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A aldeia que não cruza os braços

Dezembro 27, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: Portugal

O António Colaço alertou-me para a página 19 mas ontem era talvez o pior dia do ano para arranjar um Diário de Notícias no concelho de Castro Daire. Fica aqui a cópia descarada e uma nota adicional: o Presidente da Junta lá do sítio – um tipo pragmático, mais novo que eu – teve ontem o prazer de inaugurar um ponto de acesso à net wireless, na Benquerença. Espero que tenha corrido bem.

“dinamização de espaços rurais

A aldeia que não cruza os braços
Benquerença conseguiu envolver a sua população numa rede cultural única

Esta aldeia andará, certamente, à procura de estabelecer um recorde. Senão, vejamos tem pouco mais de 600 habitantes e nela existe uma certa casa, de acesso público, com as portas abertas geralmente até bem perto das 23.00. «Bom, nada de extraordinário», dirão. Pois não.

Mas se, ao espreitar, ali virmos, durante a semana, ensaios de teatro, aulas de judo e de informática, preparativos para um desfile de moda com roupas feitas de papel de jornal, sessões de ginástica adaptada, uma pequena biblioteca, um espaço de tempos livres com computadores, aulas de violino, grupo etnográfico e, além do mais, o luxo de, uma vez por ano, ali se promover – pasme-se – uma semana cultural com teatro, música e demonstrações de cultura popular, então estaremos próximo de qualquer coisa de assinalável.

Bem-vindos à Casa do Povo da Benquerença, Penamacor, e à sede da Associação Desportiva, Cultural e Recreativa. Bem-vindos à aldeia que se recusa a cair nas teias do isolamento e da resignação – aqui é proibido estar de braços cruzados.

O dedo sonda o teclado com a hesitação típica de quem, pela primeira vez, se vê metido nestas coisas da informática. Sim, porque, nisto, quanto mais dedos estiverem prontos para premir teclas, maior é a confusão instalada. Um é bom, dois são de mais, três já são uma multidão. Por isso, e enquanto não chega o traquejo, vinga a tese do «orgulhosamente só».

Pouco depois da hora do jantar, fomos encontrar a turma de «veteranos» da informática, que estão a assimilar as noções básicas deste novo mundo Word, Excel, calculadora… É a última aula deste curso, ministrado pelo paciente e interventivo João Luzia, ex-funcionário da PT, que se disponibilizou para esta tarefa. Por ser a derradeira sessão, é tempo de rever a matéria dada, facto que não atormenta os esforçados alunos, na sua maioria na casa dos 40 anos, que encontraram aqui a oportunidade de se familiarizar com os computadores.

Costureiras, operadores de máquinas, entre outros, aprendem o bê-á-bá da informática na noite da aldeia. Os cinco computadores, muitos deles já em gozo dos tempos dourados da reforma, tiveram de ser chamados de novo ao serviço. Trabalha-se com o que há, porque «quem não sabe trabalhar com o computador é como quem não sabe ler», diz Albertina, uma costureira de 36 anos. E quem a pode desmentir?

No salão ao lado, a sintonia era outra. Os actores do Grupo de Teatro da Benquerença são só amadores de nome, pois no empenho nos ensaios da nova peça a que o DN assistiu, são dignos de profissionais. No palco trabalhava-se, então, a peça Histórias d’Ó Pé da Serra, uma adaptação de textos de Fernando Paulouro Neves.

«Repete», «mais alto». É certo que os adultos merecem menos reparos por parte de Joaquim Nabais do que os jovens que ensaiaram antes para uma peça infantil. Mas, mesmo depois de sair do seu emprego e ir para o clube para acompanhar e coordenar as actividades da associação a que preside, não descura nenhum pormenor. Este é um daqueles casos nítidos de alguém que corre por gosto. Joaquim Nabais é um homem da cultura, apaixonado pelo teatro, pela fotografia e pela literatura. Regressou de Almada para a sua aldeia natal há alguns anos e está agora a contribuir para incutir um dinamismo cultural raríssimo em espaços rurais. E ainda há lugar para sonhos aumentar a biblioteca e criar uma casa de chá. O segredo: «Muita teimosia», graceja. E já agora, diz, «porque não consigo estar quieto».

Teimosia e inquietude que não escondem uma razão de fundo «Andei 25 anos por fora e decidi acabar aqui. E queria ver se não acabava numa aldeia-fantasma. Quero que amanhã continuemos a falar, a entendermo-nos. E isso só será possível se recuperarmos e mantivermos alguns valores que já foram nossos. Mas, sobretudo, move-me a vontade de contrariar uma tendência avassaladora de alcoolização das sociedades rurais e de viciação das mesmas sociedades em produtos culturais medíocres que todos os dias nos impingem. São realidades que gostaria que não tomassem conta desta aldeia».

Razões de sobra para que esta pequena aldeia do interior continue a deitar-se tarde.” in Diário de Notícias

Um comentário to “ A aldeia que não cruza os braços ”

  1. # 1 Vi Says:
    Dezembro 28th, 2004 at 21:0

    É bom ver que há aldeias e “aldeãos” que não cruzam os braços, e gente que regressa ao ponto de partida – não para a Parvónia, mas para contribuir para que todos, lá no seu cantinho, fiquem mais perto do mundo e, sobretudo, do Conhecimento.
    Um feliz 2005, Senhor Rui :)

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