A ler: Literacia científica em Portugal

Depois da discussão havida na caixa dos comentários deste post “euLer(2)” o João deu-se ao trabalho (aqui, aqui e aqui) de fazer umas contas com os dados a que teve acesso relativos PISA 2006 sobre literacia.
As conclusões parecem-me claras:

“O sistema de ensino português produz alunos que estão ao nível dos melhores do mundo; o problema persistente — e ímpar — é a incapacidade do sistema em responder às necessidades dos menos capazes.”

O João fala ainda de um encantamento que não considero necessariamente nefasto ao dizer:

“Num país onde se tem debatido exaustivamente as problemáticas da desigualdade, é de estranhar que a maioria das pessoas se deixe encantar pelo discurso do “facilitismo” e se esqueça que o nosso sistema de ensino, ao ser excessivamente selectivo, está a induzir desigualdades no acesso ao conhecimento que se manifestarão, mais cedo ou mais tarde, de todas as outras formas possíveis.”

Digo que não é nefasto porque não basta dizer-se que é nefasto por barrar o caminho para discutirmos outras coisas. Gostei do que li e só é pena que haja tão poucas ocasiões onde se vê quem sabe fazer as contas. Um a zero a favor da blogoesfera. Parabéns João.

E parabéns também ao Tonibler (ver primeiro comentário), é que acho que ele também tem razão. Restam-me poucas dúvidas que o poder político actual caiu na tentação (ou na esparrela, que não tenho os especialistas do MNE como santos – já têm alguns ministros no cadastro de abates) de dar uma mãozinha de modo a que “os números venham iguais aos OUTROS sistemas”. Não virão os de Pisa, provavelmente, mas o que é Pisa ao pé das notas dos exames que os filhos dos eleitores levam para casa? A tentação para várias formas de facilistismo, assim como a discussão em torno das exigências impostas pelas retenções de alunos e/ou pela sua abolição, são fantasmas que neste país convém mesmo ir militantemente agitado, caso contrário, corremos o risco de ficar com o pior de dois sistemas como dizia nesta outra caixa de comentários.

As duas teses, do João e do Tonibler, não são incompatíveis, é prudente considerar os alertas de ambas.

1 thought on “A ler: Literacia científica em Portugal

  1. Carlos Albuquerque

    Quando sairem os resultados este ano será possível avaliar se esta “impressão” de facilitismo corresponderá apenas a uma melhoria geral do nível dos alunos ou também a uma menor capacidade do exame para discriminar os alunos com notas mais elevadas.

    Quanto ao que fazem os nórdicos, recordo-me de ouvir um finlandês explicar que estavam atentos aos primeiros sinais de problemas dos alunos e investiam aí na recuperação imediata (antes de se acumularem problemas cada vez mais complicados). Mas na Finlândia a profissão de professor é altamente concorrida e prestigiada.

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