Adufe 5.0

As armas do meu adufe não têm signo nem fronteira
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As armas do meu Adufe,
não têm signo nem fronteira.

Bem-vindo ao Adufe 5.0


Archive for April, 2014


Da pureza

Conhecer uma nova pessoa e descobrir que concordamos em tudo só pode ser o início de uma bela amizade se estivermos certos de que amanhã estaremos em desacordo. É inevitável e é, sabendo-se, um sal precioso para nos conhecermos melhor.

É impressionante a quantidade de vezes em que me ocorre esta banalidade quando vejo malta a mudar de semblante perante uma divergência, quase como que tendo assistido a uma traição.

Nem a ética é para os tribunais, nem na política são todos corruptos

Saber gerir a justificada prioridade ao comportamento ético na política sem com isso deitar o menino fora com a água do banho.

Tenho visto pessoas que estimo a simplificarem de tal forma o discurso anticorrupção que se transformam em justiceiros linchadores.

E tenho visto pessoas que estimo muito a recusarem enfrentar a questão ética dentro dos partidos despachando a solução para os tribunais.

Em 25% vim daqui:

Em 25% vim daqui:

Foi órfão, criado pelos irmãos, analfabeto mas – dir-se-ia agora – empreendedor, na raia da beira, concelho de Penamacor. Depois de andar ao serviço dos mais velhos, de passar pelo que se passava na vida do campo, com a idade veio a vontade de emancipação. Uma pouca herança que de grande se dividiu por muitos. E um sonho, escapar à miséria, mostrar às gentes. Faltando o capital para reforçar o investimento catava-se minério, contrabandeava-se ou emigrava-se. Foi essencialmente um agricultor, homem que sabia dar valor ao seu torrão. Um típico homem da Beira cuja vida conheceu a tragédia de uma forma que não interessa aqui agora contar. Mas conto que não fez política, temeu a deus, quis que nenhum filho fosse analfabeto, ele, homem rude, com pouco tato, com inevitáveis tíques de se ter feito à força de si, percebeu que era fundamental estudar. Saber.
Apesar de não ser politizado, nunca entrou em bizarra contradição. Não simpatizava com o regime, do mesmo modo que não simpatizava com os vestígios feudais que imperavam, mas o regime em si era um lugar distante naquela terra perdida. O recuo ao passado raras vezes se fazia pela política mas quando acontecia surgia como uma época que era recordada mais vezes como um tempo que se vencera com ardil do que com qualquer vestígio de saudade. Nisso partilhava a recordação com todos os outros antigos conterrâneos que lhe conheci. Depois dos cravos haveriam de ser quase todos socialistas, de votar no partido do punho, muito apropriado para uma terra que balançava entre os vestígios do latifundio e uma cultura individualista da courela. Onde os pobres eram contratados à jorna, os ricos se afastavam progressivamente do que viam como um degredo e os remediados viviam numa corda bamba tão típica de quem depende da terra. Comunismo seria um excesso e esquecer o que era um senhor mandante tardaria.
O antes da revolução era recordado pelo que se tinha feito e revelado como um tempo onde a regra era que abrisse os olhos quem quisesse e que estudassem além do mínimo apenas quem pudesse. Mesmo que se quisesse, e poucos tinham a capacidade de perceber como era importante querer, era ainda preciso poder. E foi assim, numa formosa mas distante aldeia que, pelos sacrifícios que fez mais a sua mulher, pode. Criou três que foram até onde quiseram e querem. Faria hoje anos. 90.
Não lhe guardo um profundo afeto porque não era pessoa de grandes afeições… Hoje reconheço que sabia amar à sua maneira que, em rigor, é a única forma que se nos oferece, seja a quem for. Guardo-lhe a memória e a admiração. Deu sem dúvida um passo muito mais complicado do que qualquer um dos que lhe sucederam. Como um luxo recordo-o aqui, agora, assim, em horas que só poderia reprovar pois que quase cantam os galos a chamar para a jorna. Assim se foi fazendo Portugal. Viva o 25 de abril! Haja memória.

Sai muito caro ficar apenas a resmungar

Ontem fui à minha 1ª reunião de militantes na secção a que pertenço – assembleia geral de militantes – que contou com a presença de dois convidados, o presidente da concelhia Duarte Cordeiro e um dos membros do órgão máximo do PS (secretariado nacional) responsável pela Economia – Eurico Dias. Pela terceira vez desde que me fiz militante há cerca de um ano fiquei positivamente surpreendido com a franqueza, disponibilidade e cultura política com que se realizou o debate que versou de forma genérica sobre a atual situação política e económica do país e da Europa, abordando também o papel presente e futuro do PS. Do que me é possível conhecer da realidade, do mais terra a terra ao mais intelectual, naquela reunião foi evidente que o PS ainda consegue ter no seu seio quem seja capaz de transmitir os anseios e preocupações populares mas também revela ter recursos e disponibilidade dos cidadãos que insistem em ser militantes nesta época de diabolização persistente da participação política.
A consciência das dificuldades é plena, a consciência de que o que une é muito mais do que separa politicamente as várias sensibilidades representadas no PS é clara. Creio que todos sairam da reunião mais esclarecidos, melhor preparados para ajudar a comunidade e atuar politicamente desde logo na próxima campanha eleitoral. Iniciar uma reunião às 21 horas e terminá-la já depois da 1 da manhã a meio de uma semana de trabalho por pura dedicação à causa pública onde o fundamental da noite se passou a identificar barreiras, dificuldades, a discutir prioridades e a perspetivar forma de resolver as provações e de atingir os objetivos é uma prova de vitalidade e de responsabilidade cívica. Para mim teria sido uma das notícias do dia ao nível do homem que mordeu o cão, tal a improbabilidade do evento para qualquer cidadão que apenas conheça o que se passa nos partidos do que vê num qualquer telejornal.
Parabéns aos organizadores, aos que estiveram presentes e… aos que hão-de estar quando perceberem que não é altura de ficar no sofá a dizer que são todos iguais ou que fulano ou sicrano  que lideram os partidos não lhes enche as medidas. Parabéns a esses que hão-de acabar por entrar nos partidos, conscientes de que sem participar ativamente à medida das disponibilidades de cada um, sem exercer cada competência e responsabilidade de que gozamos em democracia, não podemos esperar melhorar a gestão da coisa pública e garantir um melhor nível de bem estar.
Parabéns aos que votam mas também aos que perceberão que o voto de 4 em 4 anos não é bastante para uma pessoa se sentir um democrata e um cidadão pleno. E pelo que vejo, este não é um tempo em que queiramos partidos fragilizados, mas antes um tempo em que temos de reformar as competências, a vitalidade e a qualidade da participação política que compete aos partidos. Creio mesmo que serão anos críticos estes, sem paralelo nos últimos 30 anos.
Do cimo da minha cadeirinha, parece-me que não haverá melhor hora para que haja mais gente que se ponha a caminho. Sai literalmente muito caro ficar apenas a resmungar.

Sobre mim? O céu estrelado

Hoje “fui” pela primeira vez a uma assembleia geral de militantes. Bom convivio, tirando a parte de se terem esquecido de avisar que já não havia reunião. Porta fechada, tudo bagunçado no interior, luzes apagadas. Não fora um discreto cartaz dos tempos em que o PS quase perdeu o punho para só restar a rosa e nada garantiria que não estava perante uma ruína. Nem telefonema, nem email, nem uma alma a abrir a porta ou então a mandar circular que não se passava nada.
Ao fim de um tempo e depois de várias tentativas dos camaradas que se foram juntando, lá se conseguiu saber o que se passava (bendito telemóvel) e soube-se mais do que se queria. Que tinha havido uma emergência na capital, sim mas também que os militantes “certos” foram avisados da desconvocação. Sobraram os velhos, os muito velhos e os novos, muitos novos. O que é certo é que nunca esquecerei este batismo cheio de lições. De coisas que não vêm no telejornal e que só muito de passagem se adivinham na amargura de alguns militantes que habitualmente dizem coisas de dentes cerrados.
No final foi muito estimulante ouvir a memória do PS ali no meio da rua, na boca de quem tinha a minha idade há 40 anos e já militava. Tudo isto bem no centro de Marvila, entre as 21 e 22 horas. De certa forma cumpriu-se a ordem de trabalhos. #40anos25abril

Eu, liberal

Vamos lá chocar os meus amigos mais à esquerda. Confesso que sempre achei estranho o conceito de indemnização (compensações por cessação de contrato de trabalho) por despedimento (nos casos em que o despedimento é legal).
Vamos lá chocar os meus amigos mais à direita: choca-se o regime policial associado à atribuição do subsídio de desemprego. Acho que o subsídio de desemprego deveria ser um direito de quem foi despedido em sentido estrito. Se quisesse continuar a recebê-lo até ao seu fim sem ter de estar sob termo de identidade e residência ou aceitar emprego, deveria poder fazê-lo.

Ando a tentar sistematizar os efeitos da minha costela liberal sobre o meu raciocínio político. E de facto, não, não se resume a ser completamente contra a instauração do voto obrigatório. De certa forma, o que escrevi ali em cima tem exatamente a mesma raiz.

O que este país precisa é de um Asterix em cada esquina

Poucas coisas nos mobilizam mais do que malhar noutros portugueses. Pelamo-nos por um tipo articulado que saiba malhar no outro recorrendo a um leque variado de lugares comuns. Podem até ser só provérbios populares.

Queixamo-nos dos alemães, do seu moralismo excessivo, dos seus telhados de vidros, mas o que é certo é que sem eco por cá, sem cultores da reciprocidade da culpa, a “culpa” que nos é vendida como um absoluto local, a coisa não colava. Temos paletes de malta superior por cá, provavelmente em processo de concentração por centrifugação dos que zarpam para a diáspora.

Duvida? É ver quem mais mobiliza a opinião pública e ao que recorre para o fazer. Insidiosamente tudo se simplifica e culpabiliza com recurso a bonitos estereótipos, preconceitos e bodes expiatórios. Os políticos são o alvo preferencial, mas sobra para todos. Quando lemos sentimo-nos superiores identificamo-nos com o crítico, elevamo-nos sobre o criticado para logo no texto seguinte sermos nós – pelos nossos hábitos e maneiras – as vítimas. Tragicamente somos portugueses. Será que conseguimos perceber isso? Pensar dá trabalho, já embarcar na turba que quer enforcar é só gozo. Poucos querem ser deputados do Xerife.

E assim se vai instalando a lei da selva. Viva Asterix!