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As Crónicas e os Contos

Como os ledos dos poemas

" (…) A pele desaparecera das mãos, dos braços, restava apenas uma ruína denunciada por manchas e crateras que foram proliferando como ervas daninhas. Na face e no pescoço, escondera-se nas suas próprias pregas e rugas, ou então criara a sua arte, moldando-se caprichosamente num rosto singular, em permanente mudança.

Era seguro que o seu tempo estava contado, sempre estivera, para quê pensar nisso? Porquê não pensar? Quando se encostava ali, na rua, ao mundo, era imortal. Não era imortal como o são as crianças ou os adolescentes, era imortal como são os que respondem à dificuldade com um olhar no espelho, procurando encontrar a chama que os faz arribar. O pânico da morte que tantas vezes o assaltara quando jovem, era afinal o pânico de estar vivo. Agora, se havia bem que prezava era essa herança que ainda tinha: viver gozando sem dano insuportável até à inexorável partida. (…)"

 in Blogolento – Slow Blog

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As Crónicas e os Contos

Pavlov para suburbanos II

" (…) Jorge acabaria o dia sentado no comboio de Sintra, paralisado, repetindo a viagem entre as duas estações terminais, olhando absorto para um automóvel tosco feito de vários maços de tabaco que lhe ocupava o colo. Finalmente, acordou daquele torpor já a noite ia alta. Saiu na estação certa e, mal pôs um pé na gare, ficou imediatamente encharcado. Uma chuva diluviana amassava aquele canto do país, relembrando-o que estava vivo. O frio da manhã desaparecera e o martelar contínuo da chuva sobre o corpo não era de todo desconfortável. Abrigou o melhor que pode o automóvel de tabaco debaixo da roupa e dirigiu-se ligeiro para o seu carro que deixara no estacionamento que servia a Estação. Precisava desesperadamente de beijar uma Susana. (…)"

in Blogolento 

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As Crónicas e os Contos

Pavlov para suburbanos

" (…) Há mais de meia hora que não fumava mas o que o roía não era tanto o tempo da viagem sem puder fumar, era a ansiedade potenciada pelo sentimento de claustrofobia que o ambiente de sardinha-em-lata iniciava e que a espera no túnel rematavam. Num acto reflexo, quando o comboio abrandou anunciando a paragem no meio do túnel, acotovelou quem foi preciso para colocar a sua face a menos de um palmo da saída mais próxima. (…)"

in Blogolento 

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As Crónicas e os Contos

Azucrinar a cabeça (act.)

Mais uma brincadeira disponível no Blogolento. São 1639 palavras (pouco mais de 9500 caracteres) numa outra variação em torno do mesmo cenário da brincadeira anterior com a variante de que a história desta vez não se desenrola exclusivamente no comboio/túnel da linha de Sintra.

Ainda pensei em dividir a história às postas, pondo a render cada uma das quatro partes, mas sinceramente não se justifica. O Blogolento é um slow blog, é para ser lido com tempo. Se continuar a produzir brincadeiras é possível que até arranje um ficheirito para download daqui a uns tempos com a colectânea para quem queira eventualmente imprimir a coisa e ler como deve ser. Para já é passar por lá e ler "Deixe a Susana, pela sua saúde! – Um conto com final emprestado".

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As Crónicas e os Contos

Diário: em Lisboa

I

Rumámos à Baixa já a noite se instalara. Tal como o dia, seguia amena.

O frenesim matinal, ruidoso, adicionado do atípico som coordenado das badaladas de todos os sinos da cidade, deu lugar à noite calma, com pouco trânsito e transeuntes.

Entre a saída de metro da Praça da Figueira e a Igreja de São Nicolau, cruzámo-nos por alguns casais isolados, quase todos italianos, nitidamente em turismo pela cidade, ora espreitando algum detalhe nas águas furtadas da baixa pombalina, ora namorando as montras da Rua Augusta.

Na Rua da Prata, junto da renovada Igreja de São Nicolau separámo-nos, cada um seguiu para o seu templo. Ela para uma luminosa e muito concorrida celebração católica – seguramente a mais concorrida missa do dia. Eu para uma cave apinhada de ácaros, livros, Cd’s e DVD’s que partilhavam o espaço com alguns esporádicos lisboetas, turistas e figuras públicas de aquém e além-mar.

II

No caminho para a “oração” dei por mim a procurar detalhes enquanto passava por alguns quarteirões da baixa, tentando adivinhar renovações, alterações arquitectónicas, justificações antigas para pormenores inexplicáveis aos olhos modernos. Tentei adivinhar pedaços da história dos últimos 250 anos da Baixa pombalina, como se hoje, neste 250º aniversário do terramoto, estivéssemos mais próximos do dia da reconstrução, como se toda a baixa recuperasse a novidade das obras recém inauguradas.

O cataclismo das milhares de mortes e da múltipla destruição que sofreu a cidade, bem como, a sua consciencialização mais viva, patrocinada pela comemoração colectiva em torno do sempre sedutor aniversário redondo do sistema decimal, desafia-me a olhar a cidade de uma outra forma. Eu sou um dos sobreviventes de Lisboa. Se assim for, esta cidade é um pouco mais minha do que era ontem? O que é ser-se lisboeta? O que é ser a capital de um país?

Ia eu efabulando respostas, enquanto caminhava lentamente sob a generosa iluminação da baixa, recentemente recuperada, quando uma curiosa dupla me interpela e se intromete… Que lugar nestas perguntas para a estranha dupla de polacos maltrapilhos que encontrei vendendo a história da sua má sorte de peregrinos de Fátima e de pé descalço, privados de documentos por uma mão leve, eternamente há apenas 5 dias na cidade, sem dinheiro para pagar abrigo?

III

Recordei que além de nomes das Ruas, algumas placas espalhadas pelo traçado rectilíneo e perpendicular da baixa criavam uma outra toponímia baseada em Divisões numeradas, algo familiar com o que sei ter sido feito então e depois no admirável novo mundo.

Eu, Beirão de pelo menos três gerações, sem memória para mais, nascido e não criado em Lisboa, não me encanto mais pela cidade do que pelo campo e, contudo, não preferiria outra condição que não esta, dividido entre aquilo com que uno os dias da minha vida.

IV

Termino a noite ao computador, entrando pelo novo dia, com mais livros e histórias para ler entre cá e lá, escapando, até poder, ao fim dos meus dias.

Lisboa, 1/2 de Novembro de 2005 

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As Crónicas e os Contos

Variação sobre "A noite, o que é?"* (act.)

As palavras estão lá, guardadas, catalogadas, a sua presença ocupa espaço, sente-se-lhes o peso. No entanto estão isoladas, desarticuladas, esperando em fileiras como peões. Serão palavras?
Dizem-se entre dois fôlegos mas não se distinguem do ritmo involuntário dos pulmões. É preciso escrevê-las ou ouvi-las. É então que a escrita, ou esta outra fala, se apresenta como única saída. Saída de uma noite negra, inexorável, feita de tempo mas sem memória. Uma noite que nos atrai como um sono sem sonho, da qual não se desperta, nem para morrer.

Há uma outra noite que disputa o nosso tempo, que seduz pelo enfeite das estrelas e pelo chilrear tímido dos primeiros pardais na madrugada. Não é possível evitar esta noite, não é possível esquecê-la, mas é possível não a descobrir.
Lá chegando têm sorte os que dela se enamoram como a lágrima pela chuva. Apenas nesta noite se esquece, apenas nesta noite se (re)vive. A noite que nos surpreende como um agasalho leve no fim do dia, que nos cuida dos olhos cansados, que nos embala rumo à madrugada com um aconchego maternal. Apenas na noite tudo pode ser novo, outra vez. O cheiro que nos transporta para outras noites de palavras ou silêncios; a voz que nunca ouvimos tão bela; a brisa fresca que ficou perdida no frenesim do dia.

Nem as palavras fazem da noite aquilo que ela não é, mas é também por elas que melhor erramos pelas noites que sonhamos.

.

* A noite, o que é? vai já no 54º capítulo, agora n’A Origem das Espécies. O Francisco que me perdoe esta variação. O que por lá escreve tem muito pouco a ver com este enunciado de banalidades, mas assim foi esta noite.

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As Crónicas e os Contos Brasil

Visto de cima sou quase careca

A propósito da neve no Brasil lembrei-me de uma peta (sei-o agora) que um brasileiro me pregou, quase me convencendo que o ponto mais alto do seu país não chegaria aos mil metros. Vive num Brasil pequeno esse camarada de terras baixas.
Graças ao bom pesquisador da internet descubro que há poucos meses o Brasil mudou a geografia percebida: “Satélite muda altura de ponto culminante do Brasil“. No caso do ponto mais alto – o Pico da Neblina – o próprio nome quase desculpa os erros de medição do passado.
Já por cá não haveria toponímia que nos apaziguasse; como seria (será) com a nossa Estrela ou com o nosso Pico? Vai um polígrafo pelo GPS? E se nem com a Torre o continente chegar aos 2000 metros?
Que país é este?

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As Crónicas e os Contos

Contradição capitalista

Ela quer que lhe tampas. Não uma, mas várias.
Dá-me todas as tampas que tens. Procura bem, sei que tens muitas escondidas no armário.
Surpreso, fecho a porta de correr que acabara de abrir. Ela insiste, vá, dá-me, eu não me importo.
Triste final terá esta história, penso cá para comigo mas cedo ao pedido. Ou quase…

A garrafa sem tampa não fica encolhida, expande-se, faz barulho, tomba, rebola pela mesa e cai no chão. As garrafas assim não me cabem no armário. Irão encher o ecoponto, falta-lhes o vácuo.
Quase lhe tiro a tampa das mãos. Quase, porque nunca lhe a dei de facto. Alguém muito carenciado neste mundo ficará sem um cheque dependente de tampas de garrafas. O mundo, por outro lado, ficará menos poluido. (Ficará?) Será um mundo melhor?

Estou perdido, que me dizem: dou as tampas, ou não?


Tampinhas
via Pé de Meia

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As Crónicas e os Contos

Memória de um sol de quase Verão em dia de chuva fugidia

A fotografia já estava tirada e o post imaginado: o adufe, de bicicleta, na clandestinidade. Entretanto �lvaro Cunhal morreu. Entretanto outra morte saiu à rua e levou também Eugénio de Andrade, fazendo-nos misturar ódios e paixões velhas com política e pedaços de poesia.

O adufe e seus tocadores, impressos a sol e sombra num pedaço da Beira Baixa.
Bicicleta.jpg

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Crónicas da Suiça – os coletes reflectores

Nas minhas andanças pela Suiça vi vários condutores (geralmente de veículos comerciais ligeiros e pesados) com o colete reflector vestido no banco do pendura…pois.
Seriam todos condutores portugueses em trânsito na Suiça? Desconfio que afinal a moda dos coletes no banco da frente não uma originalidade portuguesa mas antes uma simples importação do centro da Europa.
E esta hem?

Mais algum corrobora esta teoria?