Adufe 5.0

As armas do meu adufe não têm signo nem fronteira
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As armas do meu Adufe,
não têm signo nem fronteira.

Bem-vindo ao Adufe 5.0


Archive for the ‘As Crónicas e os Contos’


História do canário e demais fauna

Sim Canário mesmo, passarinho que canta de forma magnífica quando tem pela frente canarinha no ponto.
Como pode animalito tão minúsculo ser capaz de tanto volteio? Bem sei que não será ave dos tops do mundo animal, logo ao tão vizinho rouxinol pedirá meças, mas para quem se confinava ao suburbio, ouvir pela manhã aquele namoro sonoro vindo da gaiola próxima era um consolo. E de estimação foram ficando, ele malhado de castanho e preto com uma única pena branca na cauda, ela de tons amarelo-limão à moda das bolinhas fofas que vão habitando este mundo.
Tiveram prole em tão pequeno lar e foi uma alegria ver o ninho, o ovo e depois os pintos. Nasceu outro casal, genuína miniatura que viria a ter a sorte de se mudar para um semi-paraíso da passarada em casa de ornitólogo amador, uma sorte que os pais ainda partilhariam já perto do final da sua viagem.
Quem me dera ir mudando sempre para uma gaiola maior até não conseguir chegar ao fim do mundo.
Entretanto, enquanto andava por estes pensamentos, em Alvalade rugiu finalmente um Leão desaparecido.

A história de George Monk

Na TubarãoEsquilo há alguns blogues únicos que nos remetem para paragens físicas e metafísicas que costumam ser alheias à maioria da vizinhança. O Atlântico Expresso, escrito a quatro mãos entre Lisboa e Cabo Verde é talvez o mais simbólico desses blogues. Como exemplo esta crónica de Cabo Verde que nos leva de regresso à Segunda Guerra Mundial ao que de melhor há entre os homens; texto de Fernando Peixeiro. "Viajar 5.000 quilómetros para dizer obrigado" começa a assim:

"George Monk é um inglês de 90 anos, que serviu quando jovem na marinha britânica. Um dia o barco em que trabalhava foi atacado por um submarino alemão e desapareceu no Atlântico. O homem foi salvo por cabo-verdianos e agora, 66 anos depois, veio cá agradecer. Também me fascinou, este senhor! (…)"

Agarrados à morte

Escreveu cinco romances em três tempos. Primeiro dois. Depois outros dois e finalmente um. Entre a primeira linha e a última, a semente germinada do pinho, plantada em boa encosta beirã, não o ultrapassou em altura. Editados, publicados e bem vendidos, sobrou-lhe a amplitude do braço para pôr a estrela no cimo da sua árvore de natal bem aventurada.

Ontem, inundado de louvores, agraciado por admiradores e bajuladores, enquanto se esforçava por se humildar e manter firmemente algures entre o "nascer, com sorte viver e depois morrer", saiu-lhe ao caminho uma pergunta que rebolou lá por dentro, o suficiente para encontrar abrigo para reaflorar na serenidade das passadas solitárias rumo a casa com que conseguiu fechar o dia.

"Porque é que você, e tantos outros jovens escritores portugueses, se agarra tão firmemente à morte para desenrolar os seus sublimes romances?" 

Perguntinha a merecer um aforismo por resposta. Um remate de classe. Um sinal inequívoco de saber. Uma belíssima pergunta que era todo um programa. Fazia dele porta-voz da recem criada geração nova, detentor da chave de ouro que firmaria as décadas vindouras coladas à sua imagem e aos romances que viessem dele e de outros, desde que sempre agarrados à morte.

Porque raio deu ele então aquela resposta? A cada passada na calçava, com raiva, como se ele próprio estivesse no chão que pisava, fincava um pouco mais as pontas dos pés no gesto final de se elevar para o passo seguinte. Porquê uma resposta tão prosaica e sem chama? Porquê um desvio para o infinitamente mundano? Porquê aquela soberba insuportável?

"A morte é o último reduto da escrita perante a ostensiva tomada pelo inimigo de todos os restantes sentimentos e seus gatilhos, instrumentalizados, por exemplo, ao serviço do romance histórico, da literatura light e dos guiões das novelas televisivas."

Chegado a casa, atirou-se ao computador, fez-se personagem e matou-a logo ali, a meio da primeira página, esmagada por um ecoponto que se soltou do guindaste da recolha, incapaz de suster o imenso peso do papel para reciclar.

Todas as grandes viagens tem por destino a outra margem

Andava nisto há meses, mirrando de saudades do sonho que ali a levara.

Nem todos os viajantes encontram a felicidade.” Esta máxima que ouvira, acompanhada pelo bandoleon, reverberava-lhe na cabeça sempre que sentia o cheiro a maresia em cada final de tarde.  Um sonho que se fizera de milhares de quilómetros, dezenas de camas, meia dúzia de línguas e quatro mares. Fazer a estatística era também algo inteiramente novo na viagem. Mau sinal…

Navio na névoaTinha uma vaga ideia de no início se convencer: regressaria!

Mas regressaria à família? Regressaria ao país, à vida sem viagens? Retornaria à contemplação das várias matizes da nuvem de smog? Recolheria à serra? Porque haveria de regressar?

Olhou para as mãos maltratadas pela água das lides com que ganhava para pagar o quarto da pensão. Ali, no fim de tarde, expostas à maresia, as mãos cobriam-se de branco, uma brancura áspera de pele cortada e endurecia. Uma brancura impossível de esconder quando impulsivamente tentava refugiar uma mão na outra. Nesse gesto sentia dois tocos mal definidos espetando um no outro as duras limalhas de pele retorcida e morta que se elevavam sobre o que restava colado à carne. A minha pele. A minha casa de banho, os meus cremes de beleza, a minha banheira, os meus sais de banho de fabrico caseiro. A lembrança de andar enrodilhada nas minhas toalhas… Foram estas memórias que a acordaram para outro sonho, que lhe permitiram encontrar uma razão, a razão que faltava para que se atirasse ao porto e procurasse navio.

Lá longe, em casa, faltava-lhe um amor à espera que nunca tivera; aqui, na viagem, faltava-lhe já a vontade de resgatar os cenários onde nunca vivera. Sobrava-lhe a razão que acautelara ao fazer viajar consigo as chaves da sua casa; sempre aninhadas num pequeno bolso interior da variável bagagem de viagem.

Hoje mesmo zarparia pelo Atlântico para a última etapa rumo ao prazer da água quente perfumada com manjericos.

Nem todos os viajantes encontram a felicidade e nem todos viajam para a encontrar. Todos tentam chegar lá longe, à outra margem.

 

(Em memória de um grande português, para o que interessa anónimo, imigrante, que morreu hoje, vítima de cancro, a milhares de quilómetros de uma família que conquistou com amor, contra preconceitos e tradições, literalmente traído quando havia já decidido dar por finda a dura lavra e fazer-se ao porto para rumar definitivamente a casa.)

 

As mãos…

Os dedos…

Da palma à cota.

Dos nós à ponta das unhas.

Tudo terra sem fronteira;

Por propriedade areão grosso e limalhas.

Pele propriamente dita só por baixo dos punhos e adiante.

Não estava escrito

Um tipo cinzento entrevistava outro tipo cinzento a ver se lhe haveria de dar emprego.

Numa última pergunta, quando tudo havia corrido o mais cinzento possível e não se adivinhava bom porto para as intenções do entrevistado, o entrevistador visivelmente enfadado atirou:

    – Diz aqui [no currículo, na última linha] que gosta de ler. O que é que está a ler neste momento?

    – A História do beijo.

Surpresa! Os olhos brilharam, o entrevistador ajeitou-se melhor na cadeira e retomou a conversa com um "Ai sim, e então?". Nos minutos seguintes, sem que houvesse alteração no timbre monocórdico em que sempre decorrera a entrevista, falou-se cinzentamente do beijo. Contudo… Já não eram exactamente dois tipos cinzentos numa conversa enfadonha. O cinzentismo era agora esforçado em vez de mecânico.

Um dia depois o telefone tocou e o emprego foi oferecido. O sacana do entrevistado pediu mais dinheiro. Não estava escrito…

Belos a vida inteira

O preâmbulo:

Passo a vida profissional no meio da ditadura dos grandes números: por um lado a macroeconomia, por outro a estatística e os seus princípios basilares que se escudam em universos e amostras, acreditando que o resultado do trabalho nos leva tendencialmente à verdade. Por outras palavras, se bem perguntado, a verdade ser aquilo que os números nos dizem, é mais a regra do que a excepção. Ainda assim, convivemos no mundo da estatística com uma dúvida incontornável: ninguém pode ter a certeza absoluta de que a exepção não é, em determinado caso, a verdade procurada. Tentamos medir os limites da nossa incerteza errando muito menos do que acertando.

O pretexto:

Escreve a dada altura o vizinho Pedro Mexia, "(…) A beleza dura poucos anos. Não há quase nenhuma pessoa que seja bela uma vida inteira. E essa devastação progressiva do tempo sugere o fatal fascínio da beleza: a beleza é fascinante porque dura pouco. A beleza é fascinante porque é angustiante, porque está em contagem decrescente, porque (tal como todos nós) não anda no mundo muito tempo."

O texto do Pedro remete-me para os grandes números, para insignificância da excepção, para todo o peso da realidade apurada por somas e contagens. Todo um instrumental aplicável a qualquer objecto de estudo, mesmo ao primeiros passos de um ensaio sobre a beleza. Mas… Em vez de reter o fatalismo, fico pendurado no "quase", na excepção: "não há quase nenhuma pessoa que seja bela uma vida inteira".

O desafio:

Quem preenche as fileiras que justificam o quase?  Serão esses que nos salvam?
Quem é belo a vida inteira?

Esqueçamos num primeiro momento o que é a beleza (o debate formal em torno do conceito que dura há alguns anitos – medidos em anos de Plutão), exemplifiquemos com casos práticos: quem é belo a vida inteira? Até para perceber se o conceito tem como ingrediente com peso avassalador o apelo sexual.

Bom, mais que não seja o vizinho Pedro terá ao menos um nome na manga que lhe justifique o quase. Tenho para mim que não serão assim tão poucos, mas encontra-los entre pessoas reconhecíveis pelo imaginário colectivo talvez não seja trabalhar com uma amostra não enviezada. Talvez nesse universo seja mais difícil encontrar os que nos oferecem o "quase". Será que foi com base nesse universo-estrito que o Pedro apurou o seu corolário (que suponho pretender-se de aplicação geral)?

Termino com um exemplo e uma constação pessoal ainda que repleto de dúvidas.

Os avós, (será por serem aqueles que nunca conhecemos novos?) conseguem por vezes ser belos até ao fim.

P.S.: É curioso como a beleza também anda em discussão de uma outra (?) forma, por aqui (I, II, III e IV). 

Porque nada do que antes tiveram deixaram de ter

Estavam num cadeirão largo forrado com almofadas creme. Ele sentado, de fato azul, talvez de seda, impecavelmente engomado. Ela quase deitada, com a cabeça aninhada no ombro dele, embrulhada num xaile cor de pérola.

Olhavam a noite da cidade, com a vista que se tem dos telhados. A espaços ele sussurrava e ambos riam com igual discrição. Esperavam pelo acender e apagar das luzes dos vizinhos como antes esperaram os traços de luz a atravessar o firmamento.

Antes, no tempo em que ele não usava fatos e ela ainda não descobrira aquele ombro, quando a cidade não existia, a solidão oferecia-lhes palavras, melodias, sensibilidades. Era generosa. Uma dor boa que transformavam, cada um à sua maneira, em antecipação rosada.

Depois, quando ela finalmente descobriu o seu ombro, houve um tempo em que embruteceram para o mundo, desperdiçando-se por entre essências.

Hoje, neste momento, agora, estão de novo no terraço, encontrando magia nas luzes dos pirilampos da cidade. Ele está a esticar o braço… com cautela para não a acordar.
Apagou a fraca luz de presença. Que disse?…

Boa noite.

Apenas um gato

gato rotina.jpgA minha vida por um parágrafo.

Apenas um gato, na zona antiga de Penamacor.

Excertos para um auto-plágio futuro

Vivia cercado pela rotina.

De tempos em tempos, sem periodicidade certa, ia estrebuchando contra ela. Conseguia mesmo identificar nos arquivos primevos da sua memória momentos desses que poderiam ter sido tão aparentemente inócuos como passar a ir para a escola por um caminho diferente (algo que, pensando melhor, não tem nada de inócuo na idade de todas as inseguranças e curiosidades no mundo de um menino mimado) ou tão corriqueiros como mudar de penteado ou de modo de vestir. Sabia agora que o fizera, não para afirmar a personalidade ou para procurar identificar-se com alguma tribo mas, para cumprir uma outra eventual teoria que estudasse a batalha perene contra a rotina. Sem surpresa e com algum gozo, matutava neste instante que as teorias só se dão bem com fenómenos rotineiros.

Os anos passaram e hoje continuava a combater a rotina de forma não militante e não sistemática. Contentava-se com espasmos pouco exuberantes, apenas muito pontualmente cedia a pulsões românticas; devaneios pela estrada fora sem destino nenhum. Habitualmente preferia meter-se dentro de um livro, ou escrever no blogue, residência à qual alterava fundos, tipos de letra e nomes oficiais com bastante regularidade. Teria como arma fundamental na luta anti-rotina a cosmética, ou pelos menos, esta bastava-lhe na grande maioria dos acessos de angústia induzida pela rotina. Divertia-se. Rir contra rotina, atacando-a com ela própria!

A verdade é que era um ser pacífico, não suportaria viver sem rotina durante muito tempo. "Há poucos males absolutos e a rotina não é um deles", pensava quando imaginava os milhões de humanos anónimos supostamente ignorados pela História.

Contudo… Hoje pôs-se a matutar de novo na rotina, no seu excesso e, particularmente, na forma ironicamente rotineira, que escolhera para controlar aquela febre esporádica. Descobriu que se inspirara nos escapes das locomotivas que frequentara a caminho da Beira (Baixa) durante muitos anos, desde criança. Pelo meio de uma sucessão de pouca-terras ouvia-se de quando em quando um silvo gasoso, com marca singular, libertando-se de parte incerta.  Era este o seu programa anti-rotina: tinha como padroeiro um cavalo mecânico mas relinchante.

Aqui está ele agora, levantando um copo imaginário e brindando enquanto clama que relinchar é o seu remédio, isso e um ou outro coice acidental, “ e serei sempre assim, até ao ponto final”, promete numa tentativa de autoconvencimento.

Enquanto o néctar imaginário lhe escorre pela goela abaixo, remata: “Eis um simpático programa para que se possa dar o devido valor a um belo parágrafo”.

(em estéreo, em breve e com bonecos)