Adufe 4.0

As armas do meu Adufe não têm signo nem fronteira
Subscribe
  • Home
  • Sobre
  • Contactos
  • Translator

Aldrabas - Um bocadinho de história

Setembro 28, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: Viagens

Aldraba de um palácio em Cáceres - Agosto de 2004Eis um contributo sobre as aldrabas que nos chegou à caixa de comentários

“Da invisibilidade dos objectos quotidianos à quotidiana ausência da sua utilização

Há objectos quase invisíveis, que acompanharam gerações no seu quotidiano, como as árvores do quintal ou os animais domésticos; todavia, ao invés daqueles, não produzem frutos ou sombras, ovos, carne ou companhia.
Atravessaram séculos, nas portas, inseridos num sistema de comunicação ancestral que simbolicamente contribuía para proteger a casa de intrusões.
Os seus criadores desapareceram da paisagem: mágicos fazedores de tesouros, extinguiram-se com o galope de uma evolução que varreu sinais antigos de uma vivência sábia.
Aldrabas, batentes, espelhos de fechadura, pica portas são os seus nomes e rareiam em Miranda do Douro, sede de um concelho onde me afiançam existir ainda – nas aldeias – destes utensílios.
Em Miranda, no centro histórico, encontramos ( em número escasso) uma mão cheia de trinchetas, outra de batentes (sobretudo em edificios religiosos) martelos de porta e uma presença residual de aldrabas.
Na fechadura de uma companhia de seguros, mantém-se um belíssimo exemplar de um pica porta em forma de enguia.
Mas o deslumbramento que outrora estes materiais devem ter causado no visitante já não é possivel: os habitantes (com o alheamento da autarquia) resolveram modernizar as entradas das residências substituíndo a madeira por alumínio proliferando agora maçanetas douradas e puxadores sem beleza nem criatividade.
A ideia de conotar as portas antigas com um passado mais dificil produziu o abandono colectivo daqueles utensílios, celebrando-se o melhor nível de vida e o consequente aumento de bem-estar forrando as portas da cidade com alumínios brancos,e maçanetas douradas, em vez da madeira e do ferro toscos.
Por onde andarão os velhos objectos?
Nos antiquários? Em Espanha?
Nas casas de campo das élites citadinas?
Os responsáveis autárquicos deveriam reflectir acerca desta questão. E promover a reutilização dos objectos retirados, que ainda estajam na posse dos proprietários das casas. A não ser que já seja demasiado tarde e só possamos agora falar de ausência e saudade.
Sintoma de riqueza recente, esta avalanche renovadora ignora que a aldraba e o batente, pela elegância, beleza e história simbólica e até por causa da extinção dos ferreiros, são preciosas raridades confundidas com velharia inútil.
À patrimonialização da gastronomia e da arquitectura sólida, de granito, corresponderia a porta de pinho robusta com o sonoro utensílio, substituídos pelo facilitismo E pela ilegalidade de entradas feias e descontextualizadas.

O estigma da interioridade e a consequente marginalização desta região do desenvolvimento pode ser uma explicação para a invasão de puxadores, maçanetas e alumínios.

O uso de expressões como aquela que foi utilizada em mirandês pelo vice-presidente do Município na abertura do Congresso “Leituras antropológicas de Trás – os - Montes� recebendo os congressistas, ainda que pretendesse sublinhar o espírito hospitaleiro das gentes destas terras de Miranda, remeteu-nos para um tempo em que anunciar uma visita se fazia manipulando o objecto.

Miranda do Douro, Novembro de 2003″

Luís Filipe Maçarico

Para mais informação do mesmo autor sobre este assunto:

«Sem pretensão e portanto mais como um contributo para o conhecimento destes utensílios chamo a atenção para o nº 8 da revista “Arqueologia Medieval”, ed. Afrontamento, onde tive o privilégio de publicar o artigo “A Função Antropológica da Aldraba”, cuja leitura, obviamente recomendo.»

Um comentário to “ Aldrabas - Um bocadinho de história ”

  1. # 1 Luis Filipe Maçarico Says:
    Setembro 29th, 2004 at 21:1

    Caro Amigo:
    Obrigado pela publicação do texto que lhe enviei e antes de ir até ao sul, deixo aqui mais uma achega, retirada do tal artigo “A Função Antropológica da Aldraba”, de minha autoria. Abraço do LFM

    CARACTERIZAÇÃO ETIMOLÓGICA DA ALDRABA

    No seu “Vocabulário Português de Origem �rabe�, José Pedro Machado diz que esta palavra- aldraba- vem do árabe «Ad-Dabbâ» e define-a como “trinco, lingueta, ferrolho.�

    Noutra obra do mesmo autor (“Dicionário Etimológico da Língua Portuguesaâ€?), constata-se que aldraba, aldrava, são termos citados em documentos do século XV, aparecendo este exemplo, em 1456: “… e armelhas pera as ditas portas e por aldrabas para as ganellas…â€?

    Num dicionário, encontramos esta caracterização: “tranqueta de ferro com que se fecha a porta; peça metálica para bater às portas.�

    Noutro, descreve-se o objecto e a sua utilidade. A aldrava (sinónimo de aldraba), será então: “Peça de ferro, na parte anterior de uma porta, servindo para bater nesta, a fim de chamar a atenção de quem está dentro, e para erguer a tranqueta que segura a porta do lado posterior.�

    Ainda noutro, trata-se de “peça de ferro, em forma de argola ou martelo, para bater, abrir ou fechar portas.�

    O próprio “dicionário da construção�, consultável na Internet, remete-nos para a ideia de uma “argola que fica do lado de fora da porta e serve de instrumento para bater à porta�

    Todavia, é na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que encontramos a melhor e mais completa descrição:
    “Argola fixa por uma extremidade na parte anterior das portas, a qual serve para bater nesta e para levantar a tranqueta que segura a porta do lado posterior (…) Peça de ferro ou de bronze, de formas diversas, móvel na parte superior e terminando inferiormente em martelo, que se fixa na face anterior das portas, e que se levanta e deixa cair sobre uma espera de ferro, quando se quer bater à porta. (…) Ferragem para fechar por dentro portas e postigos, formada por arame de ferro revirado em gancho dum lado e do outro articulado numa argola, ou ponto fixo; o gancho entra numa argola fixa ao arco da porta.â€?

    DIFERENÇA ENTRE ALDRABA, BATENTE E PUXADOR

    Num artigo publicado no Jornal do Fundão,escrevi que “adoptando o contorno em tamanho real das costas de uma mão fechada, moldada certamente pelos velhos ferreiros, e apresentando forma triangular arredondada, aberta ao meio, este instrumento, diferente dos batentes, cuja representação naturalista da mão exibe uma tendência miniatural, destacava-se pela dupla funcionalidade de anunciar, através de sonoridade distinta, as diversas visitas e preservar a residência, pois também exercia as funções de ferrolho.�

    Em “As Aldrabas de Lisbuna,� acrescentei que “a confusão manifesta-se mesmo nos dicionários. Todavia, a aldraba executa tarefas que o batente está impedido de fazer, pois serve também de “trinco, lingueta, ferrolho,� dado que é “móvel na parte superior.�

    O puxador, como o nome indica, é uma peça de madeira ou metal, que se puxa, para abrir portas… podendo ter a forma de uma maçã, daí, a designação de maçaneta, a qual servirá para assinalar este “ornato globular.â€?

    Nas últimas décadas, o avanço daquele objecto, sobre aldrabas e batentes, geralmente associado ao aparecimento das portas de alumínio, levou homens como Joaquim Palminha da Silva, a defender o “compromisso premente da conservação das antigas portas, porque elas se relacionam com a nossa cultura ao nível dos valores e atitudes, empenhamento e atenção que se deve dar ao passado, enquanto vestígio de um tempo não afectado pela descaracterização e desumanização actuais.Tempo sensível, portanto aos registos pessoais dos artistas que, na sua própria época, partiram em busca de originalidade num cenário de necessidades práticas, criando parte da riqueza cultural e material (…) Se não existem leis nem regulamentos municipais sobre esta matéria, urge redigi-los e pô-los em acção!â€?

    Espero que este contributo sirva para enriquecer o conhecimento de todos os amigos que consultam o “Adufe” acerca destes materiais e que sobretudo se crie uma associação (porque não?) para a defesa deste património. Contem comigo!!!
    E já agora um grande aplauso para a bela partilha dos exemplares de Cáceres e Monsaraz, entre outros.Já difundi a colegas e amigos o seu gesto de os partilhar para delícia dos olhos.Por causa deste seu interesse pelas aldrabas tem-me como leitor assíduo e colaborador entusiasmado.Obrigado por tudo!
    Luís Filipe Maçarico

← !!!
Da petroquímica? →
  • Receba por Email

    • Inscreva-se aqui
  • Subscreva o Adufe

    • Entradas (RSS)
    • Comentários (RSS)

  • Comentários

    • LNT em Ingrid
    • jpt em Ingrid
    • maria em O “Novo” abono de família e o apoio à natalidade - aspectos práticos
    • Planetas em Da falta de responsabilidade e de responsabilização
    • Fernando Duvane em Parabéns Espanha
  • Artigos Recentes

    • Subsídio à maternidade partilhado por quem recorre à IVGravidez
    • O Sporting em Kandahar
    • Ingrid
    • Sentido de preservação?
    • Dos vários tons de cinzento
  • Categorias

    • As Crónicas e os Contos
    • BD
    • Blogologia
    • Brasil
    • Ciência e Tecnologia
    • Cinema
    • Curiosidades Estatísticas
    • Desporto
    • Ecologia e Natureza
    • Economia
    • Educação
    • Electrico 28
    • Fotografia e Pintura
    • Gastronomia
    • INE
    • Justiça
    • Letras e Livros
    • Lisboa
    • Media
    • MEP
    • Mimos
    • Palavras dos Outros
    • Pessoal
    • Poesia e Música
    • Política
    • Portugal
    • Post patrocinado
    • Publicidade
    • Religião
    • Saúde
    • SCP
    • Sociedade
    • Teatro
    • Viagens
    • Video
    • Web
  • Arquivos

    • Julho 2008
    • Junho 2008
    • Maio 2008
    • Abril 2008
    • Março 2008
    • Fevereiro 2008
    • Janeiro 2008
    • Dezembro 2007
    • Novembro 2007
    • Outubro 2007
    • Setembro 2007
    • Agosto 2007
    • Julho 2007
    • Junho 2007
    • Maio 2007
    • Abril 2007
    • Março 2007
    • Fevereiro 2007
    • Janeiro 2007
    • Dezembro 2006
    • Novembro 2006
    • Outubro 2006
    • Setembro 2006
    • Agosto 2006
    • Julho 2006
    • Junho 2006
    • Maio 2006
    • Abril 2006
    • Março 2006
    • Fevereiro 2006
    • Janeiro 2006
    • Dezembro 2005
    • Novembro 2005
    • Outubro 2005
    • Setembro 2005
    • Agosto 2005
    • Julho 2005
    • Junho 2005
    • Maio 2005
    • Abril 2005
    • Fevereiro 2005
    • Janeiro 2005
    • Dezembro 2004
    • Novembro 2004
    • Outubro 2004
    • Setembro 2004
    • Agosto 2004
    • Julho 2004
    • Junho 2004
    • Maio 2004
    • Abril 2004
    • Março 2004
    • Fevereiro 2004
    • Janeiro 2004
    • Dezembro 2003
    • Novembro 2003
    • Outubro 2003
    • Setembro 2003
    • Agosto 2003
    • Julho 2003
  • Meta

    • Iniciar Sessão
    • Entries RSS
    • Comentários RSS
    • WordPress.org

  • Conheça o MEP

    MEP- Movimento Esperança Portugal
  • Páginas

    • Contactos
    • Sobre
    • Translator
  • Blogroll

    • 100 Nada
    • A Aba de Heisenberg
    • A Barbearia do Senhor Luís
    • A Blasfémia
    • A Invenção de Morel
    • A Metamorfose
    • A Natureza do Mal
    • A Origem das Espécies
    • A Palavra Aberta
    • A Vida Breve
    • Abrupto
    • Activismo de Sofá
    • Adufe 1.0
    • Adufe 3.0
    • Almocreve das Petas
    • AmericaBlog
    • António José Seguro
    • Atlântico Expresso
    • Avatares de um desejo
    • Banco Corrido
    • Bibliotecário de Babel
    • Bios Politikos
    • Bioterra
    • Bloga-me Mucho
    • Blogo Existo
    • Blogouve-se
    • Bloguítica
    • Cachimbo de Magritte
    • Causa Nossa
    • Cão de Guarda
    • Cibertulia
    • Cinco Dias
    • Claras em Castelo
    • Claudiarium
    • Climate Crisis
    • Coisas como elas são
    • ContraFactos
    • Coreia do Norte
    • Crítico
    • Crónicas da Terra
    • Da Literatura
    • Economia & Finanças
    • Errante
    • Escola de Lavores
    • Especulador Prudente
    • Espreitador
    • Estado Civil
    • Euronext Lisbon
    • Farto Disto
    • Francisco Sena Santos
    • Frenchkissin
    • Gattopardo
    • Geração Rasca
    • Get a Second Life
    • Glória Fácil
    • GLQL
    • Goodnight Moon
    • GranoSalis
    • Há Mouro na Costa
    • Ideias Soltas
    • In Verbis
    • Insónia
    • Intima Fracção
    • Jorge Seguro Sanches
    • Klepsydra
    • Kontratempos
    • Livre Indirecto
    • Lua
    • Ma Schamba
    • Mais Actual
    • Mar Salgado
    • Margens de Erro
    • Marketing de Busca
    • Marquesa
    • Mas Certamente que Sim!
    • Mau Tempo no Canil
    • Mãos ao ar!
    • Melhor é possível
    • Memória Inventada
    • Memória Virtual
    • Minha Rica Casinha
    • Miniscente
    • Miss Pearls
    • MLS Blogue
    • Movimento Esperança Portugal
    • Movimento Liberal Social
    • Mudar o Mundo
    • Mundo Pessoa
    • Na Web 2.0
    • Nabisk (Benquerença)
    • O 31 da Armada
    • O andarilho
    • O Canhoto
    • O Carmo e a Trindade
    • O céu sobre Lisboa
    • O Fio dos Dias
    • O Insubmisso
    • O Insurgente
    • O meu filho e eu
    • O Mundo de Cláudia
    • O Mundo Perfeito
    • O País do Burro
    • Observatória da Imprensa
    • Os dedos
    • Outro, Eu
    • Peão
    • Penamacor
    • Ponto Media
    • Portugal dos Pequeninos
    • Povo de Bahá
    • Pura Economia
    • Quase em Português
    • Quatro Caminhos
    • Rastos de Luz
    • Respirar o mesmo ar
    • Retórica
    • Retorta
    • RIP - 100 Nada
    • RIP - Tugir
    • Rodrigo Santoro
    • Rua da Judiaria
    • Saúde SA
    • Sarah Adamo.
    • Sem Pénis nem Inveja
    • Snowgazestarkiss
    • Sociedade Anónima
    • Still kissin’
    • Strange Lepton
    • Tempo dos Assassinos
    • The Old Man
    • Timshel
    • Um Amor Atrevido
    • UnderWorld
    • Vem da China
    • Vida das Coisas
    • Voz do Deserto
    • Welcome to Elsinore
  • Utilitários

    • As melhores taxas de juro
    • Bloglines do Adufe
    • Blogservatório
    • Casa da Leitura
    • Dicionário
    • European-Mediterranean Seismological Centre
    • Neste Momento
    • Penamacor no Sapo
    • Sporting Clube de Portugal


Adufe 4.0 © 2007 All Rights Reserved. Using WordPress Engine Algumas imagens são Royalty Free da Corbis
Entries and Comments.

Prosumer 1.4 made by Nurudin Jauhari



Estatísticas