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Já experimentaram matar uma silva?

Março 14, 2004 By: Rui Cerdeira Branco Category: As Crónicas e os Contos

Não é queimando as silvas com o nosso abrasador poder de fogo que as destruímos, elas nascem e renascem, menos exuberantes mas sempre dispersando-se, ramificando-se, cada vez mais rente ao solo, infestando uma área cada vez maior, oferecendo um saboroso fruto pejado de dezenas de sementes que mesmo um agricultor imprevidente poderá tratar de disseminar.
É preciso arrancar a silveira e expôr-lhe todas as raízes ao sol em época de pouca água, pois havendo humidade ela fará das hastes raízes e nem assim morrerá.
Sem a destreza, energia e determinação necessárias, sem arar toda terra e lançar-lhe outras sementes, sem zelar permanentemente pelo fruto, a silveira proliferará.
Já experimentaram arrancar uma silva? Mesmo com todas as cautelas, é quase impossível prever todos os espinhos…

É fundamental prezar a clarividência e rejeitar veementemente aqueles que, entre nós, insistem em misturar os seus receios ancestrais às ameaças do presente. Aqueles que tentarão cavalgar o sentimento de vulnerabilidade colectiva vendendo-nos as suas absurdas generalizações, o seu mundo simplificado a raiar um outro fanatismo, sempre em nome da auto-defesa e da auto-preservação (valores que todos defendemos).
O terrorista precisa desse aliado, joga as suas bombas na esperança de obter gritos de guerra e de ódio dirigidos aos que particularmente no mundo não ocidental recusam ainda aliar-se à barbárie.
Precisa de “cruzados”, de defensores de uma fé ou de um seu sucedâneo que reajam sob impulso, de acordo com o discurso que o fanático espalha entre os que lhe estão mais próximos.

O que se passa no médio oriente, a intervenção extemporânea no Iraque, o forte desequilíbrio económico do planeta e mesmo as capacidades comunicacionais actuais, a globalização, ajudam a fomentar e a viabilizar o exercício do terror. Passado o momento de mais um choque brutal teremos de voltar a fazer contas ao exemplo do Iraque e mesmo do Afganistão [lembram-se do ópio que financiou os clãs militares e os talibans? Prolifera de novo por terras afgãs; quem fica com o dinheiro e que está a fazer com ele? Quando encararemos novas formas de lidar com a droga por cá?].
Há muitas lições de como não proceder para anotar.

Onde há miséria, revolta e exploração há sempre maior vulnerabilidade, melhor pasto para chamas. Mas o terrorismo quer ainda crescer mais, quer ser a maioria e não a minoria, quer fazer alastrar o fundamentalismo onde ainda reina o respeito religioso, o laicismo do Estado e mesmo a admiração pela civilização ocidental. Não será a tiro que o derrotaremos. Não será só a tiro. A juzante podemos e devemos aplicar a justiça por todos os meios ao nosso alcance mas é noutro sítio e com outras práticas que se começa verdadeiramente a consolidar uma solução duradoura para resolver o problema.

Aos poucos vamos sendo capazes de resumir o essencial e traçar o caminho que teremos de percorrer. Hoje lê-se no Barnabé um texto escorreito e lúcido do André Belo, muito bem complementado por um comentário que escreveu em resposta às primeiras críticas de que foi alvo.

Vamos precisar de muita inteligência, determinação e acima de tudo de muita paciência e sensatez para resolver este problema que nos há-de acompanhar por longos anos.

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