Façam soar no ar chicotes

Se tivermos sorte, os vivos de que gostamos, sendo quantos bastem, morrem muito espaçadamente e mais ou menos pela ordem natural.
Aos poucos, vamos tendo oportunidade de sofrer, em doses suportáveis e vamos podendo enfrentar os nossos fantasmas.
Ter um filho, que será para os mais desprevenidos a aparente antitese destas melancolias, pode ser uma lembrança bem mais quotidiana da nossa finitude.
Vem depois a vantagem que também nos estará inscrita em algum lado: está também ali um bocadinho de mim, como estava já naquela calva que herdei do meu avô ou naquela experimentação do paraíso numa qualquer quelha ladeada por flores de sabugueiro.
Pensando por estes trilhos, de vez em quando, vem uma trégua de paz, uma torrente de humildade em que, perante a percepção da partilha imemorável, o nosso umbigo desaparece, armado aos paradoxos.
Segue-se então o travesseiro e esse fiel amigo tão depressa nos leva ao fofo algodão do equilíbrio quanto nos abre de novo ao suor frio do relógio, às vezes sob pretexto de um telefonema aziago a meio da noite, outras sob o pretexto de um choro carente e assustado pelo pesadelo que vem do quarto de um nosso filho. Solidários, voltamos aos fantasmas e voltamos a procurar o trilho.
Será assim com os heathens e também com muitos outros.
Resta-nos um beijo e um abraço, coisas singelas a que voltamos por menos singelos que nos tenhamos. Pelo menos de quando em vez e particularmente nestas horas, amiga.

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