era radicalmente contra as primárias.

Em 2011, António José Seguro era radicalmente contra os debates públicos na disputa da liderança do PS. Impediu mesmo que dois deles (com Assis) feitos em Lisboa e Porto pudessem ser transmitidos fora das paredes partidárias.

Em 2011, António José Seguro era contra um pedido de fiscalização da constitucionalidade do Orçamento de Estado 2012 que acabou por ser imposto por um grupo de deputados do PS (no pleno exercício dos poderes e deveres que lhes são conferidos pelos seus representados nos termos da lei)  que em consciência acreditaram que não poderia pactuar com um Orçamento inconstitucional. O Tribunal Constitucional deu-lhes razão.

Hoje, António José Seguro é o campeão das primárias.

Hoje, António José Seguro teria feito muitos debates com António Costa mesmo antes de haver candidaturas oficializadas e acusa o seu contendor de coisas feias (que recuso reproduzir) por não se ter disponibilizado a ir além do que estabelece o regulamento das primárias – três debates televisionados em canais de emissão nacional.

Hoje, António José Seguro usa frequentemente as sucessivas declarações de inconstitucionalidade que o Tribunal Constitucional veio a confirmar relativas a normas dos vários orçamentos de estado (inclusive o de 2012) como legítimo argumento contra o governo.

É certo que continua a dizer que foi vítima de traição por parte de alguns deputados, é certo que se denigre (curiosa palavra) com os argumentos que hoje usa sobre opções que eram suas no passado e é certo que se converteu num campeão das primárias apenas depois de ter surgido um amplo movimento de apoio à interpretação política pós- europeias que lhe quer disputar a liderança, mas Seguro é, com tudo isto, cristalino quanto ao que podemos esperar dele enquanto Primeiro-Ministro. Muito golpe de asa, muita capacidade de reinvenção, total disponibilidade para ridicularizar rapida e inapelavelmente o seu EU passado.

E o bónus final é este: é praticamente impossível não imitar as ideias de António José Seguro.

Em certas circunstâncias, um adversário temível.

 

Reforma eleitoral de Seguro: do disparate à imitação por antecedência

De volta à política nacional e ao PS. Uma coisa é certa, António José Seguro evolui na sua opinião a uma velocidade estonteante. Ainda há dias defendia tonitroante do palanque que devíamos ter 180 círculos uninominais para 180 deputados querendo assim mostrar “coragem”. Ou terá sido antes uma prova de vida populista em pânico perante a oposição mais estruturada de António Costa? Afinal quem entre os descontentes recusa reduzir o número de deputados, “essa corja”? Basta ouvir o que decorre dos estudos de opinião de deteção dos eixos do populismo que engrossam fileiras Marinhistas. Seguro apareceu assim, lesto (depois de 3 anos de zigue-zague inicial e posterior silêncio prático sobre esta questão) ao propor uma redução de deputados de 230 para 180 e convivendo de forma aparentemente descontraída com a estupefação com que muitos (incluindo apoiantes seus) encararam o absurdo da proposta. Rapidamente muitos perceberam que seria impraticável e uma boa proposta para impedir que algum dia algo mudasse no sistema eleitoral de tão absurda a iniciativa…

Mas agora Seguro mudou de opinião, afinal, desta vez alguém se lhe antecipou sugerindo algo mais sensato e sublinhando que reduzir o número de deputados criando círculos uninominais onde só os votos no vencedor contarão e todos os restantes irão literalmente para o lixo fracamente contribuiria para que os eleitores se sentissem representados. No mínimo, tal proposta exigiria um circulo de compensação nacional para garantir um mínimo respeito pela proporcionalidade. Uma reciclagem de milhões de votos (não exagero) que com 180 círculos uninominais em 180 deputados iriam para o lixo. Se bem percebo, ao ler a entrevista dada ao Paulo Ferreira e ao Sergio Figueiredo hoje no Diário Económico agora Seguro toma como proposta sua a existência do tal círculo de compensação que, naturalmente, impedirá que haja 180 círculos uninominais para 180 deputados.

Esta evolução pode ter-se inspirado em vários imitadores de Seguro – ainda que imitadores que se lhe anteciparam, como já vai sendo a sua sina – e apesar da clara melhoria ou evolução agora publicada que se saúda, pensar melhor antes de falar era o que se precisava de um candidato a primeiro-ministro. Acontece que, felizmente, desde finais de maio de 2014 estamos mesmo em período de escolha do melhor candidato do PS para Primeiro-Ministro. Há uma alternativa que não sendo salvífica ou “mágica” – imito agora o vocabulário de Seguro na entrevista – bate aos pontos as propostas de Seguro precisamente nestes particulares que implicam uma articulação ponderada desse grande recurso nacional que tem sido tão parcamente aproveitado. Qual será?

Separar a política dos negócios: com suspeição todos temos telhados de vidro

2013: Candidato do PS à câmara de Cascais: João Cordeiro (histórico presidente da Associação Nacional de Farmácias e um dos mais visíveis e ativos dirigentes corporativos dos últimos 30 anos que, segundo a imprensa, foi imposto pela direção do partido, liderada por António José Seguro, como candidato autárquico às estruturas locais do PS).

2014: “É preciso afastar a política dos negócios” citando António José Seguro.

Há aqui qualquer coisa que não bate bem, em particular face à postura “pura” e acusatória que se tem visto. Este é um tema importante para o país mas não serve para lançar libelos diretos e indiretos a emporcalhar uma das candidaturas em presença na disputa interna do PS. Há objetivamente telhados de vidro por parte de quem se quer apresentar como acima de qualquer suspeita. Se é de suspeitas que vamos fazer a campanha, ninguém sairá ileso. E não é assim que vamos oferecer um contributo para a melhoria de salubridade na participação política.
Passamos adiante?

Porque me afastei progressivamente de Seguro

Afastei-me progressivamente de Seguro (ou por outras, acabou-se-me a paciência para lhe dar o benefício da dúvida) precisamente porque não lhe encontrei nem um fio de raciocínio (diferente do status quo) que nos pudesse guiar pelos conturbados tempos que ainda temos pela frente, nem uma compreensão do passado recente que me parecesse adequadamente ajustada à realidade. Imaginem portanto o que penso quando vejo esta aposta estratégica da sua campanha em que se apresenta como o tipo que quer discutir ideias. O sensação de ridículo impera. Mas a tragédia é que provavelmente esta lacuna de substrato não é reconhecida, provavelmente pensará (pensarão) que conseguiram mesmo uma grande coisa ao nível das propostas e que são os justos defensores da verdade passada onde tantos são reduzidos exclusivamente à condição de culpados, traidores e, objetivamente, inimigos a abater. Não restem dúvidas, os inimigos para quem se entrincheira desta forma, estão dentro do partido e são eles próprios, de si mesmos.
Juntando a isto a superioridade moral, a antinomia campo-cidade, rurais-urbanos, genuínos-falsos, simples-cultos, fieis-infieis, altruistas-egoistas, esforçados-oportunistas, vítimas-agressores, só me obriga a constatar que haverá um estreitíssimo caminho para a paz no PS num dia seguinte. O PS não pode repetir esta argumentação separatista que nada, mas mesmo nada, tem a ver com a discussão de ideias como qualquer cidadão dotado de juízo consegue compreender.
Estamos perante um supremo castigo que, este sim, dispensávamos: Seguro e a sua direção, em muitas das práticas que usam e na forma como dirigem e constroem a sua mensagem, são uma versão degradada e degradante do pior que este governo tem oferecido ao país. Tudo isto, mais que não houvesse, bastaria para ter de apoiar determinadamente quem se lhe opõem com um módico de elevação. No caso, António Costa.

O que vale um líder?

Seguro foi, objetivamente, um líder medíocre. Esforçado, dedicado mas insuficiente em vários parâmetros que poderemos discutir se para alguém, passados estes três anos, ainda não forem evidentes. Muitos, uma clara maioria de militantes do PS, atrevo-me a dizer, perceberam isso. Um deles teve a ambição e coragem para se chegar à frente a apresentar-se dizendo: “Eu consigo fazer melhor e creio que é a vontade maioritária do partido que me seja dada a oportunidade de o demonstrar o quanto antes. Eu tenho melhores hipóteses e condições de ser primeiro-ministro.”  Não tendo sido um tontinho isolado, mas antes um protagonista de uma maioria de vontades, foi imediatamente apoiado e está a sê-lo por todo o país. Só não vê quem não quer ver. E esta é uma mensagem política poderosa.
O que um líder não medíocre e convicto da sua certeza teria feito de imediato era aceitar a clarificação democrática. Como aliás creio sempre ter sido feito na história do PS. E isto é o fundamental que está em causa. Qual é o melhor líder para o PS e qual o melhor líder que o PS tem para apresentar ao país.
Ignorar esta realidade política incontornável, enterrá-la por baixo de manigâncias e conversões a reformas contra as quais se definiu a própria direção atual do PS quando foi eleita, desvalorizar esta realidade enquanto aspeto crítico num partido que quer protagonizar a governação do país  é um absurdo político que não consigo entender. É, ironicamente, a prova definitiva de que António José Seguro não tinha, nem tem as melhores condições para continuar a ser SG do PS e muito menos para vir a ser primeiro-ministro do país. Esta é uma razão necessária e suficiente para se mudar de liderança. Política simples e cristalina.

Seguro: um Renzi Serôdio?

“(…) Seguro pode ainda tentar emular Matteo Renzi.”
João Cardoso Rosas em Questões Pessoais no Diário Económico

António Costa liberta o Renzi que há em Seguro, acabei de ler no artigo de João Cardoso Rosas no Diário Económico. Um Renzi tolhido por gente má como as cobras, sabotadores por todo o lado, durante 3 anos, mas agora é que é. Graças a Costa, tudo irá mudar…

Quando se transforma uma contrariedade, alguém que diverge, que se nos opõe na arena política interna, a própria governação anterior, do mesmo partido, na personificação de todo o mal e a fonte de todos os nossos problemas só há uma coisa a fazer: consultar ajuda especializada que nenhuma contra-argumentação política poderá valer.

Nada disto é novo nas batalhas políticas – a divergência, o antigo com o novo poder, o seu conflito e mediação, o que estava e o que quer estar… O que é novo é esta interpretação completamente unidirecional. Não valeria a pena tentar de facto mudar os termos (durante estes três anos)? Quem teria o poder de ditar essa agenda de reflexão interna? Mas para quê encetar uma discussão sobre o passado, digeri-lo e recicla-lo quando pudemos simplesmente chamar ao outro sabotador?

Houve uns arremedos de generosidade pelo meio, mas onde vi falha no momento seguinte não foi em quem é agora diabolizado. Ficamos contentes connosco, arranjamos um inimigo comum para unir as tropas e… perdemos qualquer hipótese de conseguir ter um partido competente para governar. Este é talvez o maior de todos os problemas, uma permanente perceção de ameaça de um inimigo que nunca se quis enfrentar evitando assim o próprio conflito com eventuais fragilidades do nosso pensamento, da nossa narrativa e das nossas capacidades.

Continuo a achar que, do que vejo, o PS só consegue (e consegue) ser um grande partido, com os recursos necessários para a tarefa que se avizinha, caso venha a ser governo, se os melhores de todas as fações conseguirem encontrar um termo de entendimento e colaboração. Não há assim tanta gente boa e boa gente na vida política com dedicação e competência para fazer bons governos… É um facto. Com Costa no poder será também assim, a tropa não será suficiente ainda que me pareça bem mais próxima do ideal, mas com a solução atual presa numa visão a roçar a paranoia, a autoindulgência e autocomiseração não vejo como. Que se mude e depressa para se voltar a tentar começar a conversar. Com outra liderança, naturalmente. Isto não vai lá com Renzis serôdios.

 

Algumas razões para mudar de direção e apoiar António Costa

Não estou alinhado em fações internas, sou militante recente apesar de observador atento e eleitor regular desde sempre. Tenho amigos que hoje representam várias fações. Neste quase ano e meio de militância participei ativamente no que me foi possível, dando o contributo que sabia e pude dar, inclusive em iniciativas lançadas pela a atual direção.
Sempre que pude, em privado e, com menos detalhe, em público, comentei o que me parecia bem, mal e inaceitável. Este mês cheguei à conclusão pessoal definitiva de que o trabalho global da direção do partido não me dava garantias de cumprir com o mínimos exigíveis naquilo que se avizinha uma governação extremamente complicada e não cumpria sequer, também, com a gestão política exigível de quem lidera a oposição. Os 80 compromissos disseram-me muito pelo desequilibrio das propostas e pelo vazio e/ou superficialidade com que se referia a algumas áreas críticas da governação. Das pessoas recrutadas poucas me pareceram superar valores internos próximos e distantes da direção. Para mim funcionou como um balde água fria.

Bem antes de saber das intenções de António Costa, até antes das eleições, fiz esse diagnóstico e comentei-o com quem consegui dentro do PS. Por exemplo com camarados e não militantes que participam no LIPP Movimentos Sociais, grupo em que venho participando ainda antes de ser militante e que me levou a aproximar ao PS.

A noite eleitoral, pelo resultado absolutamente supreendente do PS e pela própria gestão política da noite eleitoral foi a minha gota de água. Se hoje António Costa não se tivesse afirmado como disponível eu estaria humildemente a preparar-me para o que antecipava, provavelmente conseguiria mudar pouco, provavelmente a mistificação venceria, co msorte bons ministros até supririam a ausência de balizas políticas internas em algumas áreas setoriais, provavelmente tudo pareceria bombeiro mas eu, em particular, estaria suficientemente motivado para cumprir com o que acho seria o meu dever e direito de militante: zelar pelo que interpeto a cada momento ser o melhor para o país.

António Costa veio facilitar-me a tarefa e com facilidade me junto aos militantes que afirmam que esta é, face à ameaça e à oportunidade perdida pela atual direção, a hora certa, a última hora para se lutar por um melhor PS que se apresente às legislativas. António Costa pelas competências que lhe reconheço e pela capacidade que já lhe vi em superar obstáculos, em reunir competências e pela avaliação que acredito os portugueses fazerem da sua carreira e da sua capacidade para governar está hoje melhor posicionado do que qualquer outro militante para garantir um melhor futuro imediato para o PS e uma melhor representação num governo dos interesses dos portugueses que se revêem no PS.
E é isto, pouco mais tenho a dizer. Interessam-me pouco as manchas passadas, as guerrilhas mais ou menos abjetas havidas que on the record e off the record me chegam aos ouvidos, de parte a parte. Nalguns caso, pude refutar as críticas (apenas naqueles em que vi com os meus próprios olhos provando o seu contrário – como seja a acusação de deslealdade- via foi generosidade que não pensava possível num grande partido…) noutros não tenho como avaliar nem devo fazê-lo confiando que em várias décadas de vida política haja pecados de parte a parte.
Esta direção foi esforçada, teve alguns bons momentos, nem tudo o que fez foi mal feito, deu provas de como ganhar eleições autarquicas num parte do país mas não chega, faltou-lhe o rasgo, a audácia e a capacidade de reação atempada demasiadas vezes. Sobraram-lhe inimigos reais mas exacerbados que tantas vezes lhes tolheram e surviram de desculpa para as suas fragilidades. E hoje, por estes dias, ao insistir em negar as evidências, ou recusar encarar com humildade e realismo o que os eleitores ditaram nas urnas, garante-me uma atitude que não quero ver no PS e que sei nada de bom trará neste mundo complicado para se assumir a política. Espero que a futura direção, se vier a conquistar o partido, tenha tudo isto bem presente. Creio que sim, por isso espero que uma maioria de militantes apoiem António Costa.

Seguro propõe uma versão de “Um país, dois sistemas” na Justiça? (revisto)

Do Facebook de António José Seguro (9FEV2014):

A justiça deve estar ao serviço das pessoas. Não há liberdade nem igualdade sem justiça.
Temos propostas: queremos a criação de um tribunal especializado que aprecie conflitos que envolvam investimento estrangeiro. É com maior celeridade e maior segurança na justiça que se pode assegurar maior captação de investimento estrangeiro.
Também o encerramento de tribunais é o oposto do que se pretende, está a atirar-se muitos portugueses para fora do sistema de justiça. O PS discorda deste encerramento e vai suscitar a apreciação desta medida.
Assumimos com os portugueses este compromisso: quando formos governo vamos abrir os tribunais que o actual governo encerrar, devem ser os juízes a deslocar-se.
Uma solução que não aumenta a despesa, mas aumenta o acesso à justiça.”

Ler em alternativa no Público: “Seguro propõe tribunal especial para investidores estrangeiros”

1º Momento:

A proposta de Seguro, lido pelas peças citadas, para ser a de defender tribunais especiais com via verde para investidores mas apenas se acumularem uma dupla condição: elevado montante e origem estrangeira. Há bancos com produtos promocionais para novos clientes, porque não pode o Estado fazer o mesmo com a Justiça face aos estrangeiros com dinheiro? Perguntarão alguns leitores. Sublinhemos bem aquilo que é proposto: seguindo a mais recente proposta do PS, patrocinada publicamente pelo seu atual Secretário-Geral, teremos uma justiça especial que irá mesmo funcionar de forma digna (rápida e segura) mas apenas e só se dedicada em exclusivo a estrangeiros grandes investidores.
O PS, alarga a um dos pilares fundamentais do Estado de Direito, a discriminação positiva para estrangeiros com dinheiro. Agora em letra de lei, de jure mesmo, a acrescer a tantas outras situações de dualidade de facto.
Aquele provérbio sobre as boas intenções é mesmo tramado quando se lhe junta uma dose considerável de “falta de noção” e de Nação para não ir mais longe.

2º Momento:

Dizem-me adicionalmente (quem ouviu em primeira mão) que, falando aos jornalistas, Seguro colocou a ênfase no investimento estrangeiro, mas reconhece que não pode distinguir entre “nacionais e estrangeiros”.

Em todo o caso, instituir como objetivo político a consagração de dois níveis de qualidade em algo como a Justiça não lembra a nenhum líder do PS merecedor do cargo. Na minha opinião, naturalmente. 
No fundo, em concreto, defende que se crie um sistema judicial dedicado a grandes montantes de investimento (visando particularmente os estrangeiros mas incluindo outros similares por manifesto constrangimento constitucional). Já no campo abstrato diz umas coisas vagas sobre ser necessário combater “interesses e corporações”. “Combate-se” criando um subsistema ao lado? É uma opção muito habitual em Portugal. Algo que devia ser uma exceção está tão enraizada como “solução” que justifica a proliferação de estruturas e do desperdício. Podia até não ser o caso, mas insere-se numa tradição preocupante.

Mas qual é o problema da Justiça em Portugal em relação aos investimentos? O problema é que afasta investimento estrangeiro, nacional, grande, médio e pequeno. Tenho imensas dificuldades em justificar decentemente que um político num Estado de Direito se oriente de forma tão enviesada para uma fração de um mesmo problema. 
O que se segue? Hospitais especiais para reformados estrangeiros, para estrangeiros com o visto dourado e para nacionais com imóveis que valham pelo menos meio milhão de euros para disfarçar a desigualdade de tratamento por via da nacionalidade?

Se é o máximo que Seguro se propõe fazer, ou, pelo menos, a primeira ideia concreta que tem sobre como enfrentar o problema da justiça e do investimento estrangeiro, estamos bem tramados. Já temos PINs e quejandos para estimular com discriminação positiva. Há imenso a fazer na desburocratização que este governo tem, aliás, ampliado em muitas áreas. Mas em áreas basilares da nossa democracia, como o acesso à Justiça, não consigo defender que a igualdade de acesso à qualidade e celeridade seja embutida no próprio desenho além daquilo que ele já tem hoje de jure e de facto.

Se Seguro acha que esta especialização (no fundo requalificação de juízes e mais recursos ?) é solução, então que especialize tudo para todos terem acesso a uma justiça melhor. Não venha é proclamar isoladamente (e nos termos em que o fez) uma aposta especial para um grupo muito singular. Qualquer pessoa que esteja a imaginar um investimento no país que fique abaixo do limiar a definir o que fica a pensar?

É o que eu digo, “Um país, dois sistemas”. No mínimo surpreendente vindo do líder do Partido Socialista.

Opinião: Seguro e o PS: o plano A e os planos B

O plano A é conhecido. Partindo do pressuposto (correto) de que Portugal (e outros países com economias fragilizadas) não conseguem sair da atual crise de forma honrada sem outro tipo de disposição e auxílio dos seus parceiros europeus, o atual secretário geral do PS já enumerou um conjunto de metas que irá perseguir tanto na oposição como no governo e que passam por alterar significativamente as restrições externas e omissões de intervenção face à nossa economia.

Não vou discutir detalhadamente as medidas, concordo com muitas delas e considero algumas claramente tentativas, pontos de partida e  nunca pontos de chegada que exigirão concertação europeia e cedências importantes se compararmos as metas aos resultados finais a obter. Tenho em mente quanto a isto, em particular, a ideia da mutualização da dívida pública acima dos 60% do PIB de cada país. Parece-me impossível de implementar do ponto de vista político ainda que desejável no contexto de quem acredita e defende uma integração europeia muito mais expressiva (confesso que já fui mais adepto desse voluntarismo do que hoje).

Em todo o caso, o sinal dado pelas propostas do PS em matéria de gestão orçamental partilhada na zona euro parecem-me clarificadoras e estimulantes para dinamizar a discussão política que está largamente por fazer (acreditam alguns que em banho-maria, a aguardar os resultados das eleições alemãs).

Entretanto, a acrescer a estas propostas já conhecidas, o PS vai pontuando algumas decisões do governo, comprometendo-se com a sua reversão. Já o foi declarado quanto à reforma administrativa que gerou a fusão de freguesias e hoje foi-o outra vez em relação ao corte das pensões. Não retive com rigor se a reversão prometida abrange apenas os efeitos retroativos dos cortes das pensões já em pagamento ou se seria generalizado a todos os cortes agora preconizados.

O PS tem-se oposto terminantemente ao reforço da austeridade por este ser manifestamente contraproducente no atual contexto económico local e internacional. Nesse sentido, esta proposta é coerente.

Contudo…

Contudo, o PS desde que começou a afirmar o caracter imprescindível da renegociação do apoio externo para sairmos da crise – que implicaria parar com a austeridade e algum relaxamento nos objetivos temporais de reequilibrio das finanças públicas – tem vindo, e bem, a ser confrontado pelos jornalistas e também pelo atual governo com a pergunta sobre o que fará o PS no caso das renegociações com os nossos parceiros, não resultar um cenário que permita acomodar, pelo menos na totalidade, esse novo enquadramento que o PS acha vital para a economia nacional voltar a crescer.

Creio que o PS tem dado uma não-resposta pelo que, aparentemente, responder nesses termos seria pactuar com a atual política e fragilizar a posição de força que o PS quer demonstrar junto dos nossos parceiros. Note-se que em nenhum momento o PS admite sair do euro ou deixar de honrar os nossos compromissos financeiros. Sublinho isto porque os graus de liberdade que o PS se auto-impõe (e que as circunstâncias estabelecem) são extremos, o caminho é muito estreito.

O que me leva a considerar que não está a ser dada a melhor resposta à pergunta que acima referi, que além de estar na mente de jornalistas e de adversários políticos creio estar também na mente de um número significativo de portugueses, eventualmente predispostos a apoiar o PS caso a resposta seja convincente.

Mas como pode o PS dar uma resposta convincente se a sua política estará dependente do sucesso de uma negociação que se adivinha difícil?

Esta pergunta ganha relevo sempre que o PS venha publicamente sublinhar que irá inutilizar logo tenha poder, medidas com impacto orçamental. Pode o PS prometer reverter medidas se não está certo de vir a conseguir a “folga” para o fazer? Não estará com isto a descredibilizar-se desde já junto dos eleitores que vão um pouco mais além do valor facial das promessas e prezam a sua memória política recente? Será esse risco consciente e o objetivo justifica os meios?

O pacote de propostas que o PS tem vindo a propor está estabilizado e, diria, é já conhecido por muitos. Logo, será tempo para o passo seguinte.

Por muito pouco convencional que possa parecer aos tarimbados da política, a resposta, parece-me, passa por um suplemento de sinceridade, de profundidade política e de coragem.

Sinceridade e franqueza para admitir que o PS estará preparado para um plano A e para um plano B. No fundo uma prova de maturidade e uma garantia de governo.

Profundidade porque ao admitir um plano B, onde eventuais insucessos negociais possam exigir tomar medidas amargas, o PS pode e deve detalhar o que o distingue políticamente em termos de opções, hierarquia de objetivos, prioridades.

Coragem porque abordar qual a política alternativa num cenário de austeridade (ainda que eventualmente mais moderada do que a atual), implicará, por muito bem explicada que seja (pelo racional de solidariedade, de eficência e de resultado global ao nível do bem estar da comunidade) que alguns ficarão desde logo a saber que a governação do PS dificilmente será do seu interesse, com as potenciais consequências eleitorais que tal possa ter.

Acreditando que haja a clarividência suficiente dentro do PS para perceber que estes são tempos anormais, que a credibilidade nos políticos tem mesmo de ser reconquistada e que uma tática à moda de Passos Coelho (mentir descaradamente em campanha enchendo a boca de verdade  para depois trair com total desplante na governação) não é aceitável e, a prazo, auto-destrutiva, há uma clarificação política que o PS ainda tem de fazer. Passa por criar a convicção no eleitorado de que governará melhor, de forma mais razoável e defensora dos interesses fundamentais que preocupam o cidadão comum, baseada em algo imune a qualquer cenário futuro.

Essa convicção a alimentar passa por o PS conseguir explicitar de forma clara que há sempre uma forma má e uma forma boa de gerir a coisa pública, haja défice ou excedente orçamental. Há sempre alternativas políticas antagónicas na decisão do que fazer com cada um dos euros do orçamento do Estado, algo que este governo tem tornado muito evidente, em particular para aqueles que apregoavam que a ideologia tinha morrido.

Tal como há consumo produtivo e consumo insustentável, haverá poupanças desejáveis e poupanças destruidoras de valor. E isso não depende de como correrá a negociação com a troika. O PS tem de conseguir convencer o eleitorado de que conseguirá gerir muito melhor o Estado português do que o atual governo, em todas as condições meteorológicas e em todos os sector de organização do Estado.

Para isso, terá de conseguir encontrar uma resposta clara e cristalina à pergunta chave que continua a ser, no fundo: em que é que o PS é diferente do PSD? Até que o consiga, em vez de evitar que se acredite que faria igual (como muito portugueses dizem pensar) estará apenas a consolidar essa  perceção. O silêncio ou a pouca clareza não é uma opção.

Pensando bem, dar essa resposta não devia ser uma tarefa muito complicada, pois não?

Publicado originalmente no 365 Forte.