Espero que em Portugal, aconteça brevemente o mesmo mas…
Dou aqui destaque a um texto deixado na caixa de comentários desta posta. Assina João Guerra:
“É lamentável que se diga que a reacção do povo espanhol aos atentados foi cobarde…
Com a participação democrática inédita no último domingo, depois de mais de 25 anos a reagir democraticamente ao terrorismo nazi da ETA, acusar os espanhóis de cobardia parece-me um insulto infame.
O que se passou foi simplesmente que o Partido socialista ¡OBRERO! español ganhou as eleições democraticamente. Os motivos para esta vitória histórica são os seguintes:”
“ 1) Os Espanhóis na sua grande maioria (90%, segundo todas as sondagens
feitas muito antes do 11-M) estão contra a Guerra imperialista de ocupação e exploração do Iraque.
2) Estão fartos de um governo que durante os últimos 8 anos privatizou praticamente tudo - só falta privatizar o oxigénio que se respira em Espanha.
3) O PP desinvestiu fortemente na ciência (apesar de investir bastante mais que Portugal) e na educação pública.
4) O PP promoveu para além de todos os limites razoáveis os “contractos basura” - os contractos de trabalho temporários que em Portugal tão bem conhecemos e que só servem para precarizar o trabalho e a vida dos trabalhadores
5)O PP foi o campeão europeu do neo-liberalismo - a despesa social deste governo foi a menor da UE em termos relativos - a coligação neo-facha PP/PSD dos lusitanitos vai pelo mesmo caminho.
6)Para além disso houve as responsabilidades enormes na crise do Prestige que foi gerida de forma incompetente e irresponsável.
7) Os preços da habitação e a especulação imobiliária (grandes lobbys protegidos pelo PP) atingiram níveis nunca vistos em Espanha. Mais uma vez, podemos fazer um paralelismo perfeito com a situação no nosso jardim à beira-mar plantado.
8) Os conflitos entre o estado central e as comunidades autónomas espanholas sucederam-se a um ritmo vertiginoso durante os últimos quatro anos. É claro que em Portugal isto não sucede porque num país neo-con hipercentralizado, onde todos os politicos (com poder) vão beijar a mão ao Durão e ao Portas, não há qualquer conflito institucional, como é óbvio.
9) A manipulação por parte do governo da maior parte do circo mediático - televisões, rádios e imprensa, comentadores e analistas- era tão descarada que se os espanhóis queriam saber o que “não tinha acontecido” viam a TVE, liam o ABC ou ouviam a rádio COPE para além de muitos outros orgãos de informação e respectivo batalhão de comentadores/analistas neo-cons ou neo-fachas. Mais uma vez, as semelhanças ibéricas entre Portugal e Espanha saltam à vista.
10) A manipulação e desinformação orquestradas pelo governo do PP na sequência do cruel atentado terrorista de dia 11 foi a gota de água que fez transbordar o copo.
Resultado: Os espanhóis deram a todo uma lição de democracia e resolveram votar à esquerda.
Quanto à retirada das tropas espanholas do Iraque, anunciada ontem por Zapatero, ela foi anunciada muito antes do atentado de 11 de Março, sendo uma promessa eleitoral que vai ao encontro do desejo da maioria do povo espanhol (cerca de 90 %, segundo muitas sondagens feitas antes do 11-M). Esta retirada não é portanto efeito do atentado mas já estava decidida pelo PSOE há muito tempo. O que se passa é que agora em Espanha, o PSOE parece que quer cumprir as promessas eleitorais. “Estes espanhóis são muito estranhos”, diria a nossa dupla neocon/neofacha Durão/Portas.
Espero que em Portugal, aconteça brevemente o mesmo que aconteceu em Espanha mas com a oposição que temos, temo que será mais tarde que cedo.
É preciso que PS/PCP/BE ataquem a direita sem dó nem piedade em todos os campos: politico, social e económico. Sem tréguas.
Saudações ibéricas”


Março 16th, 2004 at 17:0
Pronto, assim já compreeedo. A economia espanhola andava em pantanas. Durante estes anos do PP a Espanha deve ter regredido imenso. Portugal deve ter recuperado muito do atraso em relação a Espanha, nos anos de Guterrismo. Ao ler este comentário, estou mesmo convencido que os ultrapassámos.
Nada como estes posts esclarecedores da realidade para melhor entendermos o mundo.
jcd
Março 16th, 2004 at 18:0
Caro jcd:
Uma coisa são as politicas macro-económicas que se reflectem em variáveis como o PIB, a Inflação, o Déficit e outra coisa são as politicas sociais e de redistribuição de riqueza. É evidente que as politicas macroeconómicas do PP foram um sucesso, pois este partido aplicou a receita neoliberal à letra.
O problema é que quando se aplica esta receita, criam-se muitas desigualdades sociais que só podem ser contrariadas por uma forte politica de redistribuição de riqueza, o que por sua vez é contradictório com o neoliberalismo. Temos portanto um paradoxo.
Para ultrapassar este paradoxo, o PP preferiu o neoliberalismo puro e duro e esqueceu a politica social. Isto fez com que uma parte da alta e média-alta burguesia espanhola tivesse muito a ganhar com o Aznar, enquanto as classes baixas, que são evidentemente as mais numerosas, viram como os cortes nas prestações sociais e a precarização do emprego as marginalizavam.
Esta é a causa do mal-estar social de grande parte dos Espanhóis.
Sobre Portugal, temo que a situação económico-social é bastante pior que em Espanha: basta comparar os niveis de PIB, Deficit, valores de pensões de reforma, valores de subsidios de desemprego, valores salariais médios e as escandalosas estatisticas da educação do Eurostat, segundo as quais Portugal é o país da UE alargada (25 países) com maior taxa de abandono escolar e com maior número de pessoas que só completaram os níveis de educação baixos (menos que o ensino secundário). Por isso, meu caro, Portugal está bem atrás da Espanha e o problema é que não progredimos - nos últimos tempos só regredimos. Até ver e até nos fartarmos dos galos que estão no poleiro…
Alguns links para textos interessantes sobre estes assuntos, onde se apresentam alguns dados nos quais se baseia a minha análise:
http://www.politicasnet.org/articulos/deficit.htm
http://www.nodo50.org/reformaenserio/articulos/
diciembre03/navarro1.htm
http://europa.eu.int/comm/employment_social/
publications/2003/2003_in_brief_pt.pdf
Saudações ibéricas
João Guerra
Março 16th, 2004 at 18:0
O texto do João Guerra tem o mérito de trazer para o deve e haver “indicadores” demasiado sub-valorizados na avaliação política e económica do “modelo espanhol”. Olhas para o VAB e encantaste e esse é um problema, o encantamento.
É possível uma proposta política bem mais equilibrada, uma interveção do Estado responsável em termos financeiros que não despreze tão arrogantemente os danos colaterais das medidas reformistas. O que não me orgulha nem me satisfez no Guterrismo está bem longe do que não admiro no Aznarismo. Prefiro mil vezes ter de fiscalizar um rendimento mínimo garantido que livrou e livra da pior das indigências muitos portugueses, a ter de ser sistematicamente tratado como imbecil por um poder que se arroga ultrapassar os limites mínimos do respeito pela liberdade de pensamento e exercício da liberdade de expressão dos seus cidadãos. Um governo muito pouco liberal a privatizar a avaliação do exercício do poder… Há uma força centrífuga inerente ao equilíbrio dos agentes económicos que atira para a berma os desafortunados, os mais incapazes. É uma premissa clássica que muitos só vêem nas novelas. Mas ela surgem bem patente a poucos metros de nós. Atira-os para um nível de vida que choca com os meus padrões de humanidade. Quanto mais à margem mais central deverá ser o seu problema na esfera de intervenção do Estado. Recusar isso e nada fazer, seguindo o exemplo dos asnarismos deste mundo esclarece-me rapidamente de quem estou mais próximo.
O pior dos veredictos sobre o Aznarismo está bem patente nas denúncias de atropelos à liberdade de expressão, à independência informativa que enchem as páginas da imprensa espanhola por estes dias.