A dissidência e a conveniência no Adufe

Esclarecimento a este texto que o Daniel Oliveira me dedica (em resposta a um texto anterior que escrevi).

Antes de mais acredito na injustiça que me atribui. Não o conheço, nem ao seu percurso. Aceite desde já as minhas desculpas, o juízo que fiz assentou exclusivamente no texto que li e na interpretação que fiz dele. Colei-o a uma “vaiaâ€? cibernética. No contexto de um congresso, perante um congressista com direito a usar da palavra reconheço que a “vaiaâ€? é bem mais revoltante do que a que imputei ao Daniel. Terei muito gosto em que possamos um dia conversar.

Tenha paciência para mais algumas palavras.

Estou farto de ver cartas abertas na imprensa, votos de vencido, política nos jornais feita por militantes partidários do PS – são os que interessam agora.
Algumas geram solidariedade (lembro-me da atitude recente de Vicente Jorge Silva na comissão de ética), outras a indiferença ou a contra-resposta.
Qual é o crime de Carrilho? O Daniel explica-se bem: as motivações do homem.
O seu joguinho pessoal, a sua gestão de tempo, o manobrismo táctico. Pois eu estou-me pouco lixando para isso. Se calhar subestimo Carrilho que vejo como um tipo isolado. Logo, sem ferrão. Não me preocupo com as suas motivações e nas suas possibilidades internas. Para mim o senhor representa um papel estereotipado, é um daqueles actores que ficará para sempre agarrado àquela personagem. Talvez por isso eu não compreenda os canhões que apontam a uma melga ( não será mais feliz que escorpião?). A questão para mim é então ouvir ou não a melga. Para que serve a melga?
E aqui não vejo mal nenhum, o senhor dispõe-se ao papel de levar as palavras que não são já novidade lá para dentro. No congresso das vaias diz que ele não corria riscos, como lhe disse não me interessam os riscos dele, preocupou-me a reacção. Se ele disse o que muitos diziam, se não inventa argumentos no ar, só é alvo de crítica pelo modo?
No congresso pareceu-me que todos queriam continuar a fingir que tudo ia bem, se não fosse assim não teriam reagido como fizeram, nem teriam reconduzido o engenheiro tão perto da unanimidade.
Infelizmente, o seguidismo e umbiguismo (o perder a noção da necessidade de comunicar com o exterior) atinge geralmente níveis tão espantosos que até uma figura com o papel de Carrilho é útil para o PS. Mude-se a mentalidade e o Carrilho perdo o “empregoâ€?! Mas por enquanto dá jeito uma ave de agoiro inteligente. Ou mesmo um Manuel Alegre mais emocional. Seria interessante que o(s) senhor(es) se mostrasse(m) mais polivalente(s) mas cada um dá o que pode… Não há por ali nenhuma solução integrada.

Neste caso, em que não há um bolo para dividir, não se está no governo, eu temia que o pânico gerado pelo caso pudesse funcionar como produtor de cegueira, do tal seguidismo típico da governação, unindo a todo o custo por motivos de sobrevivência, deixando para depois funções mais elevadas do cérebro como a de fazer oposição.
Estaria o partido refém da direcção? Iam-se ficar pela guerrilha institucional? Haverá por lá ainda lucidez? O sinais exteriores eram preocupantes. O PS praticamente não tem existido enquanto oposição. Todos sabíamos mas nenhum sinal claro de que haveria mudança, de que havia consciência disso era dados. Carrilho à sua maneira ajudou-me a ter o esclarecimento. Escreveu o seu texto, participou da reunião e meteu a viola no saco. Pelos visto terá ele próprio ficado satisfeito. Cedendo à análise das motivações: o que é que ele ganhou com isto?

Se consideram que o tipo cumpre os mínimos para estar no partido, aturem-no e entendam o seu papel. Penso ainda noutros personagens do PS que apesar de tudo considero mais criticáveis do que Carrilho, o cronista da desgraça (resisto à tentação de lhe chamar profeta como vê). Lembro-me por exemplo do jantar de ontem, em Lisboa, há hora em que se reunia a comissão política. Exigia-se a mudança entre garfadas. Merecerão estes senhores canhonada tão determinada e avassaladora? Ou o facto de terem ido a votos no anterior congresso justifica o boicote à comissão política que realizaram?
Um abraço
Rui Branco

1 thought on “A dissidência e a conveniência no Adufe

  1. Pingback: barnabé

Comments are closed.