O PIB cresceu 0,057048989%
Escreveu o José Mário Silva no BdEII:
“Na noite de domingo, vários dos ensimesmados comentadores pró-governamentais brandiram, com um evidente brilhozinho nos olhos, os indicadores que apontam para uma recuperação da economia portuguesa. (…) Só que é preciso olhar com mais detalhe para os tais indicadores positivos. Se o fizermos, começamos por descobrir que o PIB cresceu realmente no primeiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2003. Mas quanto? Preparem-se (rufar de tambores): 0,1%. Extraordinário, hem?
Acontece que o pior ainda está para vir. Na realidade, o valor de 0,1% foi o que avançou o governo, porque o verdadeiro (segundo as nossas fontes) não passou de 0,06%, tendo sido arredondado para cima pelas razões que se adivinham. (…)”
A propósito, seguem alguns comentários meus.
Os valores do PIB do 1º trimestre não são caso para deitar foguetes como é óbvio. E contrariamente ao que cheguei a ouvir na dita noite da eleições, o INE não declarou que a recessão acabou. Não tem sido bem esse o papel do INE. Produz informação com análise relativamente sumária. Outros, seguindo canones de análise internacional ou seguindo a cartilha da utilidade política de um qualquer partido que discutam animadamente os números que se querem isentos e tecnicamente válidos.
Dito isto passemos ao acessório. Não foi o governo que arredondou o número para cima. Pelo menos desta vez não foi preciso. O “número” foi arredondado para as décimas como SEMPRE foram os dados relativas às variações homólogas do PIB trimestral.
O “verdadeiro” número, que aliás qualquer um de nós pode apurar com base nos dados publicados pelo INE no seu site, foi: 0,057048989 se nos contentarmos com 9 casas decimais.
Repito, o arredondamento SEMPRE existiu. Não inventemos casos onde eles não existem. Infelizmente este governo, e a manipulação ou melhor, a instrumentalização que tem feito das estatísticas dão-nos “casos” bem mais evidentes e argumentos suficientes para lhes combatermos e desmascaramos o discurso.
A insinuação que o JMS faz, em última análise, põe em cheque o trabalho técnico do INE. Injustamente. A única defesa dos técnicos do INE é precisamente manterem alguma estabilidade nas técnicas, nomeadamente, não alterando os critérios de arredondamento dos números.
A arte da mudança dos critérios costuma morar mais para as bandas do Ministério das Finanças.
Com amizade.
P.S.: Para prevenir: recomendo que no dia em que virem uma mudança metodológica ou uma quebra de série, perguntem porquê antes de dispararem. Mas perguntem mesmo. Quem está neste ofício, prezando acima de tudo a isenção, agradece. Essa é a nossa principal defesa. Se dispararem antes de perguntar poderão estar a prestar um excelente serviço precisamente àqueles que querem atacar.


Junho 15th, 2004 at 14:1
Rui,
Eu não quis, em momento algum, atacar os técnicos do INE, mas os aproveitamentos políticos que se fazem (sempre, é bom sublinhar) destes números.
Os técnicos do INE merecem-me todo o respeito; os responsáveis do governo, não.
Agradeço, de qualquer das formas, os esclarecimentos.
Com amizade,
JMS
Junho 15th, 2004 at 14:1
Don’t shoot me, i’m only the piano player.
Junho 15th, 2004 at 14:1
O Mário resumiu bem as coisas :-))
JMS: percebi que não era essa a tua intenção. A minha reacção resultou mais de um acumular de situações que se não forem esclarecidas (uma no BDE outra na Grande Loja do Queijo Limiano) acabam por levar na onda (a onda justíssima de fazer combate político) o nome do INE. Quem não se sente… E como até ver não estou proibido de me sentir…
As responsabilidades a quem de direito. Neste caso não confundamos o INE com um serviço politizado do governo. Se essa imagem for vingando e se transformar em realidade não se justifica termos INE. Serei o primeiro a defender a poupança no erário público (e a procurar novo emprego). Para propaganda já temos alguns serviços ministriais que o fazem de forma mais ou menos legítima.
A luta é surda mas faz-se todos os dias e em muitos os países: entre os respectivos INE’s e as respectivas tutelas. Aos cidadãos cabe garantir que não há desequilibrio de forças significativo de molde a que o INE não possa resistir às pressões governativas. Fazer perceber às pessoas quão importante é garantir a isenção e os meios na produção de estatísticas é complicado. Não menos complicado que conseguir garantir o dinamismo e modernização de uma instituição com quase 70 anos. O discurso do controlo de défice também aqui tem tido outras consequências que vão bem além do impacto financeiro directo. O deve e haver anda muito simplificado. Mas sobre isso em concreto preferia que fossem outros a falar como é óbvio.
Junho 15th, 2004 at 15:1
Um dos aspectos mais graves deste ataque ao INE, é que ele é a demonstração clara de que quem trabalha com competência e isenção é punido. Fica claro que se deve ser incompetente e tendencioso.
Mais do que as discursatas políticas e das esgrimas a que sempre se assiste em torno das eleições, do euro 2004, da intervenção na guerra e dos dislates do anormal do josé manuel fernandes, dever-se-ia passar das palavras aos actos contra estes ataques à democracia e em defesa de instituições que têm dado prova de competência e isenção democrática. Esta, diria eu, era uma obrigação.
Por isso me farto tanto dos blog e penso mesmo fechar o meu. Se acreditei um dia na possibilidade de este poder vir a ser um meio de mobilização de consciências, neste momento tenho sérias dúvidas, apesar do bom trabalho que tens feito na divulgação deste caso
abraço Blogueiro
GIN
Junho 15th, 2004 at 15:1
0,057 já está arredondado; enfim, minudências. Coisa práticas: Odemira é a Freguesia que emprega mais trabalhadores rurais, tendo tb 2557 Vacas, 799 Porcas reprodutoras e 4987 Ovelhas. Estes são os números brutos, sem arredondamentos nem suavizantes artificiais. É a áspera realidade rural…
Junho 15th, 2004 at 15:1
Não podia ser melhor esclarecido.
Por outro lado, a forma como este governo tem actuado em relação à divulgação da informação leva-nos a desconfiar de tudo.
A propósito da fiabilidade da informação aconselho, vivamente, uma lida do relatório da Promavera de 2004, divulgado hoje pelo Observatório Português dos Sistemas de Saúde.
http://www.observaport.org/
umprimentos
Xavier