Moscas no pára brisas

Este dia não existe. Tudo parece incomum, caótico, incompreensí­vel. Surreal.
Onde estou? Num centro comercial em meio de semana, à hora da matiné. Amoreiras… No átrio de acesso a algumas salas de cinema.
Sentados nos poucos degraus, meia duzia de jovens aguardam a próxima sessão em estranho silêncio; rapazes e raparigas um pouco mais novos do que eu. Neste momento, parece-me impossí­vel imitá-los. Dobrar as pernas está definitivamente fora de questão. Estranho efeito produzido pelo intenso cheiro a pipocas e pela inebriante voz de Chet Baker que completa o ambiente. O que vim aqui fazer?

Desço os degraus, quase tropeçando, e fico junto à porta de mãos nos bolsos, observando as gentes. Assim estou como que acendendo um cigaro em dia ventoso, espreitando por debaixo da aba de um chapéu. Se me visse ao espelho tinha de estar vestido de gabardine e com um chapéu clássico, completamente cinzento.
À esquerda, a uma velocidade incrivelmente lenta, aproxima-se uma senhora, seguramente octogenária, de braço dado a um rapaz de fato que a ajuda a arrastar-se até à sala. Ela traz uma peruca castanha com um penteado de há mais de meio século, fazendo-o acompanhar da correspondente maquilhagem. Veste cores claras, castanhos e amarelos, destaca-se o xaile que surge bem ní­tido no conjunto. Todos os gestos lhe denunciam a idade. A peruca afigura-se mais com uma coroa genuí­na, de decano, do que com uma máscara de fantasia. É vaidosa, ainda. O rapaz não a guia, serve-lhe apenas de apoio, permite-lhe a determinação.
Vindo das escadas rolantes surge mais um grupo de jovens, este muito ruidoso, exclusivamente composto de raparigas. Olha ali, diz uma apontando, aquela senhora não é uma atriz dos filmes a preto e branco? A senhora não ouve; observa atentamente uma montra.

*
As portas das salas abrem-se finalmente. Zeno Saint-Lear Da Costa, eu, o fumador imaginário, regresso ao atrio. Espero um pouco curioso por descobrir qual o filme que a senhora da peruca vem ver. Entretanto, o homem da lanterna, que por acaso era uma simpática jovem, vendo-me com o bilhete na mão e com um ar meio perdido, pergunta se não quero entrar. Atiro-lhe um sorri e estendo o bilhete. Certamente, a senhora da peruca vem ver este filme, vem ver o cinema português de hoje. Deve ser.
Ocupo o meu lugar central na penúltima fila e descanso os olhos. Estou aqui para me abstrair de tudo por uma horas. Principalmente da última briga, a definitiva… O grande melodrama: gritos histéricos, choros de mansinho, escandalo com direito a expulsão do restaurante… Relaxa, Zeno.
A música ambiente subiu de volume, Masquerade berrava um corro de vozes. Fantasma da Ópera. Seguiu-se outro excerto de uma opera-rock, uma vozinha angelical afirmava I Don´t Know How to Love Him. Jesus Christ!… Superstar. Solta-se-me um enorme bocejo e volto a fechar os olhos. Está a resultar.
Um momento de silêncio, mas não é ainda o início da publicidade, começou outra selecção. A voz, aquela voz… A mesma voz… Ouço com atenção e com o coração aos pulos… I don’t care who I hurt, I don’t care who I do wrong… As I cuddled the porcupine, he said I had none to blame, but me. Held my heart, deep in hair, time to shave, shave it off. No time for romantic escape, when your fluffy heart is ready for rape. No!…No time… Que raio de ironia era esta? Aquela voz tão parecida com a da música inesquecí­vel, a «nossa música»! Your fluffy heart is ready for rape?! Senti-me o personagem de uma trama irreal, duma teia feita em plena febre. Eu era um pour boy handkinding thru’the blues. Raios! Diabo de cinema, merda de música. Porque é que não resisti à normalidade de ter uma música romãntica, a «nossa música»? Saí­ da sala, mas fiquei. Vi um filme e não vi. Nunca fechei os olhos nem chorei. As lágrimas rasgaram-me a garganta e acumularam-se pastosas à porta do estômago comprimido. Detestava-me impavidamente. Que estranha revelaço se escondia nesta ironia? She is looking at me? Talvez. Rindo.

Nota: excerto de Back in N.Y.C., Genesis, álbum The lamb lies down on Broadway, 1974

(proto-blog do meu ano de mais febril paixão pela rádio – até ao momento 1996)