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Um velho problema

Lendo na diagonal alguns dos comentários em relação ao último debate entre Bush e Kerry (CNN, Yahoo…) encontro críticas costumeiras que julgo merecerem alguma reflexão. Destaco um exemplo, a questão do aborto.
Este é apresentado como um dos casos em que Bush se saiu melhor porque foi incisivo e claro na sua opinião – defende a proibição total, se bem percebi – enquanto Kerry foi palavroso, explicativo e terá ficado atrás nessa parte do debate por isso mesmo – afirmou-se católico mas não “o suficiente” para impôr pela força do Estado os seus preceitos religiosos ao resto da população exemplificando com casos limites como as violações dos filhos pelos pais e por aí fora.

Pensando neste caso e olhando para o exemplo caricatural da questão da guerra, representada neste boneco que vêmos no Blasfémias, lembro-me da simplicidade das turbas linchadoras ou da complexidade do exercício da justiça.
A águia e a pomba são ridicularizadas por pertencerem ao esquema racional de John Kerry quanto à questão da guerra no iraque. Ora isto não é tal e qual ridicularizar a figura da justiça: uma senhora vendada empunhando numa mão a espada noutra a balança?
É espantoso centrar-se a crítica a Kerry na sua eventual esquisofrenia quando todos os pressupostos justificativos da guerra, sabemo-lo hoje, se provaram errados. Não é nessa prova que Kerry fundamenta a sua opinião actual mas estas evidências, agora irrefutáveis, deviam ao menos embaraçar um pouco mais as águias da guerra. Contudo, é com gente deste calibre que temos de saber lidar, sem nos rendermos alegremente às mesmas tácticas. Tough job!

Imagem de Cox&ForKum

2 replies on “Um velho problema”

Rui,

Creio que percebeu mal. Quanto ao aborto o que estava em causa era o procedimento conhecido nos EUA por partial-birth abortion e não o aborto em geral. O aborto é aliás uma matéria que está (a meu ver de forma inconstitucional e totalmente ilegítima) bloqueada pelo Supremo Tribunal desde 1973 (Roe vs. Wade).

Confesso que tinha ficado com dúvidas quanto ao âmbito de “aborto” de que falavam no debate. Mas assim sendo ainda mais estranho é falar-se da “complexidade” da opinião de Kerry. A situação é ainda mais ambígua, de facto. No próximo debate seguramente o tema ressurgirá com mais relevo.

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