Caso Esquisito (quase) Verídico

Tenebroso é o estado de espírito de um Sportinguista nesta noite… Tomem lá disto (uma Proto-posta de há uns anos)

Caso Esquisito (quase) Verídico

Gaspar era um rapaz decidido: gostava de salada de pepinos, de pimentos assados e de beringelas fritas em cobertura de ovo enfarinhado em trigo. No bolso, raras vezes o apanhavam sem uma alfarroba meio trincada.
Gaspar era ainda pequenino.

O Gaspar está preso num sítio muito branco e muito negro; é mesmo um daqueles pardais-de-prisão.
Entrou pela primeira vez na cela com um «Estou frito!» no pensamento e, desde então, não deixou de pensar a uma velocidade alucinante, como nem sequer se sabia capaz.
A imagem dele e do seu pai fazendo de almas penadas nas noites estreladas de fim de Verão, prescutando as oliveiras à caça de pardais, ele com a laterna e o pai com a pressão de ar, tem-no perseguido em muitas noites mal dormidas no cárcere. «Pardais fritos, estaladiços, humm…Bem bom!» aventava ele aos colegas de escola em conversa de meninice, a armar em grande caçador e apreciador de iguarias exóticas.

Um dia…

Gaspar era já rapazote, de barba bem formada, sempre amigo dos seus amigos de paródia: «Vamos pregar uma partida à Soraia?» e foram.
A Soraia estava na escola, no balneário das raparigas com mais três cachopas – e cachopas assentava-lhes na perfeição…
Num abrir e fechar de olhos viram-se trancadas lá dentro com um balde de pimentos vermelhos bem queimosos a arder. Com o reboliço espalharam-se os pimentos em brasa pelo chão enquanto o balde ardeu, a um canto, libertando um fumo negro e sufocante que depressa encheu o pequeno balneário. Noutro abrir e fechar de olhos… morreram.
Gaspar riu-se que nem um perdido com o resto da malta e que nem um perdido ficou quando a algazarra no balneário amainou e, por fim, se extinguiu.
Então, acabou-se a poesia popular ao castiço.

Hoje Gaspar já não gosta de pepinos, pimentos, beringelas e alfarrobas; é mais alpista e hospício. «Estaladiços, humm!… Bem bom!» repete em voz alta entre dois pensamentos insondáveis para quem o não está a ouvir.