E assim fomos para a noite (Rev.)

“Então, vão para a noite?â€?
Respondemos com um sorriso e seguimos caminho, lado a lado, em direcção ao metro, encarnando o casal de amantes apaixonados que não deixámos de ser.

Ressurgimos à superfície na zona nobre da capital. Na noite fresca, que não fria, encontramos ainda muitas pessoas. Cruzamo-nos com potenciais portugueses que falam estranhas línguas entre si. Grupos animados com coisas para dizer. Nesta rua, neste momento, somos turistas como eles, talvez estejamos em Roma, em Oslo ou em Madrid. Chegamo-nos mais um ao outro e seguimos caminho por entre estrelas, pendões e esferas luminosas que completam o ambiente natalício. Ainda haveríamos de ter nas mãos A Christmas Carol nesta noite, «Marley was dead, to begin with.», mas por ora: “Então, vão para a noite?â€?

É a minha primeira noite ali, é ela, o meu amor, que me conduz. Não vejo ninguém à porta mas isso parece ser normal. De fora apenas a luz suave que se projecta pelas estreitas frestas horizontais, construídas por cima de uma porta monumental, denuncia a actividade nocturna no interior. Entramos com um simples empurrar de porta e somos de imediato envolvidos por uma nuvem de fumo com um intenso odor adocicado. Encontramos uma sala ampla iluminada com dezenas de luzes brancas de várias tonalidades. Adivinhamos também projectores que iluminam suavemente o tecto alto, coberto com baixos relevos e frescos. Toda a sala tem uma decoração requintada e completamente insuspeita do exterior. Estamos os dois espantados com o cenário; mesmo ela que o conhece parece arrebatada pelo que vê. Imagino que este é um efeito que seguramente nunca experimentaríamos durante o dia.

A música, que sempre nos acompanhara desde o momento em que entráramos, só agora, após o primeiro confronto visual, nos atinge plenamente. Vozes poderosas enchem a sala projectadas por colunas estrategicamente dispostas que aproveitam na perfeição a acústica soberba da sala.

Habituamo-nos ao fumo e percebemos que a sala está cheia, não diria apinhada mas cheia. Uns de pé, outros sentados, parecem encantados a ouvir. Alguns acompanham a música cantando animadamente.
Preciso habituar-me ao ambiente, ela compreende e ficamos sentados ao fundo a ouvir e a observar.
Reparo que as paredes estão também cobertas de baixos relevos, de pinturas, de panos coloridos e de esculturas embutidas em nichos, cada qual com a sua iluminação dedicada e sabiamente ajustada.
A música pára por instantes… Todos se levantam aos primeiros acordes deste outro som que, mais alto, é debitado das paredes.

O cheiro a incenso é agora menos sufocante e uma pequena folha que encontro no banco em que nos sentámos esclarece que este é o Primeiro Domingo do Advento. A homilia versará, entre outros, sobre a Fé, a Esperança e a Caridade. O padre saúda-nos. A música cessa e ela ouve a palavra de Deus. Assim seja.
E assim fomos para a noite.

Lisboa, 30 de Novembro de 2003