Relativizando a Ota e não só

Para memória futura guardo o artigo de ontem de Luísa Bessa no Jornal de Negócios.

" (…) O Governo, que tanto gosta de projectos mobilizadores – no que não é diferente da generalidade dos governos, há que reconhecer – tinha outros desafios à disposição. Menos vistosos mas mais eficazes (…)"

 

Luísa Bessa

Mudar de rumo

lbessa@mediafin.pt

Abriu a época dos projectos mobilizadores. A semana, que começou com a Ota, prossegue hoje com a divulgação do Plano Tecnológico. O Governo, que tanto gosta de projectos mobilizadores – no que não é diferente da generalidade dos governos, há que reconhecer – tinha outros desafios à disposição. Menos vistosos mas mais eficazes.

Um deles seria enfrentar os atrasos de pagamento do Estado ao sector privado, que colocam Portugal em má posição em qualquer exercício de «benchmarking». O problema já teve direito a propostas de solução nos orçamentos rectificativos, mas as propostas passam e a realidade mantém-se. Os verdadeiros números não são conhecidos mas há alguns indicadores. As dívidas às empresas de construção rondam os 500 milhões de euros e uma grande parte delas é proveniente das autarquias que, como se pode ler na notícia do jornalista Rui Neves, na página 17, apresentam prazos médios de pagamento superiores a seis meses e isto apesar de já terem atingido em Setembro o nível de endividamento previsto para o ano de 2005. Com as empresas a saberem que vão ser pagas com este tipo de prazos está bom de ver quanto cobram a mais no valor das empreitadas. As autarquias fazem o papel de más da fita mas não são as únicas. Vejam-se as dívidas crónicas do sector da saúde, que segundo os últimos dados da execução do orçamento, ultrapassavam os 700 milhões de euros.

Liquidar os atrasos de pagamento do Estado é uma questão de moralidade. Se o Estado não dá o exemplo, como pode exigir aos privados que o façam? E se o Governo quer puxar pela economia tem aí uma oportunidade de injectar liquidez no tecido empresarial.

Vivemos há anos neste ambiente de esquizofrenia. O Portugal moderno e dos grandes projectos coexiste com a pobreza envergonhada e com a incapacidade, após 20 anos de integração europeia, de resolver problemas básicos. Os eleitos preferem fazer obras de fachada e varrer o lixo para debaixo do tapete. É assim que alguns espaços urbanos reabilitados pelo Polis são banhados por águas impróprias para banho.

A mesma esquizofrenia que se encontra no debate político. Apesar da gravidade dos problemas do país, o que é verdadeiramente «sexy» são as presidenciais e, a esse nível, não é o debate de ideias mas as picardias entre os candidatos, que, sabendo do que a casa gasta, também contribuem. Soares com o recado da «ficha clínica» que Alegre encaixou. Alegre que acusa Sócrates que acusa Alegre que volta a acusar Sócrates de ter mentido a propósito de quem convidou quem para ser o candidato do PS. A obsessão de Soares por Cavaco e a obsessão de Cavaco por encontrar o lugar geométrico de encontro de todas as opiniões, que no limite tende para zero.

O título deste texto «cheira» a lema de campanha eleitoral. Qualquer partido o pode adoptar tal o seu carácter abrangente. A verdade é que, para além da retórica, Portugal precisa mesmo de mudar de rumo e quem diz Portugal diz cada um de nós.

A mensagem também se aplica aos candidatos presidenciais. Soares precisa de abandonar a campanha negativa concentrada em Cavaco. Em certo sentido, faz mais ele campanha «por» Cavaco do que o próprio. E Cavaco precisa de se comprometer, tomar posição a propósito de problemas sensíveis, mesmo que não se enquadrem no âmbito do mandato do Presidente da República. Sim, a Ota precisa de uma análise custo-benefício. Seria pedir muito que fosse mais claro?