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As armas do meu Adufe não têm signo nem fronteira
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Terminando a volta ao mundo…

Abril 21, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: Brasil

Neste dia de bloguice gratificante o Adufe termina onde começou, no Brasil.
E o nosso correspondente brasileiro (Ruy Zananiri) destaca da revista de imprensa brasileira a crónica de Arnaldo Jabor (O crime no Rio vive do nariz dos otários) no segundo caderno d’O Globo (afinal o acesso é gratuito mas exige registo prévio). A crónica de Jabor de certa forma zurze alguns pontos que surgem na epístola da Alessandra Sampaio ao apresentar o conceito de “pós-miséria”, vincando o afastamento de qualquer ideia romântica sobre o criminoso e a racionalização do crime.

Um excerto de Jabor:
“Os criminosos cariocas têm a mesma vantagem dos terroristas — não têm rosto e ninguém sabe de onde vêm. Eles são microempresas privadas, filiais da grande multinacional do pó. Nós somos o Estado incapaz. Eles agilizam métodos de gestão. Eles são rápidos e criativos. Nós somos lentos e burocráticos. Eles lutam em terreno próprio. Nós, em terra estranha. Eles não temem a morte. Nós morremos de medo. Eles estão no ataque. Nós, na defesa. Nós nos horrorizamos com eles. Eles riem de nós. Nós os transformamos em superstars do crime. Eles nos transformam em palhaços. A droga e as armas vêm de fora. Eles são globais. Nós somos regionais. “

Há um fascínio pelo que se passa no Brasil que vai bem além dos laços emotivos e históricos. Esta dedicação que por aqui passa e que o Ruy ajuda a patrocinar tem um interesse egoista muito relevante. Há uma diferença de dimensão, de violência entre o que se passa no Brasil e em Portugal ,à nossa escala, o diagnóstico de Arnaldo Jabor serve-nos de barrete para enfiar bem enfiado.
Ainda hoje ouvimos os números que atestam um aumento signifcativo da criminalidade organizada em Portugal geralmente associada ao tráfico (de drogas e de pessoas). Lá como cá combatemos o problema com meias políticas. Nem nos decidimos por uma revolução legalizadora, nem enfrentamos o boi pelos cornos optando (como apenas fingimos fazer) pelo combate e pela proibição. There’s is a war como dizia Cohen. Por uma via ou por outra temos de regressar a essa guerra.

Publicado em 20 de abril de 2004
Arnaldo Jabor

O crime no Rio vive do nariz dos otários

Não adianta mais dizer “que horror!�. Enquanto procurarmos uma solução para o crime no Rio, não haverá solução. Não haverá solução enquanto não entendermos que somos parte do problema — nós, a polícia, a burocracia, a lei, as Forças Armadas, governos central e estadual. “Solução� é um conceito antigo e obsessivo; só um processo amplo, multidisciplinar, um processo lento, caro, difícil poderá ir melhorando a coisa toda.

São 650 favelas, com mais de 30 mil armas pesadas (calcula-se), aumentando o número cada dia, chegando de barco pela Baía, de aviãozinho, de caminhão. Algum sucesso, algum avanço, só virá se desistirmos de defender a “normalidade� de nosso sistema, pois não há mais normalidade alguma; precisamos é de uma urgente autocrítica de nossa ineficiência. Já escrevi várias vezes sobre isso e aqui repito frases de outros artigos. Nada avançou nos últimos anos.

A nossa secular irresponsabilidade está em questão. Nós é que temos de nos reformar, subverter nossas cabeças, nossas polícias, nossos poderes. A defesa pública está engarrafada numa rede de burocracia corrupta, leis antigas, velhos conceitos que são facilmente superados pela eficiência leve e imaginosa dos bandidos.

Nós ainda falamos dos criminosos como se fossem “desviantes� de nossa moral, como gente que se “perdeu� da virtude e caiu no “pecado�, no “mundo do mal�. Não se trata mais de crime contra a virtude. O que surgiu foi uma nova sociedade periférica, feita de fome e funk, de rancor e desejo de consumo. E são estranhas anomalias do desenvolvimento torto. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, como um monstro “Alien� que se esconde nas brechas da cidade. Não há mais a idéia de “proletários� ou de “infelizes� ou de “explorados�. Estamos perplexos com o mistério da miséria. Não basta denunciarmos contradições e injustiças. Estamos diante de uma espécie de Pós-Miséria. Isso. A “pós-miséria� está gerando uma nova cultura, se é que esta palavra se aplica à vida esmagada tentando existir. Hoje não adianta mais o papo de luta de classes, de “conscientização�, “cidadania�. Os miseráveis se conscientizaram sozinhos, em outra direção. E quem disse que eles ainda querem que nós os “salvemos�? Parte da miséria está armada. Eles ainda têm muito a tirar de nosso mundo: granas, assaltos, vinganças. Mas, mesmo assim, continuamos sonhando com um mundinho limpo, com uma utopia de Ipanema. Dançou, gente boa.

A verdade é que o Brasil sempre teve a “cultura do desrespeito� à lei. Nossa sociedade foi montada na transgressão à ordem, no horror à coisa pública, aos direitos da maioria; somos uma sociedade de contraventores, de sonegadores, de pequenos psicopatas light , uma sociedade de malandros cariocas. Agora é tarde. Isso que está acontecendo é a realidade previsível, não é uma anomalia.

A verdade é que a única coisa que aumentou a renda dos morros foi a cocaína. Como disse o policial Hélio Luz, com desalento: “O pó é uma companhia multinacional que diminui o desemprego dos miseráveisâ€?… Fazer o quê? Ganhar 200 reais para ser limpador de privada de branco? Ora… Os criminosos cariocas têm a mesma vantagem dos terroristas — não têm rosto e ninguém sabe de onde vêm. Eles são microempresas privadas, filiais da grande multinacional do pó. Nós somos o Estado incapaz. Eles agilizam métodos de gestão. Eles são rápidos e criativos. Nós somos lentos e burocráticos. Eles lutam em terreno próprio. Nós, em terra estranha. Eles não temem a morte. Nós morremos de medo. Eles estão no ataque. Nós, na defesa. Nós nos horrorizamos com eles. Eles riem de nós. Nós os transformamos em superstars do crime. Eles nos transformam em palhaços. A droga e as armas vêm de fora. Eles são globais. Nós somos regionais.

A luta contra o trafico, é obvio, começa lá longe, nas fronteiras. Por lá entram as armas e o pó. Não adianta subir e descer de morros. Temos de fechar fronteiras. Mas não temos nem guarda-costeira.

A luta contra o crime não é mais uma luta policial; não é mais a Lei contra o Pecado. Não. O crime cresceu tanto que se tornou um problema de estado-maior. Sim. Trata-se de uma luta política e, mais que isso, uma luta policial-militar. Acho que tem de haver, sim, uma séria articulação das Forças Armadas com as polícias. Tem de haver generais estudando estratégias e logísticas de cercos e ataques. Meses de estudo, planos secretos, dinheiro, muito dinheiro, e milhares de homens com armas modernas. E tudo isso coordenado com campanhas de esclarecimento e de proteção às comunidades que eles “protegemâ€?. “Ahh… — alguns vão gritar — o Exército não foi treinado para isso!â€? Pois, que seja treinado. Trata-se de uma guerra. Ou não? Não combateram a guerrilha urbana, com implacável ferocidade e competência?

Aposto que outros dirão: “O Exército não é para crimes comuns; é para guerras maiores…â€? Para quê? A invasão da Argentina? Não podemos enfrentar o crime do século XXI com uma polícia do seculo XIX.

No fundo, muitos não admitem a ação das Forças Armadas, porque desejam ocultar a derrota de um sistema legal e policial. A guerra é reconhecimento do fracasso da política. Pois que seja. Nosso fracasso tem de ser assumido.

Crime hediondo é que o combate ao crime e a miséria não seja uma prioridade nacional, crime é que não haja alocação de bilhões de reais para se fazer uma guerra política e social, e não meras operações policiais inócuas. A tragédia das periferias brasileiras me lembra um terremoto ignorado, para o qual ninguém enviou patrulhas de salvamento. Já houve um terremoto e todos nós tentamos esquecê-lo, subindo grades em nossas casas, com os socialites cheirando o pó malhado de otários, perpetuando esta miséria.

O crime começa e acaba no nariz das classes dominantes.

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