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Resposta ao António Duarte

Setembro 12, 2005 By: Rui Cerdeira Branco Category: INE

Para fechar a loja no assunto ‘INE/PIB/Grande Loja’ fica em anexo a minha resposta a este último post do António Duarte.

Quanto à tua primeira parte do post sinceramente não sei se é para rir ou para chorar: quando por aqui [Na Grande Loja] se pediu a intervenção da Polícia Judiciaria para investigar uma fuga de informação, quando se afirmou que o INE tinha divulgado dados às 15 horas (quando SEMPRE o fez) para dar um jeitinho ao primeiro-ministro que ia falar aos jornalista depois da implosão às 16, quando se dá cobro a afirmações como “Ou tivemos a maior multiplicação dos pães desde os tempos idos de Cristo, ou podemos estar perante a maior falsificação das nossas Contas Nacionais, desde que há memória.” sou eu que invento “a enorme teia de conspiração e cabala”?!?!?

Sinceramente não sei porque tomaste as dores destes posts de que aqui expus alguns excertos, pois de facto tu, António Duarte, não te terias de sentir responsável por eles. Uma vez que tomas as dores do que por aqui se fez, fico eu entendido.

Quanto ao resto do post:
Finalmente uma excelente pergunta que aliás já tive oportunidade de partilhar por telefone com o “Manuel” ainda antes de ter percebido o que por aqui ia em termos de delírio conspirativo, na passada sexta feira.

E se eu te disser que não tenho resposta mesmo hoje com a nova informação chegada entretanto? E se eu te disser que essa mesma pergunta foi devidamente considerada. Se te disser que se tentou por todos os meios humanamente possíveis e no tempo disponível (respeitando o calendário para que não nos acusassem de estar a protelar um mau ou bom número para o governo, por exemplo) encontrar uma justificação (voltando a contactar empresas para confirmar stocks, por exemplo) entre outros? Pedindo que se confirmassem níveis de importações? Tentando descortinar o que poderia estar a acontecer de anormal. E se eu te disser que feitos todos esses esforços, os números finais que tínhamos continuavam a resistir a todas as dúvidas e a ser parecidos com os que descreveste? Como tratar esta incoerência? Em que número acreditar mais?

Assumir que as importações estavam erradas? Se sim em quanto e com que base se até aqui os números das mesmas fontes se mostraram sempre razoáveis?

Poderão as vendas estar empoladas? Se sim porquê se até aqui estes números sempre se mostraram razoáveis?
Assumir que se tratou exclusivamente de uma redução da variação de existências? Onde é que havia existências suficientes para acomodar todo o consumo, como perguntas?

Naturalmente tomámos a decisão mais razoável perante as restantes indicações directas e indirectas existentes (e é curioso ver que após a divulgação outros economistas encontraram justificações plausíveis para o que se poderá ter passado). No final, os efeitos acabaram partilhados: uma parte do consumo foi a existências, outra a importações, outra a produção nacional que deu alguns sinais de recuperar no 2º trimestre.

Acredita se quiseres que esta mesma “incoerência” foi tida em conta no valor final divulgado. É com as incoerência patrocinadas pelas restrições de tempo e de recolha existentes (algumas delas irresolúveis em qualquer país do mundo, outras nem tanto) que temos de fazer o nosso trabalho e apresentar ao país o retrato mais fiel da economia a cada momento.

Naturalmente é muito mais estimulante acreditar em cabalas, julgar de cátedra e patrocinar com o selo da “verdade” todo o tipo de fel e disparate que alguém se divirta a verter. Como já aqui [Na Grande Loja] se disse noutros comentários, o que se faz no INE não é exactamente estimar o ciclo com base em dois ou três indicadores parcelares, o exercício tem um pouco mais de história (no duplo sentido) e tem sido por aí que temos conquistado credibilidade junto dos nossos pares em outros gabinetes de análise económica, pelo menos no que às contas nacionais trimestrais diz respeito. Tem sido por aí que temos conseguido enquadrar estas e outras “incoerências” que os números, sempre incompletos, sempre caprichosos, por vezes nos oferecem.

Dentro de menos de três meses, havendo recursos humanos para tal (e de momento não há) cá estaremos para, perante a informação actualizada e as eventuais incoerências da informação de então, mantermos a mesma linha e o mesmo trabalho, que é no fundo o nosso único garante de consciência e técnico face às criticas que ora sopram da esquerda ora sopram da direita a cada momento.

Uma última adenda dedicada ao Manuel:

Caro M,
O INE divulgou a informação, esteve [e está] 100% disponível para responder a perguntas técnicas sobre os dados apresentados, exercício que decorreu normalmente como sempre, como poderás constatar junto dos jornalistas da área económica ou dos membros do conselho superior de estatística. Se há coisa que o INE sempre teve nesta área da análise económica (pelo menos na última meia década) foi não desprezar a sua responsabilidade pedagógica ao nível da exploração dos dados estatísticos.

O INE ou qualquer outro INE do mundo não pode ter como regra andar a escrever oficialmente �notas pedagógicas� sobre interpretações políticas passadas, presentes ou futuras. Sinceramente não percebo o que é que reclamas do INE. O que é que o INE deveria ter feito e não fez?

Só para não ser mal interpretado: “a responsabilidade pedagógica ao nível da interpretação dos dados” do INE passa, por exemplo, por explicar a um jornalista a diferença entre uma variação em cadeia e uma variação homóloga, uma média e uma mediana, um comportamento cíclico/sazonal e a tendência ou ainda as diversas identidades das diferentes ópticas de contabilidade nacional, isto para referir alguns dos exemplos mais básicos.

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