Adufe 5.0

As armas do meu adufe não têm signo nem fronteira
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As armas do meu Adufe,
não têm signo nem fronteira.

Bem-vindo ao Adufe 5.0


Archive for the ‘Pessoal’


Recomeço

18 meses, testemunha privilegiada de alguns momentos históricos da nossa vida política, dois orçamentos, muito parlamento, muitas reuniões, muitas boas surpresas, vários preconceitos para o caixote do lixo (outros nem tanto), algumas ideias para melhorar o nosso futuro que ficam a amadurecer, um breve estágio energético, muitos amigos novos e algumas incursões adicionais pelas partes estranhas da natureza humana para completar a coleção recolhida ao longo dos últimos 41 anos.
Crescer um bocadinho, conhecer-me um pouco melhor também fizeram parte importante do pacote.
Saio do governo grato a quem me convidou e sempre em busca da felicidade que a vida é extremamente curta e valiosa para não manter sempre presente essa demanda no topo das prioridades.
Neste momento estou convencido que conseguirei servir mais o país aplicando melhor o que tenha de engenho e arte regressando à CMVM que está a tentar algo pouco visto pela forma sistemática, empenhada e estruturada como o procura fazer: reformar-se e melhorar!

Bem hajam a todos aqueles com que me cruzei de uma forma ou de outra desde o final de 2015. E continuem o bom trabalho!
We’ll meet again, certamente.

Rui Manuel Cerdeira Branco

Rui Manuel Cerdeira Branco: a versão completa.

Rui Manuel Cerdeira Branco

É uma honra e uma imensa responsabilidade.

Fiquem bem.

O que fazer no dia 29 de setembro?

O que fazer no dia 29 de setembro?
Hoje acho que o atual SG do PS dará um péssimo PM. No dia 29 de setembro de 2014 não vou ter uma opinião diferente. Convenci-me disso durante estes últimos cerca de dois anos, não é propriamente algo que mude num estalar de dedos ou numa noite eleitoral. Se a convição não fosse tão forte, talvez o dia seguinte me fosse mais simples mas no caso, pessoalmente, há pouco a fazer.
Se a maioria dos militantes e simpatizantes do PS escolher aquele que acho será um péssimo PM para o país para concorrer às legislativas pelo meu partido tenho duas opções. Aceitar democraticamente a escolha e respeitar os estatutos do PS ou não aceitar e ir à minha vida. Em todo o caso garanto que manterei os níveis de hipocrisia em valores compatíveis com o meu amor próprio, de que esta breve prosa é aliás uma pública promessa. É simples. Qual é o drama?
Até lá há uma campanha pelo melhor para o país e para o PS em que faço questão de me envolver. Tenham uma boa semana!

Basta o amor; o resto define-se a partir daí.

O momento alto do meu dia foi num velório. E não o digo sarcasticamente, foi mesmo. Que as piores razões nos revelem o que temos de melhor.
Não há justiça divina? Sinceramente interessa-me pouco. Que há justos e injustos, não tenho dúvida. E na minha grelha de navegação nem é preciso um padre maior ou uma promessa de eternidade para que haja lei. Basta o amor. O resto arranja-se, define-se, construindo a partir daí.

Da pureza

Conhecer uma nova pessoa e descobrir que concordamos em tudo só pode ser o início de uma bela amizade se estivermos certos de que amanhã estaremos em desacordo. É inevitável e é, sabendo-se, um sal precioso para nos conhecermos melhor.

É impressionante a quantidade de vezes em que me ocorre esta banalidade quando vejo malta a mudar de semblante perante uma divergência, quase como que tendo assistido a uma traição.

Em 25% vim daqui:

Em 25% vim daqui:

Foi órfão, criado pelos irmãos, analfabeto mas – dir-se-ia agora – empreendedor, na raia da beira, concelho de Penamacor. Depois de andar ao serviço dos mais velhos, de passar pelo que se passava na vida do campo, com a idade veio a vontade de emancipação. Uma pouca herança que de grande se dividiu por muitos. E um sonho, escapar à miséria, mostrar às gentes. Faltando o capital para reforçar o investimento catava-se minério, contrabandeava-se ou emigrava-se. Foi essencialmente um agricultor, homem que sabia dar valor ao seu torrão. Um típico homem da Beira cuja vida conheceu a tragédia de uma forma que não interessa aqui agora contar. Mas conto que não fez política, temeu a deus, quis que nenhum filho fosse analfabeto, ele, homem rude, com pouco tato, com inevitáveis tíques de se ter feito à força de si, percebeu que era fundamental estudar. Saber.
Apesar de não ser politizado, nunca entrou em bizarra contradição. Não simpatizava com o regime, do mesmo modo que não simpatizava com os vestígios feudais que imperavam, mas o regime em si era um lugar distante naquela terra perdida. O recuo ao passado raras vezes se fazia pela política mas quando acontecia surgia como uma época que era recordada mais vezes como um tempo que se vencera com ardil do que com qualquer vestígio de saudade. Nisso partilhava a recordação com todos os outros antigos conterrâneos que lhe conheci. Depois dos cravos haveriam de ser quase todos socialistas, de votar no partido do punho, muito apropriado para uma terra que balançava entre os vestígios do latifundio e uma cultura individualista da courela. Onde os pobres eram contratados à jorna, os ricos se afastavam progressivamente do que viam como um degredo e os remediados viviam numa corda bamba tão típica de quem depende da terra. Comunismo seria um excesso e esquecer o que era um senhor mandante tardaria.
O antes da revolução era recordado pelo que se tinha feito e revelado como um tempo onde a regra era que abrisse os olhos quem quisesse e que estudassem além do mínimo apenas quem pudesse. Mesmo que se quisesse, e poucos tinham a capacidade de perceber como era importante querer, era ainda preciso poder. E foi assim, numa formosa mas distante aldeia que, pelos sacrifícios que fez mais a sua mulher, pode. Criou três que foram até onde quiseram e querem. Faria hoje anos. 90.
Não lhe guardo um profundo afeto porque não era pessoa de grandes afeições… Hoje reconheço que sabia amar à sua maneira que, em rigor, é a única forma que se nos oferece, seja a quem for. Guardo-lhe a memória e a admiração. Deu sem dúvida um passo muito mais complicado do que qualquer um dos que lhe sucederam. Como um luxo recordo-o aqui, agora, assim, em horas que só poderia reprovar pois que quase cantam os galos a chamar para a jorna. Assim se foi fazendo Portugal. Viva o 25 de abril! Haja memória.

…bl-g- -x-st-

Não é nada fácil encontrar quem consiga pensar fora do padrão seja pela situação seja pela sua antítese. O vizinho João Pinto e Castro surpreendeu-me desde a primeira hora em que o comecei a ler aqui pelos blogues no bl-g- -x-st- , precisamente pela sagacidade e capacidade de nos interpelar para um outro olhar tantas vezes bem mais rico e informado do que é habitual encontrar na opinião e reflexão alheia.

Recentemente creio que vinha escrevendo do melhor que se podia encontrar em termos de opinião na imprensa, em particular quanto a reflexão de política económica e de política pura, digamos assim, na sua crónica mensal no Jornal de Negócios. Textos a revisitar e que creio manterão atualidade, oferecendo várias pistas que nos convidam a rever muitas das habituais posições.

Pessoalmente cruzei-me com o João Pinto e Castro apenas uma vez, pelo menos naquilo que pudemos chamar de tempo de qualidade, nos intervalos de uma conferência a que assistíamos e foi bom confirmar que a imagem que construí pelos textos resistiu a qualquer tipo de pose ou fachada. O estimado vizinho de blogues e temível provocador no twiter, desapareceu hoje. Vai sentir-se a falta da sua opinião, vai ser mais difícil fazer a crítica construtiva do mundo político (e do marketing) em que vivemos. Quem habitualmente segue um pensamento político mais à esquerda vai ficar a jogar com menos um.

Foram muito estimulantes a trocas de opinião que pude partilhar até muito recentemente no twitter, sobre estatística(s), publicidade, inquéritos de opinião, política, política económica e futebol.

E que o FC Porto ganhe a supertaça.

Saudações leoninas.

Opinião: Uma carta, a pretexto dos parabéns ao PS

 

 

Vote

Querido leitor,

Tenho 37 anos, sou filho de migrantes, nascido em Lisboa, criado entre o subúrbio sintrense e a raia de Espanha, lisboeta em permanência vai para 10 anos. A pretexto dos 40 anos do PS ocorreu-me discorrer sobre a minha memória da política que se confunde com o tempo de vida. E tu, caro leitor, onde estiveste nos últimos 40 anos?

As primeiras memórias que tenho da política construíram-se pela televisão, a campanha presidencial de 1980, a morte do Primeiro-Ministro, a eleição de Ramalho Eanes… E pela rua nos vários 25 de abril e festa associada. Recordo a história do 25 de abril contada pelo meu pai, beirão, ex-guardador de rebanhos, à data marinheiro de prevenção na capital, sem excessiva carga política ou entendimento de tramoias complicadas. Um genuíno e singelo amante da liberdade e da justiça.

Depois, veio a atenção aos debates na TV, Mário Soares, o fascínio pelo que era o entendimento e o desentendimento em política, a AD, o Bloco central, as várias pétalas da rosa socialista no PS, os senhores eternamente zangados do PCP, o táxi do CDS, a convulsão do PSD.

Recordo já melhor o turbilhão na segunda metade da década de 80: a era moderna da política lusa com a entrada na CEE, com o primeiro presidente civil, a primeira grande vitória política com que vibrei verdadeiramente no que uns 11 anos permitem. O fenómeno PRD, a ascensão de Cavaco e os “mestrados em política e jornalismo” com o nascimento da TSF. O desenvolvimento do sentido de justiça, em crescendo. O querer sempre defender os mais fracos, de preferência com a palavra. O soco dado e recebido, num extremo. O querer compreender, o gostar de matemática e chegar à economia começando a criticar a lógica monolítica da política económica cavaquista. Acompanhar a JS de Seguro, um tipo de uma família decente lá do concelho, à distância…

E mais instantâneos e reflexões, como o medo de perder a capacidade crítica com uma entrada precoce num “clube” político. A faculdade, uma maior participação política, a felicidade de fazer amigos politicamente muito diferentes e bons democratas. Caminhando sempre próximo do PS, em choque com a degradante praxis política nas juventudes em batalha pelas associações de estudantes. E a perceção do acerto na aposta de um afastamento consciente da política partidária organizada. A consciência de que vibraria demasiado com o “clubismo”; o Sporting a ensinar-me que precisava de mais defesas para não perder o norte. O respeito pela família com a necessidade de acabar o curso em 4 anos. As manifestações contra Cavaco, na rua. As visitas aos antiquários de São Bento sob patrocínio policial.

As várias camadas da política mediática, a política pelos jornais, do Independente ao Expresso mas sempre a minha amada rádio. A sensação de algumas oportunidades perdidas na gestão do país, a perceção de Guterres como a última grande oportunidade para fazer grandes coisas e depressa com a generosa boleia da CEE.  A dignidade, o diálogo, uma maior sinceridade e transparência na forma de fazer política. A importância da forma sobre o conteúdo. A admiração / desconfiança perante as agências de comunicação. A política espetáculo e o espetáculo da política. A surpresa civilizacional dos autóctones sobre sí próprios com a Expo 98. A vertigem para o vazio. A morte de Cunhal, a sucessão de Soares. Jorge Sampaio. Algures por aqui, começar a compor uma nova família. O cumprir serviço publico como trabalhador do Estado.

Foi também tempo de perceber a imensa dificuldade que há entre o querer e o fazer. A crescente dissonância entre o político, o povo e o interior do país. A sucessão de desiludidos da política da minha idade que foram mais para dentro do que eu e que se afastaram, à esquerda e à direita, co mraras exceções. Alguma desilusão com o PS, com o aquém de Guterres. Admiração por Ferro Rodrigues e pela capacidade de reinvenção do PS. O melhor e o pior do PS com o caso Casa Pia. A revolta perante tiques possessivos face ao país, às instituições e à democracia. A hipocrisia e o cinismo de Barroso, o que deu à sola. A degradação política dos meios e da prática de Santana Lopes. A esperança e o entusiamos com Sócrates.

O arranque reformador do PS com maioria absoluta. O político profissional. A constatação dos tiques dos pequenos poderes na administração do Estado com patrocínio partidário, sem grande diferença face ao governo do momento. Um mal social banalizado. A capacidade de reformar com nexo e concertação na Segurança Social e no Trabalho. A admiração por Vieira da Silva. O cutucar da vaca sagrada na educação, sem grande inteligência emocional. O ensino obrigatório até ao 12º ano, a boa ideia do Magalhães, a falta de procedimentos credíveis/estabilizados de sindicância de investimentos. A realpolitik à moda lusa. A capacidade de renovar, de cativar novos quadros para o exercício do poder. O plano tecnológico, as renováveis, o simplex, a lei em português claro, a e-governo com alguns excessos de velocidade, a coragem de assumir que era preciso mudar nos direitos cívicos, nas liberdades individuais.

O excesso de imagem, os sinais de obstinação, a incapacidade de compreender as ameaças latentes. A necessidade imperiosa de termos um governo melhor do que o país. A infantilização do eleitor. Não perceber onde ficou a defesa do interesse nacional perante opções simbólicas eleitoralistas. O encurralamento autoinduzido numa realidade virtual, a sucessão de mentiras, a excessiva pressão política sobre serviços públicos independentes, o fracasso político e orçamental em 2010. Mas também a traição vinda da Europa.

O MEP e finalmente a militância. Fazer duas campanhas na estrada, em dedicação exclusiva. Construir uma alternativa de raiz. A perceção de que não há ameaça bastante para motivar a renovação e a aproximação aos interesses de muitos portugueses dentro dos partidos acomodados. A descoberta de que há muitas pessoas competentes e politicamente mobilizáveis para a causa pública ativa dentro de estratos pouco comuns (jovens adultos com família, vida estabelecida e sem experiência política ativa anterior). O corte com o MEP às mãos da fábula da escorpião.

A pesada herança emocional de Sócrates. A fraca crítica interna com reflexo externo claro do passado recente. O ciclo de vida política de Seguro, o falso-lento. A pouca densidade política de Seguro em virtude da reduzida afirmação política prévia em matérias de políticas de Estado mas também a convicção da honestidade e do genuíno interesse na defesa da causa pública. As dúvidas quanto à capacidade de evitar um permanente ambiente de guerrilha e acerto de contas interno. O perigo de um racalcamento mas trabalhado. E depois a redução da perceção da ameaça e a concentração no essencial. O apelo à participação. O aceitar do desafio. A compreensão da imensidão do desafio político do momento. A catástrofe governativa. A necessidade imperiosa de uma alternativa. A imensa desconfiança na política. Os fumos do final de regime. A militância no PS, sem reservas, por fim.

E, claro, a internet, pretexto para novas amizades, para a exposição egocêntrica e narcisista, para o desabafo, para o debate, para a política, para a aprendizagem, até para o amor.

Caro leitor, mal te conheço, serás pessimista-otimista, preguiçoso-trabalhador, ativista-comodista ou mesmo teimoso errante, sei que enquanto me leste fomos um único português. Tem de ser por aí…

Mando-te os meus parabéns, ao PS.

Ao dispor,

Rui

Também públicado no 365 Forte.

Um outro olhar sobre a China

“Sabes mãe, as coisas feitas na China são muito delicadas – dizia enquanto afagava uma bolsa cor-de-rosa ‘Made in China’ onde guardava preciosidades só dela e continuou – Se não temos muito cuidado estragam-se logo.”